Pseudopapel

A revista Sãopaulo não fala de São Paulo

Revista Sãopaulo, da Folha

Como tenho feito em quase todas as semanas desde a pri­meira edição, com­prei a revista São­paulo — ou, mais pre­ci­sa­mente, com­prei a Folha de S. Paulo de domingo, que vem com a revista encar­tada. E, como tem sido quase a regra, fiquei decep­ci­o­nado. A revista deveria tratar da cidade. Falar de seus pro­blemas, das pes­soas que a cons­tróem, da sua his­tória, de seus pro­jetos, de suas ideias. Em vez disso, faz repor­ta­gens que citam São Paulo apenas gene­ri­ca­mente. A capa da edição de domingo pas­sado é um per­feito exemplo disso: “Eno­mania — De R$ 23 a R$ 100, um guia para des­co­brir qual vinho tem o seu estilo”. E isso tem a ver com São Paulo porque…? Bem, não tem.

As duas páginas de aber­tura da res­pec­tiva matéria ainda tentam encaixar a cidade, com uma foto do sky­line do centro, estra­gada pela silhoueta nega­tiva de uma gar­rafa de vinho, e o título “Cidade engar­ra­fada”, mas tudo parece apenas um arti­fício para jus­ti­ficar a repor­tagem, cujo obje­tivo con­fesso é “dis­solver a pompa que ainda cerca a bebida”. Não sei ava­liar, e nem pre­tendo, se a matéria é boa ou ruim, mas está na cara que ela teria lugar num suple­mento sobre comidas e bebidas, na Ilus­trada ou até no Coti­diano. Na São­paulo sim­ples­mente não se justifica.

A edição da semana pas­sada também lista 12 das 51 capas já publi­cadas, o que só serve para com­provar a minha tese. Nas oito pri­meiras há assuntos que não me inte­ressam, mas que se encaixam per­fei­ta­mente em uma revista do tipo. Já as quatro últimas são fúteis e com nada ou muito pouco a ver com a cidade. A saber:

  • Na edição 37, de feve­reiro, “estu­dantes mos­tram como se vestem para ir à escola”. Hein? Essa moda tem a ver com a cidade? Claro que não!
  • Na edição 40, de março, “o design demo­crá­tico de Fer­nando Jaeger é tema de perfil”. Quem sou eu para deter­minar se um design é bom ou ruim? Mas, sendo bom ou sendo ruim, o que ele fala de São Paulo?
  • Na edição 42, de abril, “chefs de cozinha revelam as receitas que pre­param em casa”. Além do fato de a casa de cada um deles ficar em São Paulo, que raios isso mostra do dia a dia da cidade?
  • Na edição 50, de maio, “espe­cial verde indica solu­ções para mudar o seu mundo”. O espe­cial é com­posto de diversas repor­ta­gens “eco­ló­gicas” que ocupam 21 páginas, mas apenas seis delas tratam espe­ci­fi­ca­mente da cidade, mais dois terços de outra página. Mesmo que encai­xemos as três páginas sobre sacolas plás­ticas, uma polê­mica que pro­mete mexer com São Paulo daqui a alguns meses, ainda assim não temos metade do espe­cial falando sobre o que deveria ser o tema prin­cipal da revista.

Se com­pa­rarmos as repor­ta­gens de capa acima, sele­ci­o­nadas pela pró­pria equipe que faz a revista, com algumas das pri­meiras capas, é de entris­tecer. A número 1 trouxe foto­gra­fias iné­ditas da cons­trução da Linha 4 do Metrô. O número 7 falou do dia a dia de uma peni­ten­ciária femi­nina pau­lista (matéria que não me inte­ressa nem um pouco, mas que tem a ver com o que a revista deveria abordar). O número 12 trouxe talvez a melhor repor­tagem de capa da ainda curta his­tória da São­paulo, falando sobre lojas fun­dadas no início do século pas­sado e que ainda per­sistem. Mesmo recen­te­mente houve alguns bons exem­plos, como a matéria sobre os fla­ne­li­nhas publi­cada em março e a sobre vagas de esta­ci­o­na­mento publi­cada em abril. Foram repor­ta­gens que se apro­fun­daram em pro­blemas reais da cidade.

A revista ainda está devendo repor­ta­gens sobre a his­tória de São Paulo, algo que tem sido muito bem abor­dado pela mensal Época São Paulo, revista que também tem tido seus maus momentos. Já a Veja São Paulo parece estar se recu­pe­rando de um pas­sado recente em que maté­rias sobre “o den­tista das cele­bri­dades” e afins quase domi­naram as pautas de capa, mas ainda está longe do que foi prin­ci­pal­mente nos anos 1980, quando a cidade estava estam­pada em suas páginas.

Nas páginas de São­paulo, defi­ni­ti­va­mente, São Paulo ainda não está estam­pada. Por muitas vezes, a impressão que tenho é de folhear a finada Revista da Folha, que muito rara­mente tinha algo inte­res­sante (como uma repor­tagem sobre o Edi­fício São Vito publi­cada em 2002) e um ano atrás deu lugar à São­paulo. Sem dúvida, a versão atual é melhor, mas ainda tem muito o que evoluir.

3 comentários

Cris (19)

Con­cordo que ela é melhor que a revista ante­rior e que ainda tem muito a melhorar. Também não gosto dessas maté­rias de “cele­bri­dade” local. Mas até que oito de 12 está uma pro­porção melhor do que eu ima­gi­nava. abraços

12 de junho de 2011, 15:55

Alexandre Giesbrecht

Oito de doze numa seleção deles, né? Porque, espe­ci­al­mente a partir do número 18, pululam as capas fúteis e nada-a-ver, muitas delas não lis­tadas. A saber: 18 (“A chef Ana Soares é o cérebro por trás de 60 car­dá­pios de res­tau­rantes e bares pau­lis­tanos”), 20 (“Um ano depois da estreia no cinema, Laura Neiva se arrisca no teatro e flerta com Hollywood”), 27 (“A rotina de papa­ricos nos hotéis mais exclu­sivos da cidade”), 28 (“130 dicas de pre­sentes, roteiros de com­pras a pé em 7 bairros da cidade, 45 lojas de shop­ping que valem uma visita”), 32 (“Os bas­ti­dores do Balé da Cidade, que fes­teja neste ano o cen­te­nário do Teatro Muni­cipal”), 34 (“Punta é nossa” — “Punta é nossa”?!), 38 (“[Osesp] inicia tem­po­rada 2011 com sangue novo e von­tade de ser mais popular”), 44 (“Cinco empre­en­de­dores apre­sentam as fábricas pau­lis­tanas que abas­tecem a Páscoa do Brasil”), 45 (“Com ate­liês e gale­rias, a Barra Funda desenha um novo mapa artís­tico na cidade” — a repor­tagem pouco fala sobre o bairro em si) e 48 (“Os ingre­di­entes que fizeram a rede pau­lis­tana de res­tau­rantes abo­ca­nhar 180 mil cli­entes por mês”). Para ser justo, deixei de fora dessa lista várias capas com assuntos pouco inte­res­santes (para mim), mas que se encaixam na maneira como vejo uma revista dessas, como as listas de lugares para visitar e coisas para fazer.

12 de junho de 2011, 17:13

Ralph Giesbrecht (35)

Folha é Folha e sempre será…

12 de junho de 2011, 18:45

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