Pseudopapel

Antes e depois: Rua da Consolação

Consolação com Xavier de Toledo

Alguns meses atrás meu pai mandou-me um e-mail com uma foto antiga de um bonde e uma per­gunta que pro­va­vel­mente era retó­rica: “Rua da Con­so­lação, em frente à bibli­o­teca?” Eu não tinha dúvida de que era lá; acho que ele também não. Na época eu tra­ba­lhava muito pró­ximo dali, e resolvi ir até lá tentar bater uma foto do mesmo ângulo (mais ou menos o da foto acima) para com­parar o que mudou. A com­pa­ração pode ser feita nas duas fotos publi­cadas no fim deste texto.

A pri­meira cons­ta­tação nada tem a ver com as mudanças: é muito mais difícil do que parece tirar uma foto do mesmo ângulo de outra, mesmo quando esta última está à mão. E fica ainda mais difícil quando pouca coisa sobrou das refe­rên­cias con­tidas na foto. Da pai­sagem con­tem­plada pelo pes­soal amon­toado no bonde, sobraram apenas um prédio e o Banes­pinha (atual sede da Pre­fei­tura), agora enco­berto por um hor­rível prédio vizinho à Estação Anhan­gabaú, na Rua Formosa.

Com tão poucas refe­rên­cias, o máximo a que eu podia aspirar seria mesmo uma foto apro­xi­mada. O ônibus que apa­rece não foi pro­po­sital e até atra­pa­lhou um pouco a foto, mas serve como con­tra­ponto ao bonde da foto antiga — embora a mão da rua tenha mudado. Não havia outra opção de qual­quer maneira, pois o trân­sito estava todo parado naquele último trecho da Con­so­lação. Só não con­segui des­co­brir de quando é a foto mais velha. Será que é de antes ou depois da che­gada de José Maria de Aquino a São Paulo? Será que Gill­berto Maluf se lembra dessa São Paulo?

18 comentários

Ralph Mennucci Giesbrecht (42)

Pelo bonde aberto, tem de ser no máximo início dos anos 1950.
E mais: o bonde não tem ainda o sím­bolo da CMTC, então é mais pro­vável ainda que seja de antes de 1947. Pouco antes.

20 de outubro de 2010, 9:42

gilberto maluf (64)

Ale­xandre eu che­guei em SP em janeiro de 1959, e no pri­meiro domingo fui ao cine Cru­zeiro no Largo Ana Rosa assistir Mar­ce­lino, Pão e Vinho, rs.
Comecei a andar a pé pela rua da COn­so­lação em 1965, ano de meu pri­meiro emprego. Acho que na Con­so­lação os abertos não pas­savam mais . Nesta rua de lojas de lus­tres na parte de cima, tinha lugar para um bar noturno que tocava Jazz, não me lembro mais o nome. Era meu caminho para ir ao Paca­embu quando descia do ônibus na ave­nida Pau­lista.
E que tra­dição tem essa rua.
abs

23 de outubro de 2010, 19:44

gilberto maluf (64)

E pelos carros da foto deve ser do início dos anos 50.
abs

24 de outubro de 2010, 11:42

Zé Maria (67)

Esse bonde é dos tempos da Light, quando, dizem, os cobra­dores mais espertos quando regis­travam as pas­sa­gens rece­bidas andando no estribo, puxavam duas vezes o cordão certa, da caixa regis­tra­dora e uma o cordão do sininho que avi­sava ao motor­neiro que podia seguir, porque quem tinha de descer já o havia feito, assim como quem tinha de subir. As pes­soas can­ta­ro­lavam assim — ^seu con­dutor dindim, dois pra Light um pra mim^. Em 1951 eu pegava o bonde diante do Teatro Muni­cipal e do Mappin, ele subia a Xavier de Toledo, Con­so­lação, ainda estreita — só bem mais tarde foi alar­gada. Seguia pela doutor Arnaldo e descia a Car­deal Arco­verde. Já era bonde camarão, onde pes­soas via­javam sen­tadas e outras de pé. Aquele predio de dois andares ao lado do cinza de três andares tinha uma bela livraria no térreo. E aquele predio no fundo que você chamou de Banes­pinha, era a sede sun­tuosa das Indus­trias Reu­nidas Fran­cisco Matra­razzo, inter­na­mente coberta com már­more de car­rara, legí­timo. rrsss

28 de outubro de 2010, 19:23

Zé Maria (67)

Um dia conto uma his­to­rinha, um diá­logo que pre­sen­ciei do Gino Orlandi e um tor­cedor bebum, num boteco defronte a saída lateral do prédio Mata­razzo, na Ladeira dr. Falcão. abrs

28 de outubro de 2010, 19:25

gilberto maluf (64)

E teve até a música , rsrs. E os deta­lhes das puxadas dos cor­dões.
De prima!
abs

28 de outubro de 2010, 19:48

Alexandre Giesbrecht

O gozado é que essas his­tó­rias sim­ples­mente não existem mais. Quero dizer, não as antigas, que sempre serão repe­tidas, mesmo depois que os pro­ta­go­nistas não esti­verem mais por aqui. Estou falando é das novas. Não existe um padrão hoje em dia sobre com­por­ta­mento similar em qual­quer dos meios de trans­porte, ao menos aqui em São Paulo. E olha que há situ­a­ções pare­cidas em qual­quer linha ou parte da cidade, como a super­lo­tação e as tarifas altas (o metrô em Buenos Aires, por exemplo, custa 5,6 vezes menos que o de São Paulo — e cobre uma parte muito maior da cidade).

Mas agora o Zé Maria está inti­mado a contar a his­tória do Gino Orlando!

29 de outubro de 2010, 9:03

Zé Maria (67)

Mas con­corde que nosso metrô é bem mais moderno, limpo, ilu­mi­nado. rrss

29 de outubro de 2010, 12:35

Alexandre Giesbrecht

Mas também con­sigo ima­ginar que as esta­ções deles, se man­tidas limpas e con­ser­vadas, seriam mara­vi­lhosas (Você andou nas da Linha A?). As da Linha H, bas­tante recentes, até lem­bram as nossas, mas têm um quê de um pouco mais anti­quadas, e não sei dizer por quê.

29 de outubro de 2010, 15:39

Zé Maria (67)

Nesta última vez andei de trem de San Isidro ao Retiro e de lá peguei a linha 5 (velha e baru­lhenta) que vai até a Cons­ti­tuinte. Mas me lembro das que tomava do Luna Park para os bairros, inau­gu­radas na década de 30, que eram úteis mas, natu­ral­mente, antigas e não muito bem con­ser­vadas. De qual­quer forma, a cidade é bonita, tem seu charme. abrs

30 de outubro de 2010, 8:05

Alexandre Giesbrecht

A linha da Retiro à Cons­ti­tui­ción (Linha E) é até uma das mais novas (perde da H). É que só a H é real­mente recente. As outras são todas de antes de o Metrô de São Paulo ser inau­gu­rado. E desta vez vi a favela de que você falou, que fica no caminho para Retiro de trem. É que da outra vez eu che­guei lá por outra linha, que não mar­geia a favela (ou ao menos fica bem longe, a ponto de não dar para dis­tin­guir direito). Tanto é que desta vez eu saí na última pla­ta­forma à direita de quem olha da rua, enquanto quatro anos atrás saí na pri­meira à esquerda. São várias linhas que chegam lá e ao menos três gares dife­rentes na Retiro, mais a de metrô. O sis­tema de trens deles é bem com­pli­cado. ALiás, o metrô tem algo bas­tante dife­rente do que estamos acos­tu­mados, que são as bade­a­ções por esta­ções dife­rentes: lá não existe uma estação como as nossas Sé, Paraíso, Ana Rosa etc. Você tem de bal­dear andando por túneis entre as esta­ções, como em Carlos Pel­le­grini (B)–9 de Julio ©–Dia­gonal Norte (E), que são inter­li­gadas, mas têm até nomes dife­rentes. Não é pos­sível ir da Dia­gonal Norte à Carlos Pel­le­grini sem passar pela 9 de Julio. Em parte lembra a bal­de­ação do metrô para o trem na Luz.

30 de outubro de 2010, 10:30

Zé Maria (67)

Se me lembro bem, em Madri tmbém é assim — para trocar de linha, é pre­ciso cami­nhar por tuneis. Coisas de metrôs que vieram antes. Os de Moscou, por exemplo, também vieram antes e cada estação é uma ver­da­deiro palácio por suas obras de arte. Viva BUA., de belas ave­nidas etc.

30 de outubro de 2010, 18:45

AbelCR (5)

Mais um pal­pite para ajudar a des­co­brir o ano da foto, o edi­fício em cons­trução parece ser o Brasilar.

10 de novembro de 2010, 1:05

Alexandre Giesbrecht

Eu não tinha pen­sado em tentar ima­ginar qual é o prédio em cons­trução na foto! Parece ser mesmo o Bra­silar, pelo porte e posição. Uma con­sulta a uma foto do local nos anos 1960 por outro ângulo mostra que só pode ser ele, mesmo. Estou tan­tando des­co­brir qual foi o ano em que o edi­fício foi construído.

10 de novembro de 2010, 12:32

gilberto maluf (64)

Acho que o edi­fício Bra­silar fica no início da 9 de Julho x Ladeira da Memória.

10 de novembro de 2010, 12:58

gilberto maluf (64)

Agora é que eu me loca­lizei, não tinha pres­tado atenção na foto e ima­gi­nava a Con­so­lação lá em cima. E a foto não é na rua Xavier de Toledo? A Con­so­lação ter­mina uim pouco acima.
abs

10 de novembro de 2010, 13:10

Alexandre Giesbrecht

Na ver­dade, a Con­so­lação ainda é o nome da rua até a Dr. Bráulio Gomes, pro­va­vel­mente, tanto é que o ende­reço da Bibli­o­teca Mário de Andrade é Rua da Con­so­lação, 94. Nesta visu­a­li­zação do Google Maps dá para ver como é con­fusa a nomen­cla­tura das ruas ali. Ou seja, os pré­dios da foto atual estão metade na Rua Qui­rino de Andrade e metade na Consolação.

10 de novembro de 2010, 13:19

gilberto maluf (64)

Cor­reto. Vol­tando ao Bra­silar, em 1977 eu parava meu carro no esta­ci­o­na­mento do Metrô/Shield na Ladeira da Memória, que ficava de frente para os fundos do prédio. Lembrei-me que caiu de cima do prédio uma pas­tilha de reves­ti­mento e veio sobre o teto do meu carro.
A admi­nis­tração pagou o pre­juízo.
Bons tempos de um centro que se podia andar a pé mesmo de madrugada.

10 de novembro de 2010, 13:28

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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