Pseudopapel

O novo Diário de S. Paulo e o velho Diário Popular

Diário Popular: 28 de novembro de 1977

Mesmo sem assistir muito à televisão, vi diversas vezes o anúncio do “novo Diário de S. Paulo“. E, mesmo assistindo diversas vezes a esse anúncio, perdi o primeiro número da nova fase, que foi no domingo passado. Não sei se o anúncio não falava em data ou eu é que não prestei atenção. Mas ontem finalmente conheci essa nova versão.

O antigo Diário Popular nunca foi um jornal com que tive muito contato. Conheço bastante da história do Estadão, da Folha e do Jornal da Tarde, mas muito pouco da história do segundo jornal mais antigo ainda em circulação em São Paulo. O que sei é que o jornal foi-se posicionando cada vez mais no segmento popular ao longo do século XX, embora mantivesse resquícios algo elitistas, como a manchete abaixo, de 28 de novembro de 1977: “Dantesco incêndio no Hotel Nacional”, sobre desastre acontecido no centro do Rio de Janeiro.

Pela imagem acima, também pode-se perceber como o jornal estava atrasado tecnologicamente em relação a seus concorrentes paulistanos. A composição parece ser toda manual nessa época, enquanto os demais já usavam técnicas mais avançadas. Quando li pela primeira vez um Diário Popular, em 1994, minha primeira impressão foi a de um Estadão de muitos anos antes. Àquela altura, os jornais que circulavam em São Paulo já tinham ao menos algumas páginas em cores desde o início daquela década. Mesmo o “enjeitado” Notícias Populares, que fazia tempo não ganhava atenção do Grupo Folha e seria fechado em 2001, tinha a capa e a contracapa de seus dois cadernos em cores, assim como uma segunda cor na impressão de diversas páginas. O Diário prosseguia totalmente em preto e branco, situação que só mudaria no final da década, de novo muito depois de seus concorrentes.

Apesar da aparência anacrônica, o conteúdo do caderno de Esportes do jornal nos anos 1990 era considerado um dos melhores da cidade e sempre trazia os resultados das rodadas noturnas, mesmo quando comprado em cidades mais afastadas de São Paulo. Quem estava no litoral, por exemplo, recebia o chamado “primeiro clichê” dos outros jornais, quase sempre sem o noticiário de partidas iniciadas depois das 20 horas, mas o Diário (e, a bem da verdade, A Gazeta Esportiva também) sempre vinha com elas. E esse noticário só perdia em tamanho para o da Gazeta, por motivos óbvios, mesmo tendo o mesmo número de páginas do suplemento equivalente do Estadão. Abaixo, um exemplo, de 29 de setembro de 1994.

Caderno de Esportes forte é um dos pilares do jornalismo dito popular, e o restante do conteúdo seguia à risca quase todas as outras diretrizes. A cobertura geral focava em assuntos voltados para as classes mais baixas, geralmente ignorados pelos concorrentes ou relegados a notas pequenas. Na pesquisa que fiz sobre a inauguração das estações da atual Linha 8 da CPTM em 25 de janeiro de 1979, o Diário foi de grande valia, pois foi o único que deu destaque ao assunto. As linhas dos trens então conhecidos como “de subúrbio” tinham até uma coluna semanal no jornal e um box com horários de saída, ambos patrocinados pela Fepasa, que via ali uma forma de conversar com seu público. Da mesma maneira, a seção de Variedades dava destaque principalmente a assuntos da televisão e a lançamentos do cinema.

Nos anos 1990 até aquele “verniz elitista” expressado pela manchete do incêncio no Hotel Nacional já tinha sido trocado por expressões mais populares: para ficar em um dos muitos exemplos, vitórias eram machetadas como “Time A detona Time B”. A única diretriz que parecia estar faltando é a do jornal colorido e bonito. Não que ele fosse feio. Com um design modulado, as páginas daquela época até hoje chamam a atenção de quem aprecia uma diagramação atemporal. Mas sem dúvida, ao lado de jornais coloridos que destacavam e valorizavam grandes fotos, o Diário via seu anacronismo realçado. A impressão em cores era inevitável, e veio entre 1998 e 1999.

Mais tarde, ao ser comprado pelas Organizações Globo, a impressão que ficou foi de um jornal incomodado com essa postura popular, tanto é que o nome foi mudado para Diário de S. Paulo. Eu não o lia diariamente, mas o jornal parecia alternar-se entre matérias e fases mais populares, beirando o popularesco, e menos populares. Isso, claro, acaba por afastar ambos os públicos, e a circulação média segundo o Instituto Verificador de Circulação caiu vertiginosamente, de 139.421 em 2000 para 57.010 em 2009, quando a Globo o vendeu para o grupo Bom Dia.

Os novos donos aparentemente resolveram voltar a dar uma cara ao jornal. Fala-se na redação em um “jornal popular de qualidade” e em “cobertura pós-noticiosa”. A primeira ideia é até óbvia, mas basta ver o que houve na última década para perceber que não é tão simples. Se o jornal quisesse deixar de ser popular, provavelmente não conseguiria, pois essa imagem está muito enraizada. Então volta-se a apostar em assuntos voltados para a grande massa, mas sem sensacionalismo. Já a segunda ideia é algo que defendo, para todos os jornais, há tempos: a análise das notícias. O “quem, o quê, quando e como” a gigantesca maioria das leitores já ficou sabendo no dia anterior, pela televisão, pelo rádio ou pela Internet, então o jornal passa a focar-se no “porquê”, com uma análise da situação. Em vez de falar “O político foi eleito”, contar por que o político foi eleito.

Na edição de ontem, a primeira da nova fase que li, isso foi muito benfeito, especialmente na matéria de capa, sobre a inauguração do corredor de ônibus que liga o Morumbi a Diadema. Sim, o texto fala que o corredor seria inaugurado hoje, mas esse não é o foco, que está voltado para os motivos do atraso e para a reação da população — embora o box “Veja o que aconteceu nesses 24 anos” seja dispensável. Para efeito de comparação, o JT, que também concentra seu noticiário geral na cidade de São Paulo, escreveu sobre o assunto no dia anterior, mas em um texto curto que não explorava as causas do atraso: “As obras do corredor começaram em 1987, mas enfrentaram problemas nas últimas duas décadas.” Vale lembrar que hoje um corredor de ônibus é um assunto que afeta uma parcela muito maior da população do que os trens de subúrbio 31 anos atrás. Apesar desse bom exemplo, a cobertura da cidade poderia ser mais estendida. A seção de Variedades, que ficou longa demais, poderia ceder um pouco de seu espaço para isso. No geral, minha primeira impressão foi boa.

Visualmente o jornal também ganha destaque nas bancas com o formato berliner, pouco maior que o tabloide convencional, e uma capa com grande espaço dedicado a apenas um assunto, muitas vezes conceitual, com muito espaço em branco para fazer a chamada sobressair-se ainda mais. Na edição de hoje, por exemplo, para falar sobre o preço da batata é usado um “Mr. Potatohead”, boneco em forma de batata. Não sei se isso está previsto, mas o espaço nobre da capa pode eventualmente ser usado para uma grande foto: o contraste com o espaço em branco da maioria das edições servirá para destacar ainda mais essa foto. Ainda há muitas possibilidades a ser exploradas, tanto visualmente como em termos de conteúdo. Mas pelo menos o Diário Popular Diário de S. Paulo voltou a ter um rumo.

1 comentário

Alfredo Dorigão Peres (1)

Bom dia. Trabalhei como linotipista no Diário Popular quando ele estava na Rua do Carmo, isso lá pelos anos de 1974-75. Preciso da comprovação desse tempo de serviço, pois estou querendo aposentar e minha carteira de trabalho foi perdida. Como faço pra entrar em contato com o Departamento Pessoal? Alguém pode me ajudar? Obrigado.
Sou de Nova Andradina – MS (67) 9.9943-8131 (vivo)

11 de julho de 2018, 8:21

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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