Pseudopapel

Uma história que merecia ser contada

Em primeiro lugar, cumpro o dever de avisar que eu estava com um projeto de escrever a história da Placar, tendo inclusive feito e transcrito diversas entrevistas. Apesar disso, recebi com alegria o lançamento de Onde o Esporte se Reinventa — Histórias e bastidores dos 40 anos de Placar. Sim, é verdade que o livro basicamente torna desnecessário o meu esforço, embora ele não tenha sido menos prazeroso por isso. Mas meu desejo de escrevê-lo surgiu da vontade de ler essa história, que não sabia que já estava sendo contada. E o trabalho de Bruno Chiaroni e Márcio Kroehn possibilitou que eu não tivesse de esperar para lê-la.

A primeira impressão, claro, é o “pacote”. É um livro bem acabado, com papel de qualidade e mais de quatrocentas páginas. A não ser pela foto da Bola de Prata e pela pequena menção ao nome da revista no subtítulo, não se percebe que o tema é a história da Placar. Há algumas capas ao fundo, mas, não sei se propositalmente ou não, elas estão borradas e bastante escuras, a ponto de ser possível identificar apenas a do número 1, no alto à esquerda. A diagramação é bem cuidada e separa bem o texto do livro dos boxes com reproduções de matérias. A coluna deixada vazia nas laterais externas das páginas é um recurso para inserir notas “de rodapé” e eventuais auxílios gráficos, como capas das revistas de onde tiraram matérias, mas foi pouco explorada, e a gigantesca maioria das páginas ficou com essa coluna totalmente em branco. Já na página 323 um erro de impressão, que talvez esteja limitado apenas ao meu exemplar, sobrepôs pedaços de texto sobre o início das últimas linhas. Como isso aconteceu em apenas um centímetro, dificultou, mas não impediu a leitura. Já a impressão das legendas das fotos no encarte não chegou a ficar ilegível, mas foi escolhida uma fonte fina demais. A qualidade da impressão de algumas das fotos também deixou a desejar. Uma das pessoas que cederam fotos disse-me que a foto fornecida tinha melhor qualidade do que a que saiu.

O tema foi tratado desde o início com loas e reverências à revista e sua história, algo perfeitamente compreensível, não só pelo provável histórico dos autores com a revista (que, suspeito, deve ser bem parecido com o meu), mas também porque os entrevistados deixam muito claro o quanto a revista foi importante para eles e o quanto gostaram de passar por lá. Não que fique parecendo que a vida da revista foi o tempo inteiro o mar de rosas. Os inúmeros percalços e mudanças estão lá e foram tratados e quase todos detalhados. O único senão foi a fase “Todos os Esportes”, que foi esmiuçada a partir do momento que foi implantada, sem expor os motivos da decisão.

Apesar de o texto não seguir o tempo todo uma ordem necessariamente cronológica, a história é bem linear, sem exigir esforço do leitor para se lembrar em que fase da revista está. Contar essa história cronologicamente, com precisão de datas, seria quase impossível, e alguns temas, como a fotografia e a cobertura de outros esportes, ganharam capítulos à parte que ajudam a inserir histórias cujas datas se perderam no tempo ou que não se encaixariam facilmente na cronologia de acontecimentos que decidiram a sorte da publicação. Outras histórias nessas condições, mas que não tiveram como ser agrupadas em um mesmo tema, foram polvilhadas em microcapítulos ao final de cada capítulo, uma boa solução para não deixar muito material interessante de fora. A narrativa só se perde um pouco no final, quando a fase atual da revista, que já tem quase sete anos e inclui a criação do Jornal Placar, é passada em apenas oito páginas (mais os trechos de reportagens) e encerra-se bruscamente.

O recurso dos trechos de matérias dá a quem não as tem em arquivo a oportunidade de lê-las. Talvez elas devessem ter sido inseridas como apêndices no final do livro, mas não dá para dizer que incomodam a leitura, pois estão muito bem delimitadas e quem já as conhece pode pulá-las facilmente. Algumas delas poderiam ter sido resumidas — a da Máfia da Loteria ocupou quase 16 páginas — e outras talvez pudessem ser suprimidas, mantendo publicadas apenas as que de fato marcaram a história da revista.

Longe de comprometer o livro, a revisão deixou a desejar. O acento grave é usado incorretamente em algumas ocasiões e em outras há erros de digitação, especialmente nos trechos de matérias, o que sugere o uso de um software de reconhecimento de caracteres sem a devida checagem. Curiosamente, esses erros aparecem com mais frequência a partir da segunda metade do livro. Mas o único erro realmente grave está na página 413, quando o verbo “taxar” (“determinar, estabelecer a taxa do preço de”, de acordo com o Michaelis) é usado no lugar de “tachar” (“considerar depreciativamente, qualificar”, de acordo com o mesmo dicionário).

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Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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