Pseudopapel

O centro paulistano discutido. Em 1974

O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)

É praticamente impossível determinar uma data exata de quando a degradação do centro de São Paulo começou, tantos são os fatores, das mais diversas eras, que a causaram. A recuperação é um processo que ainda está ocorrendo, mas não se sabe nem sequer se terá sucesso. Nas matérias de jornal com as quais trombo em outras pesquisas, pelo menos, consegui achar algo sobre o que provavelmente foi o primeiro estudo sobre a região e que pode, talvez, ser considerado o marco para a recuperação. O simples fato de esse estudo ter sido conduzido há quase quarenta anos já dá uma ideia de como esse processo é difícil.

Note que, em reportagem publicada pelo Jornal da Tarde, em 7 de outubro de 1974, um dos motivos para a degradação era citado, e só hoje em dia ele está sendo atacado. Nessa, matéria, o então coordenador da Coordenadoria de Gestão de Pessoas (Cogep), Evangelista Leão, disse: “A função ‘habitação’ está deteriorando-se no centro. Administradores de outras cidades já comprovaram que, na hora em que a área central fica 100% sem moradias, surgem problemas graves, como o alto índice de criminalidade, porque o centro fica vazio à noite.”

A Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb) dizia ter “cinco projetos de obras em desenvolvimento do centro”, mas eles não foram citados e, de qualquer maneira, eram considerados “obras isoladas”. Não é muito diferente do que se tem hoje, embora o poder público pouco tenha a ver com isso: são as construtoras e imobiliárias que estão migrando vários de seus lançamentos para o centro. É um tendência consolidada, mas não deixam de ser ações isoladas, sem um planejamento central — e esse planejamento central faz falta, pois, na maioria dos casos, são novos empreendimentos, localizados nos mesmos terrenos onde, antes, existiam apenas casas ou pequenos estabelecimentos comerciais. Ou seja, a infraestrutura municipal não é ampliada, o que tende a causar problemas futuros, como tanto alerto por aqui.

O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)

O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)

Outro problema citado na reportagem de 1974 dizia respeito ao Vale do Anhangabaú, que ainda era uma grande avenida, com um pequeno túnel (o chamado Buraco do Adhemar), constantemente congestionada, como se comprova pela foto acima, tirada pelo JT do alto do Edifício Martinelli. A Prefeitura vinha tentando consolidar os projetos existentes para o local, que eram, pelo menos, dez. Apesar de a estática ser considerada um fator importante, o que se previa, naquela época, era uma série de “passarelas delgadas” passando sobre o vale, o que deixaria o nível do solo apenas para os veículos. “O vale vai transformar-se num lugar onde o público se sinta à vontade”, explicou o diretor de planejamento da Emurb, Pedro Paulo de Melo Saraiva.

Difícil imaginar, ao menos com esse projeto. Ele acabaria cancelado, em 1980, embora a ideia tenha sido mantida, propositalmente ou não, em uma das “pontas” do vale, a Praça da Bandeira. Esse cancelamento, feito pelo então prefeito Reynaldo de Barros, provavelmente deu origem ao concurso que geraria, no final da década de 1980, o visual atual do Anhangabaú, com seus dois túneis e o paisagismo na superfície, voltado para pedestres.

Logo ao lado, o Edifício Martinelli era apontado pelo JT como exemplo da deterioração da região: “Há outros prédios nas mesmas condições, acabando-se aos poucos, mas a melhor amostra é o Martinelli. Um edifício que foi orgulho de seu dono e da cidade, que hospedou gente rica, onde se pisava em tapetes ou em mármore, onde a aristocracia se reunia para tomar chá. O prédio mais alto da cidade, de onde, por 1,5 mil réis, se via quase toda a cidade. Hoje, ninguém sobe lá. Nem de graça.”

E ninguém subia porque o prédio estava tomado pelo descaso. Dos treze elevadores originais, apenas cinco estavam funcionando, e nenhum deles subia além do 22.º andar. O Sindicato dos Alfaiates ocupava, desde 1962, seis salas no 24.º andar, mas queria, desesperadamente, sair de lá. E nem cogitava a hipótese de vender as salas, pois seu vice-presidente garantia que não haveria compradores. Afinal, sem elevadores para atender o andar, o lixo acumulava-se, isso sem falar em constantes faltas de luz e de água. Marginais e prostitutas também eram facilmente encontrados por ali, especialmente à noite.

Com o prédio nessas condições, não era de se surpreender que o outrora luxuoso Hotel São Bento, que já ocupara sete andares do edifício, estivesse nas mesmas condições. Ele já tinha aberto mão de três dos andares e de quase todo o luxo. Seus hóspedes não dispunham mais de portaria ou mesmo água quente. “Hotel era há mais de trinta anos”, lamentou o gerente, em 1974. “Hoje é lugar mal falado.” [Nota: ainda pretendo escrever mais extensamente sobre o Martinelli, que seria recuperado pela Prefeitura ainda naquela década.]

Também eram citados na reportagem a vizinhança do Minhocão, o Beco do Paissandu (que, no ano seguinte, veria seu nome mudado para Rua Abelardo Pinto) e o Mappin da Praça Ramos de Azevedo. Havia, ainda (e como sempre), projetos que nunca sairiam do papel, como a transferência do comércio atacadista da Rua Vinte e Cinco de Março para um “terminal” na Marginal do Tietê e a arborização das ruas que tinham sido convertidas em calçadões naquele ano.

Não consegui encontrar os resultados do estudo. É possível que ele tenha servido como base para diversas das ações sofridas pelo centro nesses 39 anos. Por outro lado, também é possível que não tenha sido usado para nada ou, mesmo, que ele nunca tenha sido concluído. Não seria nenhuma novidade por estas bandas.

2 comentários

Gilberto Maluf (66)

Alexandre, você falou que pretende escrever mais sobre o edifício Martinelli. Eu tenho algumas lembranças do tempo que já estava em processo de deterioração.
Em 1968, tinha 17 anos, fui ao Bar Gruta que ficava no subsolo, bem no início da descida par a avenida São João.
De dia parece que eles serviam almoço, mas de noite, foi, de longe, a boate mais antiga que vi em São Paulo. Parece mesmo que o bar lembrava, conforme li certa vez, aquele do filme Casablanca.
Para mim era tudo novidade e resolvi tomar uma cerveja e comecei a reparar coisas que nunca vi e fiquei impressionado. A música era tocada por três integrantes para lá de idosos e seus instrumentos deviam ser dos anos 20.
Eu sempre gostei das músicas da velha gurada, já naquela época, mas aquela lá era tipo Vicente Celestino e aí não dá.
Mas ao meu lado sentaram dua moças, de saias curtas. E o que vi me marcou muito. Uma delas passou a mão nas pernas da outra e falou alguma coisa sensual.
Eu fiquei impressionado, tinha 17 anos e o ano era 1968.
Outra passagem foi em 1974, eu tinha um Corcel e tinha conhecido uma moça que morava no Martinelli. Deixei o carro, já era madrugada, estacionado na Libero Badaró e namorei a moça nas escadarias do Martinelli.
Quantas histórias o Martinelli deve ter.
abs

19 de maio de 2013, 12:27

ralphgiesbrecht (42)

Dá para ver o antigo casarão que abrigou o 3o Exercito na Conselheiro Crispiniano e que foi demolido – outro enorme engano dos nossos governos.

19 de maio de 2013, 15:06

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Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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