Pseudopapel

Entrevista com Juca Kfouri

Alexandre Giesbrecht e Juca Kfouri

Cerca de três anos e meio atrás eu decidi entrevistar o jornalista Juca Kfouri para conhecer mais da história da Placar, a fim de enriquecer o verbete sobre a revista na Wikipédia. Marquei com ele por email e fui à CBN, onde ele todas as noites durante a semana fazia o programa CBN Esporte Clube. Na data marcada cheguei lá, e ele atrasou-se. Quando me viu, já imaginou quem eu era, me pediu desculpas por mais de uma vez pelo atraso, causado por problemas particulares, e disse que eu poderia marcar a data que eu quisesse na semana seguinte para fazermos a entrevista.

Dito e feito. Ao invés de levar um gravador, usei minha câmera para filmar a entrevista, que foi praticamente toda focada na Placar. Gostei tanto do resultado que depois pedi autorização a ele para colocar alguns trechos da entrevista no YouTube, com o que ele concordou. Depois diagramei a transcrição da entrevista e coloquei o PDF no ar, com um link bem obscuro para ele. Foi a partir desse esforço que decidi escrever um livro sobre a história da revista, iniciativa que abortei quando descobri que isso já tinha sido feito, e benfeito, por outrem. Hoje decidi colocar a entrevista aqui, pois a Placar é um tema que já apareceu por aqui antes, e pretendo que volte a aparecer. Eu só queria ter uma foto melhor para ilustrar, mas a foto que bati dele apresentando o CBN Esporte Clube daquele dia saiu desfocada.

Como você foi parar em Placar? (Ver o vídeo deste trecho)
Eu fazia Ciências Sociais. Não tinha a menor intenção de ser jornalista. Na verdade, tinha me alistado como voluntário pro CPOR para ir aprender a dar tiro, porque eu era de uma organização clandestina de esquerda, de combate à ditadura, e um belo dia um amigo meu, que trabalhava no DEDOC (Departamento de Documentação e Pesquisas Jornalísticas da Editora Abril), me disse: “Estão procurando um cara para atender um projeto de uma revista semanal esportiva da Abril, o Projeto Alfa. E eu indiquei você.” Eu queria ter o meu próprio “aparelho”, porque uma coisa que me constrangia era o fato de ter uma atividade clandestina perigosa e de alguma maneira submeter meus pais e meus irmãos aos riscos que eu corria. Aí fui lá ser entrevistado pela alta cúpula da Placar, que já era um bando de jornalistas renomados: Woile Guimarães, Maurício Azêdo, Cláudio de Souza… Me entrevistaram, aparentemente gostaram e me mandaram fazer os testes psicotécnicos. Eu fiz e passei. Disseram: “Tá legal, vamos te contratar.” Eu tinha que me livrar do exército. Foi uma dificuldade, mas, para resumir, me livrei e comecei a trabalhar no DEDOC, atendendo Placar. Assim fiquei durante quatro anos, até terminar a faculdade, em 1974. Quando terminei a faculdade, já como gerente do DEDOC, ia começar a fazer pós-graduação, e o diretor da Placar então, o Jairo Régis, me chamou e me convidou para assumir a chefia de reportagem da revista. “Você está maluco. Eu nunca fui repórter.” “Placar precisa de um cara organizado, Placar precisa de um cara que pense grande, e chegamos à conclusão que é você.” Eu seguia na minha ideia de fazer carreira universitária. Mas tive que decidir, porque não daria para conciliar a vida de Placar com a pós-graduação. Eu já estava no primeiro semestre, mas resolvi que iria mesmo trilhar o caminho do jornalismo. Assumi a chefia de reportagem da Placar e, cinco anos depois, era diretor da revista. Foi assim que Placar caiu na minha vida. Eu sempre digo que, durante muitos anos, Placar era o meu filho mais velho. Talvez o grande equívoco que eu tenha cometido dentro da Editora Abril tenha sido o de achar que Placar era minha, e não da Abril. Tanto que, quando me pediram para tirar o pé do acelerador em relação à crítica que a revista fazia, por causa dos interesses de compra de direitos pela TVA, eu caí do 15.º andar.

Isso já na época em que você saiu.
Isso, 25 anos depois de ter entrado. Porque a vida inteira a revista era minha. A Abril nunca tinha feito nenhuma interferência na linha da revista. A revista era exatamente aquilo que eu queria fazer, era como se fosse minha.

Como foi na época em que você estava na Playboy e ainda comandando a Placar, de longe? (Ver o vídeo deste trecho)
Não só de longe, mas a Placar já era mensal e era uma revista temática. Muito mais fazia o Sérgio Martins e tal do que eu. Eu dava uma supervisionada. Quando fui para a Playboy, eu me joguei de cabeça na Playboy.

Quando eu conversei com o Celso Unzelte, ele falou que naquela época ficavam ele, o PVC até altas horas lá e…
…mal viviam. Foi mais do que isso. Eu assumi a direção editorial do grupo masculino.

Foi quando a Abril enjeitou a Placar.
Isso, porque terminou a Copa de 1990, com aquele fracasso…

Se o Brasil tivesse ganhado, a Placar continuaria semanal?
Provavelmente continuaria. Aquele ano foi terrível, porque o campeão paulista foi o Bragantino. No Campeonato Carioca, o Vasco e o Botafogo deram a volta olímpica — o título foi decidido mesmo no tapetão, quinze dias depois. Uma das coisas que lavavam a égua da Placar era final de campeonato estadual. Você tinha o campeão carioca, o campeão paulista, o pôster e tal. Foi um fracasso. A Copa foi o que foi. Aí acharam que deviam parar com o futebol. E inventaram aquela bobagem da revista Ação, que eu até fiz, porque mandaram, mas não botava a menor fé. E a Placar só não desapareceu de vez porque me deu um estalo e eu falei: “Escuta, não temos que manter esse nome? Então vamos aproveitar e fazer os 50 anos do Pelé?” “Legal. Faz. Mas faz com frila, não inventa moda.” Foi um puta sucesso, esgotou, ganhou Prêmio Esso. Para o ano seguinte, eu falei: “Vamos manter uma linha de revistas temáticas, com uma redação com quatro, cinco pessoas?” “Vamos, mas sem periodicidade, tá legal?” “Tá legal.” Só que eles não perceberam que eu propus doze revistas naquele ano. Toparam. Fizemos as doze. Ninguém dizia “Placar, a revista mensal de futebol da Editora Abril”, mas o fato é que ela era mensal. E passou a viver no azul. Pequeno, mas não dava prejuízo. E foi se mantendo. Até que em 1994 o Brasil ganhou a Copa, e aí eu consegui encaixar o projeto da nova Placar, revista de “futebol, sexo e rock ‘n roll”.

Era isso mesmo que você queria fazer?
Era. Esta é uma injustiça que cometem contra os que permaneceram em Placar e que sempre eu quero esclarecer. Dizem: “Pô, o Juca saiu porque não concordou com…” Não é verdade. Quem propôs a revista “futebol, sexo e rock ‘n roll” fui eu.

O que eu pergunto é o seguinte: você propôs isso porque você sabia que isso ia ser aprovado ou você propôs isso porque realmente você queria?
Eu queria uma revista de futebol. Um dia, o Roberto Civita me perguntou: “Você acha que é missão da Editora Abril ter uma revista de futebol?” Eu falei: “Não, acho que não.” “Mas é a sua, né?” Eu falei: “É, minha é.” Eu acho um absurdo que um país como o Brasil não tenha uma revista de futebol. Eu achava que isso tornaria o projeto mais palatável. São dois os grandes problemas do futebol brasileiro. O primeiro: são raríssimos na história do Brasil os presidentes da República que se interessam por futebol, que entendem de futebol, que conhecem futebol. O Lula é uma exceção. Até outro dia eu falei: “Talvez seja até melhor que não goste, já que ele está fazendo tanta bobagem nessa área, que vai ver é pior gostando.” Você conversava com Fernando Henrique, com Itamar Franco, com Sarney sobre futebol… [Faz olhar perdido, bate com as mãos em sinal de "nada".] Não sabiam nada. O outro é que os grandes patrões da indústria de comunicação também ligam muito pouco para futebol. Então, meu argumento era o seguinte: a garotada brasileira de novo tem ídolos, vencedores. Acabou o trauma, a depressão de 1982, da Seleção que não ganha. Hoje tem o Romário, tem o Bebeto, tem não sei o quê. Era visível nas ruas: crianças, meninas inclusive, indo para a escola com camisas de clubes. Então não pode ser uma revista só de futebol. Vamos fazer uma revista voltada para o público jovem, vamos brincar de música, a revista tem de ser uma árvore de Natal, tem que ter presente, tem que ter games e cards… E a revista foi lançada. A primeira edição vendeu 350 mil exemplares, com o Edmundo, “O animal precisa de carinho”. E foi um puta sucesso. Como projeto editorial, era uma coisa absolutamente inovadora no Brasil, nem tanto por mérito meu. Nós trouxemos dos Estados Unidos o Roger Black, um dos melhores diretores de arte do mundo, que se encantou com a revista e com o projeto e se dedicou 48 horas por dia até o lançamento. Mas a revista não deixava de ter sua pegada, e foi aí, no terceiro mês, que deu o problema. Foi uma situação absolutamente inusitada, porque a revista era um sucesso, estava sendo comentadíssima, ganhou prêmio de design e o diabo a quatro, e o seu diretor foi embora, porque havia um encarte, “Dossiê Placar”, alguma coisa assim, e deu merda. Pediram para parar.

Em 1972, houve outro encarte, em papel jornal, com o Tabelão e a rodada do fim de semana. Você ainda não era o diretor de redação, mas sabe por que começou? (Ver o vídeo deste trecho)
Era uma maneira de baratear. O problema é o seguinte: Placar a vida inteira deu prejuízo. São raros os anos em que Placar deu lucro. Eu, por exemplo, saí de Placar, em 1978, e fui para a TV Tupi. Passei três meses lá. Eles não pagavam o salário, pedimos demissão coletiva um dia às sete horas da noite e fomos a um boteco, umas quarenta pessoas, a equipe toda do jornalismo da Tupi, encher a cara. Fui dormir lá pelas cinco horas da manhã. Às dez horas da manhã, eu estava dormindo, e, como na minha casa não tinha telefone, meu pai bateu na porta, para me acordar. Minha mulher tinha ido trabalhar. “O que é, pai?” “A Sofia, secretária do Jairo Régis, ligou para você lá em casa. O Jairo está perguntando por que você não foi trabalhar.” Eu falei: “Pai, você está maluco? Eu não trabalho mais na Abril!” “Eu também não entendi nada, filho, mas o fato é que a Sofia pediu que eu viesse aqui à sua casa, que o Jairo quer falar com você.” Eu levantei, tomei banho, fui para a casa do meu pai e telefonei. “O que é?” “O que é o quê? São duas horas da tarde. Você não vem trabalhar?” Falei: “O que é isso, Jairo? É um convite?” “Não, é uma intimação. Tem lugar para você aqui, pô. Vem para cá.” E imediatamente eu voltei a trabalhar lá. Como editor de projetos especiais, que é uma dessas coisas que inventam para dar emprego. Me encomendaram fazer a coleção, a primeira dos grandes clubes brasileiros, que salvou Placar naquele ano e foi um baita de um sucesso. Placar fechou no azul por causa daquela coleção. Mas Placar, em regra, dava prejuízo. Foi um sucesso durante a Copa de 1970 e, terminada a Copa, passou a vender 35 mil exemplares.

Qual era a tiragem nessa época?
Durante a Copa, vendia mais de cem mil. Depois da Copa, começou a vender 35, 40 e fechava.

E tirava quanto?
Tirava os mesmos 110 mil, 115 mil. Então, sempre houve dificuldades, e por isso ela mudou de cara, de forma de fazer, com capa, sem capa, até morrer, até ser desativada como revista semanal. Teve aquele tempo da Placar Mais, Placar Todos os Esportes, tentou-se de tudo. De tudo. E para mim é muito claro: não haverá uma revista forte de futebol no Brasil enquanto o futebol do Brasil não for um futebol organizado.

Ao menos não numa editora como a Abril.
Mas aí é que está: nenhuma outra tem condições de fazer como a Abril tem. Ninguém distribui revista pelo Brasil afora como a Abril.

A minha opinião de uma revista semanal é que teria que ser local. Fazer uma revista só para São Paulo, por exemplo.
Mas, de certa forma, a gente fazia. Porque tinha uma capa para São Paulo, tinha uma capa para o Rio, tinha uma capa para o Rio Grande do Sul, tinha uma capa para Minas.

Mas vocês tinham que distribuir também no Ceará, no Amazonas…
Sim, mas aí era residual. Não é aí que você vende revista, entendeu? Nem a Veja. Se a Veja não fosse para lá, não faria a menor falta, do ponto de vista econômico. O problema é que é difícil, nessa bagunça que é o nosso futebol, manter viva uma revista semanal. Eu confesso que hoje tenho certa curiosidade para saber o que aconteceria com esse campeonato de pontos corridos, com menos futebol no meio de semana. O meu sonho sempre foi esse: falar da rodada que passou, poder apresentar direito a rodada seguinte e não morrer no segundo dia. O problema era esse. Você saía na terça-feira dizendo “Corinthians arrasador”, porque meteu 5 a 0 no Palmeiras no domingo, e na quarta-feira perdia para a Esportiva de Guaratinguetá. E a revista tinha 24 horas.

E hoje o pessoal para guardar isso tem que guardar o Lance, que é jornal e não é a mesma coisa.
Pois é. Mas também não se iluda com relação a uma questão: você olha para o Lance com um olhar de adulto; você olhava para a Placar com olhar de criança e olhar de adolescente. Provavelmente, a criança e o adolescente que compram o Lance têm com o Lance o vínculo que você tinha com a Placar. É assim que funciona. A relação que temos com o futebol quando criança é uma coisa que precisamos preservar. Eu tive uma discussão com o Clóvis Rossi na Copa de 1998. Ele estava indignado com a qualidade da Copa e brigou comigo porque eu escrevi que Brasil × Holanda tinha sido uma prorrogação extraordinária. “Não admito que você, que viu a Copa de 1970, diga um troço desses.” Falei: “Está bem. Vamos ver juntos a Copa de 1970 com o olhar de hoje?” Será que o Pelé chutava a bola 40 metros por cima do travessão? “Não!” Chutava… O Rivellino errava passe? Errava! Quando a gente fala assim: “Ah, o Corinthians nunca teve um time tão ruim quanto esse.” Teve sim! Teve piores. O “Faz-me Rir” é dos tempos dourados do futebol brasileiro. Não é da fase de exportação de jogador. Se você perde essa dimensão, aí você fica mal-humorado.

Também tem outra coisa: se você comparar o Corinthians de hoje com o melhor time brasileiro hoje, seja qual for, a distância é muito menor do que se você comparar o “Faz-me Rir” com o…
…o Santos do Pelé. Sem dúvida.

Sobre a “revista de 24 horas”, a Kicker alemã não é mais semanal. Ela sai às segundas e às quintas, resumindo a rodada anterior, inclusive a terceira divisão, e apresentando a rodada seguinte, em preto e branco, não sei a qualidade do papel. (Ver o vídeo deste trecho)
Deve ser papel jornal. Cospe da máquina. Uma das bem-sucedidas experiências que Placar fez foi exatamente na Copa de 1994, quando a gente fazia uma revista após cada jogo do Brasil.

Em papel vagabundo…
Em papel vagabundo, mas já full-color, com foto digital. Só o Pedrão Martinelli [fotógrafo de Placar à época] conseguiu transmitir aquele troço [os arquivos das fotografias]. E foi um sucesso. A primeira não vendeu nada, a segunda um pouquinho, a terceira um pouco mais, a quarta já satisfatoriamente, a quinta revista foi um sucesso… Na final, com o Brasil campeão, vendeu quinhentos mil. Foi um puta de um sucesso. Nunca ninguém tinha feito. Qual era o compromisso? Chegar junto com o jornal à banca? Mas isso não é, como princípio, a filosofia de uma revista. A revista não foi feita pra concorrer com o jornal. Mas, pelas particularidades nacionais, por mexer com a emoção… O fato é o seguinte: a Guerin Sportivo [revista italiana de esportes] deixou de ser o que era, a El Gráfico [revista argentina de esportes fundada em 1919 e que foi semanal até 2002, passando então a ser mensal] deixou de ser o que era…

E os escudinhos de botão? Entraram e saíram da revista três ou quatro vezes.
Quando saía, a molecada enchia o saco até conseguir fazer voltar. Aquilo era uma coisa bem-sucedida. Mas tinha que parar de vez em quando, porque esgotava. Era um pouco deliberado. Deixávamos a molecada começar a chiar e aí os escudinhos voltavam. Era um pouco uma brincadeira interna.

E o Tabelão, quando deixou de ser publicado, em 1985?
Ele não se aguentava mais financeiramente, porque era muito caro fazer o Tabelão. Mas todos nós sabíamos que era um pecado. São coisas que marcam a história da revista. Quando você tem que tirar, é como aleijar, como perder uma característica da sua personalidade. Mas era sempre por ditames econômico-financeiros.

E a época da Placar Mais? Foi algo preventivo ou reação a alguma coisa? (Ver o vídeo deste trecho)
Não, ali foi para não fechar. Vamos fazer bem baratinha, a um real.

E ela deu certo no começo?
No começo, ela foi a revista que mais vendia na Abril. A revista ficou a um real [na verdade, a um preço bem baixo na moeda da época, o cruzado, que sofreu alta inflação ao longo das semanas] um tempão, vendia feito água. Só que havia uma curva, e a partir de certo ponto ela se tornava antieconômica. Então tínhamos que segurar a tiragem, porque a partir de um determinado momento, quanto mais ela vendia, pior era o prejuízo. É delicado. Porque ela não vendia publicidade. Nunca vendeu. Nunca foi um bom veículo.

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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