Pseudopapel

Os mapas desatualizados da CPTM

Mapa desatualizado da rede da CPTM na Lapa

Já faz quase três anos que a CPTM deu início à mudança dos nomes de suas linhas, avisada em fevereiro de 2008 e implantada a partir de maio seguinte. As seis linhas eram conhecidas pelas letras de A a F, seguindo em sentido horário a partir da linha Luz–Jundiaí, hoje conhecida como Linha 7-Rubi. As cores eram, respectivamente, marrom, cinza claro, azul claro, bege, laranja e azul escuro. Uma pesquisa não-científica e de baixa amostragem feita pelo Jornal da Tarde naquele mês de fevereiro mostrava que nem 10% dos passageiros sabiam o nome das linhas que pegavam e muitos confundiam a letra atribuída à linha com o nome da estação de destino. Não fazia muita diferença para quem usava, segundo a reportagem.

Mesmo diante desse cenário, certamente não desconhecido da empresa, a CPTM resolveu alterar a nomenclatura de suas linhas, trocando-as por pedras preciosas e numerando-as de 7 a 12. Por que de 7 a 12? Porque o Metrô já numerava suas linhas de 1 a 5 e tem a Linha 6 em projeto desde março de 2008 — desde então, a linha segue em projeto, apesar de na época o prazo divulgado para conclusão fosse de “até 2012″. As letras para denominar as linhas da CPTM haviam sido implantadas quando da criação da chamada Integração Centro, na primeira gestão de Geraldo Alckmin no governo de São Paulo. Esse projeto fez com que Metrô e CPTM integrassem seus mapas de linhas cada vez mais, apesar das claras diferenças entre os serviços, embora com lotação cada vez mais similar. Com a mudança, essa integração seria acentuada.

Seria mesmo?

Afinal, as linhas do Metrô são conhecidas por cores, não por pedras preciosas. Isso sem falar que não é difícil imaginar que, se uma gigantesca maioria dos usuários desconhecia as letras que davam nome às linhas, talvez ainda mais passageiros ignorassem as tais pedras preciosas, muitas das quais nunca ouviram falar. Não duvido que uma eventual pesquisa hoje na CPTM resulte em um índice de quase 100% de pessoas que não saibam qual a cor de uma safira, pedra usada para representar a Linha 12. Esse mineral pode ser encontrado nas cores rosa, verde, amarelo, branco e até azul, a cor escolhida pela CPTM. Na mudança, algumas das linhas mudaram de cor. A atual Linha 7, antes marrom, agora é bordô (rubi). A atual Linha 9, antes azul claro, agora é de um verde azulado (esmeralda). A atual Linha 10, antes bege, agora é azul-turquesa (turquesa).

Mapa a Linha 7 da CPTM nos trens novos

Como se tudo isso não fosse o bastante para confundir os usuários, até hoje, quase três anos após a implantação, as mudanças não foram implantadas em toda a rede. Arrisco dizer que não tenham sido implantadas sequer em metade da rede. Na Linha 7 é muito difícil encontrar um mapa atualizado da rede em um dos trens, a não ser que você pegue um dos poucos novos que estão rodando por ali. E, mesmo nesse caso, o padrão seguido é totalmente diferente do que a companhia divulga em seu site. A própria Linha 7 ganha um vermelho vivo, ao invés do bordô oficial, como se vê na foto acima. Nos trens antigos, os mapas que se encontra são de todos os tipos, alguns mais, outros menos desatualizados.

Mapa em trem da CPTM com Paranapiacaba

O mapa acima é talvez o mais desatualizado em circulação na Linha 7, pois mostra a extensão a Paranapiacaba como fazendo parte da Linha 10, desativada desde 2001. Em dez anos, a CPTM não foi capaz de retirar esse mapa de seus trens. E não é difícil encontrar uma composição com ele na Linha 7. (A não ser pelos dos trens novos, os mapas da Linha 7 sempre mostram também a Linha 10, pois juntas elas formavam o trecho de planato da Estrada de Ferro Santos–Jundiaí.) As linhas ainda são apresentadas por letras e com as cores antigas, a Estação Barra Funda, hoje conhecida como Palmeiras-Barra Funda (já que é para complicar…), ainda tem seu nome antigo e curiosamente é apresentada, junto com a Estação Brás, como integração ao Metrô, o que é esquecido na Estação da Luz.

Mapa desatualizado da CPTM com linhas A e D

Este mapa é o mais fácil de se achar na Linha 7. Ele já não mostra a extensão a Paranapiacaba na Linha 10, mas ainda traz as letras como nomenclatura das linhas e as cores antigas. Apesar de já trazer o nome atual da Estação Palmeiras-Barra Funda, a integração com o Metrô na Luz também é esquecida.

Mapa da CPTM com integração inexistente

Já este mapa mostra que a inoperância da CPTM na última década não foi completa. No projeto Integração Centro constava uma ligação melhor entre as estações mais centrais, possibilitando baldeações entre as linhas A, B, D e E (atuais 7, 8, 10 e 11), que poderia ser feita nas estações Brás, Luz e Barra Funda. Além disso, as duas estações Lapa, que ficam em linhas diferentes (7 e 8), mas com cerca de quinhentos metros entre si e sem qualquer ligação, seriam integradas, possivelmente no leito da Linha 7. Nada disso saiu do papel, mas a empresa não deixou de à época, divulgar em seus mapas. Ao menos, depois que viu que a coisa não ia sair, colou mapas atualizados (na época) sobre os que constavam as ligações inexistentes. O vandalismo de alguns usuários, que não é revertido pela CPTM, mostra que a confusão poderia ser ainda maior.

Ainda assim, na Estação Lapa da Linha 7 o mapa que abre o artigo mostra como é fácil um passageiro se confundir baseado apenas em informações oficiais. O mapa pode ser conferido por qualquer um na plataforma 2 da referida estação. Ele mostra a tal Integração Centro e as integrações inexistentes nas estações Lapa e Água Branca, assim como uma tal Estação Bom Retiro que não só não existe como tem uma localização confusa no próprio mapa. Isso sem falar que as linhas, para variar, são identificadas por letras. Um mapa similar (sem a Estação Bom Retiro e as integrações na Lapa e na Água Branca) podia ser visto em ao menos uma composição da Linha B, como mostra o link, que aponta para uma foto de Evandro, forista do Skyscrapercity.

Mapa quase atualizado da CPTM

Desde dezembro, passei a notar que um ou outro trem dos antigos rodando na Linha 7 já está com mapas atualizados. Ou melhor, quase atualizados, como se vê acima. Porque ainda está faltando a integração com o Metrô não só na Estação da Luz — em dez anos e três versões diferentes, essa integração foi sempre esquecida, para finalmente ser lembrada nos mapas presentes nos trens novos — como na Estação Tamanduateí, inaugurada em setembro passado, embora ainda em operação assistida. Ainda que os adesivos tenham sido feitos bem antes de dezembro, será que a inauguração da Estação Tamanduateí pegou a CPTM de surpresa?

Enquanto isso, o departamento de Marketing da companhia prefere preocupar-se em exigir autorização de fotógrafos amadores para fotografar nas estações. O mesmo departamento de Marketing que levou décadas para trocar os mapas de linha que não estavam só desatualizados: estavam totalmente incorretos, mostrando estações que nunca foram construídas por anos a fio. Em 2003 ainda era fácil vê-los nas estações mais antigas da então Linha C (atual Linha 9). Como não passei por todas as estações das Linhas 8 e 9, não duvido que ainda seja possível encontrar um desses por aí.

Mapa da CPTM na Estação Socorro (2003)

9 comentários

Zé Maria (67)

Brasil, meu Brsil brasileiro… rrsss

7 de março de 2011, 12:22

gilberto maluf (66)

O Mapa da Linha, no mínimo, deve ser de fácil memorização e interpretação. Não conheço as linhas da CPTM. Parece mesmo que não querem simplificar.
abs

9 de março de 2011, 9:42

Zé Maria (67)

Vai ver que a verba para esse trabalho é pequena. rrss

9 de março de 2011, 9:49

Alexandre Giesbrecht

Mas com um diferente do outro para a mesma linha, fica bem difícil memorizar. Interpretar, nem tanto, pois é bem básico, embora não seja difícil imaginar que haja pessoas que se atrapalham.

9 de março de 2011, 22:13

Zé Maria (67)

Principalmente considerando o nível de escolaridade das pessoas…

10 de março de 2011, 9:01

Alexandre Giesbrecht

Foi exatamente nesse ponto que pensei. Porque é algo que vejo no dia a dia: as pessoas perguntam a outros passageiros ou a funcionários da CPTM (e do Metrô também) para onde devem ir, mesmo estando diante de mapas. Ou seja, se com a informação disponível já é difícil, imagine quando ela é conflitante!

10 de março de 2011, 11:18

Zé Maria (67)

Comprei um aparelho para medir dosagem de açúcar no sangue. A moça da farmácia, minha amiguinha, explicou tudo direitinho. Aí, cheguei em casa, abri a caixa e tentei ler um quilo de informações sobre como fazer tudinho, em ingl~es, japonês e, bem, também em português. Sabe o ue aconteceu ? Estraguei o primeiro cartucho de agulhinhas, que não devia, mas retirei para ver como era. Depois que tira ele não se encaixa mais. rrss
Resultado, acabo de voltar da farmácia para q amiguinha explicar tudinho de novo. rrsss
Entendeu, né ?

10 de março de 2011, 13:15

Lucas (1)

Você esqueceu de citar que, em um dos mapas acima, além de citar a extensão operacional até Paranapiacaba, ele também mostra a antiga parada Pirelli, próxima à fábrica de pneus da Pirelli, desativada desde 2006 e que já foi demolida inclusive, porém esse mapa mostra a parada como se ela ainda existisse e funcionasse.

28 de julho de 2011, 1:48

Alexandre Giesbrecht

Verdade, Lucas. E a Parada Pirelli aparece até em mais mapas do que a Roosevelt, de que tratei em outro post.

28 de julho de 2011, 7:25

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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