Pseudopapel

Por que a baldeação na Luz não funciona

Estação da Luz

Inau­gu­rada em 2004, a inte­gração entre a Estação da Luz, da CPTM, e a estação Luz do Metrô faci­litou a vida de muita gente, que não só deixou de pre­cisar sair de uma para entrar em outra, em uma região que não é conhe­cida pela segu­rança, como ainda per­mitiu que a trans­fe­rência fosse feita gra­tui­ta­mente. Apesar disso, já se pas­saram seis anos desde a inau­gu­ração da ligação direta, e ela cla­ra­mente ainda não fun­ciona como deveria. É claro que ela faci­lita, sim, a vida de muita gente, mas não faci­lita tanto quanto deveria.

Cito o exemplo de quem pre­cisa ir, por exemplo, da estação Piqueri, na Linha 7 da CPTM, para a estação Paraíso, na Linha 1 do Metrô. O caminho apa­ren­te­mente óbvio seria tomar o trem no sen­tido Luz e descer na estação final, segundo então pela ligação para pegar o metrô no sen­tido Jaba­quara até o Paraíso. Sim­ples, não? Nem tanto. Vale mais a pena per­correr uma dis­tância maior, com uma bal­de­ação a mais: basta descer da Linha 7 na estação Barra Funda, uma antes da Luz, tomar a Linha 3 do Metrô no sen­tido Ita­quera, fazer nova bal­de­ação na Sé, pegando o trem da Linha 1 no sen­tido Jaba­quara e des­cendo no Paraíso.

Como é pos­sível? São, basi­ca­mente, cinco os motivos.

  • A dis­tância por tri­lhos entre as esta­ções Barra Funda e Sé é mais curta pela Linha 3 do que pelas linhas 7 da CPTM e 1 do Metrô. Na pri­meira opção há seis esta­ções e duas bal­de­a­ções entre origem e des­tino (bal­de­ação para o metrô na Barra Funda, Mare­chal Deo­doro, Santa Cecília, Repú­blica, Anhan­gabaú e bal­de­ação na Sé), contra apenas duas esta­ções e uma bal­de­ação na segunda (Luz, bal­de­ação para o Metrô e São Bento). Apesar disso, a dis­tância real­mente é mais curta para quem segue pela Linha 3.
  • A saída da pla­ta­forma é con­fusa, com um grande gar­galo se for­mando nas poucas escadas que levam à trans­fe­rência. Esse pro­blema também ocorre na Barra Funda. Mas nas pla­ta­formas 2 e 3 da Estação da Luz ele é agra­vado jus­ta­mente pelo fato de as escadas aten­derem a duas linhas, a Linha 7 (pla­ta­forma 2, à direita na foto abaixo) e a Linha 11 (pla­ta­forma 3, à esquerda). Se a con­fusão já é grande apenas com os pas­sa­geiros egressos da Zona Leste, como na foto, quando chega mais ou menos ao mesmo tempo o trem vindo de Fran­cisco Morato o caos é ainda maior.
  • A bal­de­ação entre CPTM e Metrô é mais longa na Luz do que na Barra Funda.
  • O trem da Linha 7 demora mais do que deveria entre as esta­ções Barra Funda e Luz, indo bem devagar em boa parte desse trecho. Não sei se é o único motivo, mas um dos motivos é a favela sob o via­duto Orlando Murgel, peri­go­sa­mente pró­xima da linha — ela fica ainda mais pró­xima do leito da Linha 8, cujos trens não raro são obri­gados a parar no meio do caminho.
  • Há um sério gar­galo nas catracas de trans­fe­rência na Luz. Ali, quem vem da CPTM pelo cor­redor con­corre com os milhares de pas­sa­geiros que desem­bar­caram, muitas vezes ao mesmo tempo, de três linhas dife­rentes para seguir até a estação de Metrô. E são apenas dez catracas na trans­fe­rência, para atender ambos os sen­tidos. No horário de pico da manhã, cos­tumam ficar dis­po­ní­veis para quem vem da CPTM seis dessas catracas. É muito pouco. Tais catracas também existem na Barra Funda, mas em número um pouco maior e aten­dendo a apenas duas linhas da CPTM.

Não há o que fazer em relação aos três pri­meiros itens, e o quarto é difícil de se resolver, ao menos em curto prazo. Por isso, atenho-me ao último pro­blema: essas catracas são mesmo neces­sá­rias? Per­gunto pois espe­ci­al­mente na Barra Funda é comum ver gente pulando pelas catracas no sen­tido oposto quando o movi­mento é grande, isso sem falar que no cor­redor que liga as duas esta­ções Luz há uma outra linha de catracas que é facil­mente bur­lada pela lateral. Se a con­tagem de pas­sa­geiros que fazem a trans­fe­rência (falha, como se per­cebe) é tão neces­sária, por que não recuar a linha de blo­queios para a parte do salão que com­por­taria um número maior deles? O melhor motivo que con­sigo ima­ginar para não fazerem isso é que as pla­ta­formas do Metrô na Luz já ficam bas­tante cheias no horário de pico, e a falta do “curral” (a foto abaixo mostra uma situ­ação até “light” no local) pio­raria ainda mais essa situ­ação. Resta saber se a inau­gu­ração da inte­gração com a Linha 4 na Luz, pre­vista para o pri­meiro semestre do ano que vem, irá ate­nuar ou agravar o problema.

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4 comentários

Vitor Barbosa (1)

Por mais que um sis­tema tente ofe­recer um sis­tema de qua­li­dade, sempre haverá recla­ma­ções. Mesmo que o sis­tema seja um dos melhores no país.

25 de julho de 2010, 1:48

Alexandre Giesbrecht

O sis­tema, de fato, é um dos melhores, senão o melhor do País. Mas isso não sig­ni­fica que não haja o que melhorar, e há muito. As pró­prias fotos acima mos­tram que, se um dos melhores sis­temas está assim, a situ­ação nas outras cidades deve beirar o insuportável.

25 de julho de 2010, 21:14

Erivelto de Jesus Souza (4)

Caro Ale­xandre, li vários posts de seu blog e também sou admi­rador e até con­tri­buidor do “Esta­ções Fer­ro­viá­rias”. Sempre achei que o motivo real da exis­tência das catracas não é a con­tagem do volume de pas­sa­geiros na estação e sim evitar o excesso de pas­sa­geiros na pla­ta­forma, o que pro­voca inci­dentes e aci­dentes (na estação da Luz, na qual embarco para casa todos os dias, ocorrem brigas, pes­soas se machucam nas portas, balaus­tres ou no con­tato com objetos usados ou trans­por­tados por outras pas­sa­geiros), pes­soas caem no vão entre o trem e a pla­ta­forma tudo por conta do empurra-empurra e das pes­soas que querem aguardar em frente a porta para vol­tarem sen­tadas no pró­ximo trem (o que con­fi­gura mais um pro­blema, refe­rente a edu­cação das pes­soas). Acre­dito que o grande pro­blema de nosso modal de trans­porte metro­fer­ro­viário seja a falta de pla­ne­ja­mento do mesmo, já que muitos dos trans­tornos encon­trados pela CPTM/Metrô são resol­vidos com adap­ta­ções impro­vi­sadas — as famosas gam­bi­arras e não canso de citar quando con­verso com qual­quer pessoa sobre o pro­blema que a culpa é de falta de inves­ti­mento em trans­porte público. Tenho apenas o ensino médio, mas me basta para saber que todo o sis­tema de trans­porte que temos hoje seria algo sufi­ci­ente para a demanda de 20 anos atrás; muito ainda terá de ser feito (mas acre­dito que não será) para que não tenhamos ima­gens como as pos­tadas. Só para citar um exemplo, moro na zona leste pró­ximo a três esta­ções de trem e uma do metrô; em meu caso estou em Ita­quera, mas quem mora em São Mateus, Tira­dentes, a região do Ari­can­duva, a esma­ga­dora mai­oria uti­liza a linha 3 do metrô e o Expresso Leste para se loco­mover: faltam linhas alter­na­tivas e ade­quadas se exten­tendo em outras dire­ções e outras esta­ções que façam pro­pi­ciem uma inte­graçao efi­ci­ente. Alter­na­tivas estão sendo estu­dadas somente agora, com 20 anos de atraso ou mais, muitas delas, a meu ver, de baixo impacto, como o mono­trilo que che­gará a Cidade Tira­dentes e que não com­porta a mesma capa­ci­dade de pas­sa­geiros que o metrô, e que ainda assim ou não estarão prontas e seriam insu­fi­ci­ente para a, com o perdão da sin­ce­ri­dade, droga d3 Copa do Mundo em 2014 que em minha franca opi­nião só serve para tirar momen­ta­ne­a­mente a atenção do país para nossos reais pro­blemas sociais que real­mente mere­ce­riam a atenção.

13 de maio de 2012, 12:49

Alexandre Giesbrecht

Olá, Eri­velto. É uma boa aná­lise a sua. Só dis­cordo par­ci­al­mente de dois pontos.

  1. Vinte anos atrás, o sis­tema já estava defa­sado. Ora, o Metrô já nasceu defa­sado e, ao con­trário da Cidade do México, o exemplo que é mais citado em maté­rias a res­peito, não cresceu a con­tento. A pró­pria malha da CPTM pra­ti­ca­mente não cresceu em trinta anos, a não ser pela extensão da Linha 9, que, na ver­dade, é um trecho que tinha sido desa­ti­vado e voltou, moder­ni­zado, há pouco tempo. Pelo con­trário, a CPTM retirou tre­chos, como as exten­sões ope­ra­ci­o­nais das linhas 8 e 10 (a pri­meira deve voltar, embora seu cro­no­grama já esteja bem atra­sado). Tanto o Metrô como a CPTM deve­riam ter sido esten­didos desde os anos 1970, tanto com linhas para locais mais afas­tados, espe­ci­al­mente a zona leste, como com mais “nós” nos centro para per­mitir que haja mais de um caminho fer­ro­viário a se seguir entre dois pontos.
  2. A con­tenção de pas­sa­geiros nor­mal­mente é usada em exce­ções; o que acon­tece na Luz ocorre em todos os horá­rios de pico e, pior, não raro até fora deles. Ou seja, é questão de falta de pla­ne­ja­mento, mesmo. Um bom exemplo disso é o estron­doso aumento de fluxo na Luz com a aber­tura da Linha 4 do Metrô, que piorou sobre­ma­neira a situ­ação, tanto é que a Linha 10 deixou de alcançar essa estação. É bem ver­dade que as catracas em dois dos três pontos da Luz acabam fun­ci­o­nando como con­tenção, e pos­si­vel­mente isso não é tão invo­lun­tário assim, mas se as pes­soas tivessem alter­na­tivas isso não seria neces­sário. É bom lem­brar que no ter­ceiro ponto, o acesso à Linha 4, as catracas não têm “roletas”, então ali não há con­tenção alguma.

Quanto ao mono­trilho, você está cer­tís­simo. Acho uma teme­ri­dade em uma região tão carente de trans­porte fer­ro­viário colo­carem um meio de trans­porte que evi­den­te­mente não é ade­quado à demanda. Se ainda fosse uma solução muito mais rápida, tudo bem, mas, pelo que tenho lido, o prazo não é muito mais curto que o de uma obra sub­ter­rânea, que pro­por­ci­o­naria uma capa­ci­dade muito maior. E o pior é que essa linha é muito impor­tante em termos geo­grá­ficos, pois pela pri­meira vez em quase qua­renta anos será ofe­re­cida uma nova opção à zona leste. Ima­gino como ficará a Estação Vila Pru­dente no horário de pico da tarde, quando che­garão pela Linha 2 muito mais pas­sa­geiros do que o mono­trilho deverá comportar.

É claro que poucos dos pro­blemas do trans­porte público pau­lis­tano, em espe­cial o fer­ro­viário, têm fácil solução. Mas vê-se muitos anún­cios de pro­jetos que nunca saem do papel e poucas solu­ções de ver­dade. A “solução” para a Luz foi retirar a Linha 10. Foi um pali­a­tivo não só porque criou pro­blemas para dezenas de milhares de usuá­rios dia­ri­a­mente como também não resolveu a super­lo­tação da estação em horá­rios de pico, haja vista o trans­torno que você e eu obser­vamos todos os dias por ali. Metrô é caro, sim, e é a única solução, já que quase não há ter­renos na cidade para com­portar novas linhas para a CPTM no centro e suas vias atuais já estão satu­radas. Difícil é entender por que o Metrô anda tão len­ta­mente, não só pela solução que ofe­re­ceria como pela expo­sição que dá ao gover­nante que o inaugura.

O único con­solo é que o trans­porte fer­ro­viário aqui ainda é o melhor do país. Não por ganhar uma suposta — e ine­xis­tente — com­pe­tição, mas pela cons­ta­tação de que as coisas pode­riam ser bem piores. Triste isso, não?

13 de maio de 2012, 19:28

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