Pseudopapel

Só nesta era de redes sociais

O professor Mauricio Oliveira segura bilhete da primeira operação do Metrô de São Paulo, em 14 de setembro de 1974.

No último dia 25 de maio, com pelo menos dois meses de atraso, foi inaugurada em São Paulo a Linha 4 do Metrô, ainda em operação assistida, com trens circulando em horário reduzido apenas entre as estações Paulista e Faria Lima. A inauguração foi anunciada com apenas três dias de antecedência, e mesmo assim foi um sucesso de público, excedendo em muito as expectativas da ViaQuatro, a empresa que detém a concessão da linha por trinta anos. Isso não impediu que o povo que se propôs a conhecer a linha no horário marcado — a partir das 12 horas — tivesse de esperar por mais de uma hora para poder adentrar as novas estações.

Essa espera, entretanto, teve para mim o lado positivo de proporcionar uma história que só poderia mesmo acontecer nesta era da Internet que vivemos. Mais ainda: nesta era das redes sociais.

Não havia exatamente uma fila na frente da estação Paulista, onde eu estava. O pessoal foi-se juntando próximo à entrada, fechada com seus portões de vidro e guardada pela segurança do Metrô. Havia tanta gente que a CET foi obrigada a fechar um pedaço da faixa da direita da Rua da Consolação para que os pedestres pudessem seguir caminhando pela calçada sem ter de se embrenhar no meio de quem esperava para andar de trem de graça. Não havia muito o que fazer a não ser esperar.

Um senhor logo à minha frente então notou um fotógrafo, não sei de que veículo, ao lado, postado sobre uma floreira buscando imagens do povo esperando entrar. Ele chamou-o e disse que em 1974 fora o primeiro passageiro do Metrô, tinha até o bilhete da época na carteira para mostrar. O repórter fotográfico não pareceu dar muita atenção. Ou achou que era mentira ou não percebeu o valor jornalístico do fato. Depois de o senhor perguntar se não queria bater uma foto do bilhete, o fotógrafo bateu duas, mas com uma cara de pena, de quem queria se livrar logo daquilo. Eu, que tenho o bilhete da primeira operação do Metrô na estação Sumaré, em 1998, resolvi perguntar a ele se eu também poderia bater a foto. Ele logo prontificou-se, e bati fotos da frente e do verso do bilhete. Uma delas é a que abre este texto.

A entrada finalmente foi liberada menos de dez minutos depois, e segui fotografando a nova estação, sem flash (o que ajuda na luminosidade das fotos, mas prejudica na estabilidade da imagem). Depois de descer cinco ou seis escadas rolantes até chegar à plataforma, fui descobrir que a espera não estava encerrada. O primeiro trem chegou em apenas quatro minutos, mas… na plataforma oposta! Isso certamente ajudou quem desembarcava vindo da Faria Lima, mas para as muitas pessoas que estavam na plataforma que era indicada como a “correta”, seriam mais seis minutos até um novo trem aparecer. Enquanto isso, a plataforma ficava cada vez mais apinhada de gente. Não tão apinhada quanto a plataforma da Sé com destino a Itaquera, mas também não tão longe disso.

A plataforma da estação Paulista que futuramente terá como destino a estação da Luz, apinhada de gente no dia da inauguração.

Fui à estação Faria Lima, bati mais algumas fotos, inclusive do clima de “fim de festa” que tomava conta da área das catracas, depois que as autoridades já tinham feito seus discursos e uma escola de samba tinha se apresentado — tudo que sobrou foi o palco vazio e muito papel picado no chão. Na volta à Paulista, ainda consegui uma vaguinha na frente de uma das janelas na frente do trem e filmei o percurso todo.

No dia seguinte guardei, como de costume, muitos recortes de jornal sobre a inauguração, que usei para atualizar os verbetes sobre as respectivas estações na Wikipédia. Ao folhear o Estadão, vi que alguém deu a devida atenção ao senhor que tinha o bilhete da primeira operação do Metrô, que agora passava a ter nome: o professor Maurício Inácio Oliveira, de Camanducaia, MG. Não sei se foi o repórter Renato Machado ou o fotógrafo KeinyAndrade, mas a foto foi batida na saída da estação Faria Lima. Acessei a matéria no site do jornal e deixei um comentário contando da minha breve interação com o professor Maurício Oliveira.

E é aqui que chegamos ao ponto em que a história não teria seguido adiante dez anos atrás.

O site do Estadão não mostra nenhum dado dos usuários que comentam, a não ser pelo nome, e ainda assim o usuário pode colocar qualquer coisa. Eu geralmente coloco meu nome e sobrenome, e foi o que fiz ali. Para minha surpresa, cinco horas depois recebi uma mensagem com o assunto “orkut – mauricio wants to be your friend on orkut!”: “Olá. Foi você que me fotografou nesta quarta feira 26/05 no metrô de São Paulo? Caso sim, poderia me adicionar?” Sim, fui eu, e não tenho dúvida que ele me achou graças ao meu comentário no site do Estadão. Ele depois ainda deixou um recado no meu perfil, agradecendo pela atenção e dizendo que colocou as duas fotos que eu tirei em sua conta no orkut, com os devidos créditos.

4 comentários

Daisy Schmidt (10)

Que legal essa história. Mais legal ainda ele te encontrar no orkut e vcs poderem ter contato através de um encontro na inauguração de uma linha do metro.
Daisy Schmidt

4 de junho de 2010, 11:47

Cris (19)

Sou a favor de você fazer mais reportagens como esta =)

4 de junho de 2010, 21:49

Alexandre Giesbrecht

Você se refere a reportagens sem pauta, que surpreendentemente e por sorte rendem um tema interessante?

5 de junho de 2010, 9:44

Cris (19)

Yes!!!!!

8 de junho de 2010, 9:14

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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