Pseudopapel

A preocupação não é só com a memória

Casarão demolido na Rua Augusta

Na semana passada o site Folha Online, pertencente ao jornal Folha de S. Paulo, publicou uma matéria sobre um casarão na Rua Augusta que estava sendo demolido, para dar lugar a um espigão, provavelmente com nome estrangeiro. Até aí, nenhuma novidade: casas antigas são derrubadas com alguma frequência em São Paulo. A notícia, na verdade, tinha-me sido passada um dia antes pelo Douglas Nascimento, do site São Paulo Antiga, por e-mail. Ele logo atualizou a página sobre o casarão no site com a informação da demolição.

Enquanto isso, na página de comentários da notícia na Folha Online, havia quase tantos comentários favoráveis à demolição quanto contrários. Isso, claro, não foi exatamente uma surpresa. A surpresa estava contida nos motivos alegados para defender a demolição. Veja alguns exemplos:

  • “Preservar um prédio que nem tem informações históricas? Para que (sic)? Não é uma árvore ou um ser. Melhor uma construção útil, que todos possam usar e que acabe com aquele fantasma que deixa a região insegura.”
  • “Isto mesmo São Paulo, não a velharia, sou a favor do progresso. Tem mais é que por (sic) estes prédios antigos abaixo e dar lugar aos modernos, muda tudo, novos ares!”
  • “Essas coisas velhas e antiquadas só trazem nostaugia (sic) e bichos pra nossa linda e moderna cidade.”
  • “São Paulo já está com número alto de patrimônios históricos, colocando um prédio de nivel melhor ali melhora a região.”
  • “Já vai tarde, pois aquela região necessita urgentemente de imóveis novos (…) região central não pode mais conviver com o atraso e descaso.”
  • Hehehe, ja (sic) vai tarde!!! Confundir ruína com cultura, se esses comentários valessem alguma coisa, imagina o bonde, o lixeiro de carroção de burros, telefone de manivela e outras porcarias.
  • Haaaaa parem de chorar, tem mais que derrubar essas porcarias mesmo. Quanto mais obras mais empregos…
  • Já vai tarde esse lixo! Que venham obras que reduza (sic) a incrivel (sic) deterioração da área.
  • Velharia! Viva o progresso de são paulo, viva!!!
  • Muito Bom! Finalmente irão dar uma destinação a um terreno que era também ploblema (sic) social pelo abandono e pelas invasões. (…) Naquele pedaço tem (sic) mesmo que sair vários prédios e construções novas com o fulcro de acabar com as casas velhas e cortiços que por lá persistem.
  • Na minha modesta opinião, não vejo traços artisticos significativos nesse pardieiro. Que venha uma construção moderna e clean para revitalizar, ainda mais, a região.
  • Já tem muito casarão tombado em São Paulo. Não fará falta.

Ninguém é obrigado a admirar todos os casarões que ainda resistem em São Paulo, e nem todo imóvel velho é necessariamente histórico. Mas é preocupante que tanta gente despreze alguma coisa pelo simples fato de ser antiga. Não é de se admirar, pois, que a memória paulistana, paulista e brasileira seja sempre colocada para escanteio. Aí vai da consciência de cada um. Alguns criticaram o processo de tombamento, no que têm razão, pois ele é, na maioria dos casos, prejudicial aos donos dos imóveis, que se veem impedidos até de fazer reformas revitalizadoras. O problema, aí, é do processo, não do tombamento em si. Está na hora de mudá-lo.

Os comentários que defendem a gentrificação da região — incluindo um que está mais para higienização social pura e simples — ignoram um grande problema. Um prédio naquele terreno adicionará dezenas de novos automóveis ao trânsito já caótico das ruas Augusta e da Consolação. Isso sem falar que prédios, atualmente complexos isolados por muros, grades e cercas elétricas, não são nenhuma garantia de “revitalização” de uma região. Há exemplos que deram certo e exemplos que não fizeram diferença alguma. Ou seja, muitos dos comentaristas defendem uma solução mágica que, na verdade, causará outros problemas. Há quem defenda até a construção de “vários prédios e construções novas”. São Paulo e, mais especificamente, seu centro, ainda aguentam? Aguentar, até aguentam. Mas não sem impor uma grande redução na qualidade de vida de todos os moradores, não apenas dos novos.

4 comentários

gilberto maluf (66)

Realmente é um problema de memória e conscientização que infelizmente não temos, quase generalizando, nesta geração sem passado e talvez com pouco futuro.
Não respeitam nenhum tipo de cultura, edificações/monumentos, música, estilos e movimentos artísticos que fazem parte de nossa história.
É só conversar um pouco com este pessoal para ficar decepcionado.
abs

30 de dezembro de 2010, 22:13

Douglas Nascimento (14)

É um grave problema de educação que surge nas escolas brasileiras, onde não é incentivado o estudo da história dos bairros.

O indivíduo aprende história geral, aprende sobre a Grécia antiga, a II Guerra Mundial, o Iluminismo… mas não aprende a história de seu bairro! Não sabe porque a rua A chama A e a Praça Y chama Praça Y.

Enquanto não houver esta mudança, continuaremos lendo absurdos como os escritos nos comentários acima.

No São Paulo Antiga eu filtro comentários inúteis como esses.

2 de janeiro de 2011, 13:52

Alexandre Giesbrecht

Não vejo necessidade de filtrar, a não ser os mais ofensivos. Acho que é bom deixar registrados os comentários que demonstram o quanto o brasileiro está (des)preocupado com sua própria história. Eu já não fico decepcionado, nem quando converso nem quando leio tais comentários. Não sei se isso é bom ou mau.

3 de janeiro de 2011, 10:52

Douglas Nascimento (14)

A questão é que recebo muito comentário banal, irrelevante ou idiota.
Não libero comentários que não acrescente nada ao tópico em questão, ali não é um bate-papo informal, os comentários servem para ampliar o conhecimento sobre os imóveis dispostos ou para que pessoas encontrem pessoas que viveram ou trabalharam nos locais.
Nos tópicos do São Vito ou nos tópicos de hospitais existem verdadeiras histórias de vida, lindas de ser e que enriquecem o texto a qual eles comentam.
Liberar os comentários cretinos de quem só quer baixar o nível só atrapalharia isso.
Eu, tal qual você, também já não fico mais decepcionado quando leio…

4 de janeiro de 2011, 9:56

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Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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