Pseudopapel

Ainda as demolições, agora com loas da Vejinha

Demolição à Rua Dr. Alfredo Ellis

No fim de semana passado chamou-me a atenção a matéria de capa da Veja São Paulo, sobre “as aventuras dos corretores que procuram áreas na cidade para a construção de novos prédios”. Não, eu não estava interessado nas peripécias desse pessoal; queria, isto sim, ver qual era o enfoque dado na matéria, porque, pela capa, parecia que seria elogioso. De fato, a reportagem “Os Sherlocks dos terrenos” apresenta os tais “perdigueiros” como verdadeiros heróis, de uma maneira acrítica e laudatória, que ignora o fato de que as empreendedoras para as quais eles trabalham são responsáveis por agressões à memória da cidade e à qualidade de vida de seus moradores, algo tantas vezes citado por aqui, como quando falei da nova cara da Rua Martiniano de Carvalho.

Não me canso de falar isso: cada edifício erguido em um terreno onde antes havia uma ou mesmo algumas casas significa uma piora considerável na qualidade de vida de toda a vizinhança e até mesmo dos próprios futuros moradores do empreendimento. Isso sem falar em construções antigas representando a memória de São Paulo, que são vergonhosamente derrubadas, como o casarão da Paulista derrubado sorrateiramente de madrugada na semana retrasada, também fruto da ganância das construtoras — eu teria ilustrado este texto com uma foto desse casarão, mas demorei demais para ir lá fotografá-lo e agora, infelizmente, é tarde demais, então usei foto da demolição de duas casas na Rua Dr. Alfredo Ellis, em 9 de janeiro de 2007. A prática de demolições na calada da noite, aliás, já tinha sido levada a cabo nos anos 1980, quando casarões na mesma avenida amanheciam derrubados diante de um tombamento iminente. Tudo “coincidência”, é claro.

É realmente essa atividade que queremos enaltecer? Pelo visto, é o que a Vejinha quer, o que é lamentável ainda mais nos últimos tempos, quando suas pautas principais vinham sendo mais sobre a cidade e menos sobre as pseudocelebridades (“o dentista dos famosos”, “o puxa-saco dos artistas” etc.) que tomaram conta das capas da publicação por anos. Mas, também pelo visto, não é o que os leitores da Vejinha querem, ao menos se levarmos em consideração as cartas publicadas pela revista na edição seguinte: das seis sobre o tema, quatro são críticas, uma (de profissional do mercado imobiliário) é neutra e uma é elogiosa — não por acaso, escrita pela esposa de um corretor de imóveis. (Escrevi também um email para a seção, que acabou não sendo publicado, mas foi a base para este texto.)

8 comentários

Daisy Schmidt (10)

Acho q vc deveria ter encaminhado seu texto, para a revista Isto e.
Talvez aasim ele fosse publicado!

19 de novembro de 2011, 13:11

Ralph Giesbrecht (42)

É, temos de nos conformar. A cidade vai piorar sempre e quando descobrirem vai ser tarde demais.

19 de novembro de 2011, 20:08

Betty Feitoza (6)

Aqui na zona Norte, principalmente em Santana, estão derrubando quarteirões inteiros para construções de enormes prédios… Vejo a cada dia a gente perde aquele ar de cidade de interior que sempre tivermos…. Além de a gente ter que se conformar com essa triste realidade, ainda temos que aturar muita gente mal educada, que não respeita ninguém….

8 de dezembro de 2011, 1:11

Alexandre Giesbrecht

É, Betty. A especulação imobiliária cada vez avança mais. A ela não bastam os já saturados bairros centrais: vão em busca da tranquilidade que bairros um pouco mais afastados oferecem, ignorando (propositalmente ou não) que, assim que os novos empreendimentos ficarem prontos, tal tranquilidade irá para o espaço. E, ainda assim, seguirão anunciando esses novos empreendimentos com a exaltação de uma característica que já não mais fará parte da localidade. Muito triste isso.

8 de dezembro de 2011, 10:08

MARCELO NEVES (2)

Realmente uma pena isso!
Passei minha infância nessa rua,jogando bola,brincando de pique etc..Não havia violência ,nem assaltos.Todos eram amigos e se conheciam.
A pelada parava quando passava um carro e o gol era o portão de uma agência de publicidade,a Rino, ao lado da mansão Calfat….
Quando Vi a foto,logo lembrei desta época.

13 de janeiro de 2012, 21:30

Alexandre Giesbrecht

A Mansão Calfat, infelizmente, foi outra grande perda ali. Não sei onde ficava a agência, mas estou imaginando que ficasse no terreno onde hoje há um prédio razoavelmente novo. Outra perda, pois, além das duas casas demolidas na foto acima, já há cinco anos (nossa, tudo isso?!). Ao menos, ainda sobraram casas e até prédios antigos por ali. Resta saber por mais quanto tempo.

Marcelo, por acaso você tem fotos dessa época? Abraço!

14 de janeiro de 2012, 9:34

marcelo (2)

Oi alexandre, Com certeza tenho fotos sim,mas dos anos 70 e 80. Umas devem estar em slides e outras não.
Tenho que procurar aqui.
quando achar te envio um email,ok?
abç

16 de janeiro de 2012, 11:21

Alexandre Giesbrecht

Eram justamente fotos dos anos 1970 e 1980 que eu tinha em mente. Espero que ache. Se tiver das casinhas demolidas em janeiro de 2007, melhor ainda. Abraço!

16 de janeiro de 2012, 12:36

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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