Pseudopapel

O Viaduto Pompeia

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A inauguração do Viaduto Pompeia deu-se em 11 de outubro de 1970, cerca de seis meses após a entrega das obras do viaduto em si — ficaram faltando as cabeceiras. Em abril o prefeito Paulo Maluf já dava o viaduto como “totalmente pronto”, algo correto apenas semanticamente. Mesmo se descontado o tempo para a construção das cabeceiras, a obra foi entregue com bastante atraso, já que originalmente ele fora previsto para abril de 1969. A construção fazia parte de um plano de melhorias viárias para a Zona Oeste. Criado como mais uma das “soluções” que priorizavam automóveis, ele transpunha as linhas da Estrada de Ferro Sorocabana (atual Linha 8-Diamante da SPTM) e da Estrada de Ferro Santos–Jundiaí (atual Linha 7-Rubi da CPTM), que sofriam com abandono e trens suburbanos precários — além, é claro, do já moribundo transporte de passageiros de longa distância. Assim, as passagens de nível que existiam na Rua do Curtume e na Avenida Santa Marina poderiam ser eliminadas. De fato, foram, mas, no caso da última, foi mantida até hoje a passagem na Linha 7, provavelmente devido aos imóveis que existem entre as linhas 7 e 8 naquele trecho, em duas ruas em forma de “Y” hoje sem saída. É a única passagem de nível remanescente no município de São Paulo.

Antes mesmo da inauguração um vereador que morava na Lapa, Ephaim de Campos, questionava a obra, afirmando que o viaduto deveria ter sido construído inclusive sobre a Avenida Francisco Matarazzo e a Rua Turiaçu. “Isso para evitar que, em futuro próximo, com o alargamento das avenidas Pompeia e Heitor Penteado, viessem a ocorrer graves congestionamentos”, declarou Campos a’O Estado de S. Paulo em 2 de junho de 1970. Ele não poupou críticas a Maluf e chamou o novo viaduto de “monumento à burrice”. O vereador não deixava de ter razão em sua sugestão, especialmente se considerarmos dois fatos: (1) na confluência do viaduto com a Matarazzo foi criado um cruzamento que não existia; e (2) no primeiro ano de funcionamento, quem pegava o viaduto na Pompeia obrigatoriamente vinha da Avenida Francisco Matarazzo, pois a Avenida Pompeia tinha mão única “subindo” no trecho entre a Matarazzo e a Rua Turiaçu, ao lado de onde hoje há o Shopping Bourbon.

Levou mais de trinta anos, mas o viaduto não escapou da sanha dos vereadores paulistanos em dar novos nomes a logradouros já consagrados. Em 2006 projeto do vereador Carlos Bezerra Júnior (PSDB) resolveu homenagear o fundador de uma igreja evangélica usando, para isso, o nome do viaduto. Ao menos nesse caso o estrago foi menor, pois o nome passou a ser Viaduto Pompeia Missionário Manoel de Mello. “Segundo a legislação, é proibido retirar as denominações que se tornaram consagradas pela população”, escreveu O Estado em 27 de agosto daquele ano. Diga isso à Ponte Cidade Jardim. Ou melhor, à Ponte Engenheiro Roberto Zuccolo.

O Viaduto Pompeia andou pelo noticiário no início do ano, embora apenas seu mais popular tenha cido normalmente citado. Tudo devido a um incêndio em 9 de janeiro, quando o barracão da escola de samba Mocidade Alegre, localizado embaixo da estrutura, pegou fogo e comprometeu-a. A partir daquele dia o viaduto ficou totalmente interditado para automóveis, sendo parcialmente liberado algumas semanas depois, no dia 30. Com isso, o trânsito passou a fluir em apenas um sentido, usando para isso a pista menos comprometida pelo incidente. A Mocidade Alegre não teve grandes prejuízos com o incêndio, tanto é que seria campeã do Carnaval no mês seguinte; já a população de São Paulo que transita pela Zona Oeste sofreu com o trânsito por exatos seis meses. Ele deverá ser totalmente liberado ao tráfego amanhã, dia 10, após o fim das obras de recuperação da estrutura.

Já nos primeiros dias após o incêndio, quando o movimento na capital ainda era muito mais baixo que o normal, por causa da morosidade de todo começo de ano, os dois viadutos mais próximos que cruzam as linhas 7 e 8 da CPTM, Antártica e Nagib Brein (mais conhecido como Viaduto da Lapa; ô mania de ficar dando nomes de desconhecidos a tudo quanto é logradouro!), ficaram sobrecarregados. Isso piorou à medida que o movimento foi crescendo, com a volta das férias escolares. Transitar nesses dois viadutos durante os horários de pico da manhã e da tarde, em qualquer um dos sentidos, foi um teste de paciência. Sem a reabertura parcial do Pompeia, a situação nos outros dois viadutos teria sido ainda pior.

Dois dias depois da interdição a Prefeitura informou que precisaria de pelo menos duas semanas para definir quanto tempo seria necessário para o viaduto ser reaberto. Enquanto isso, comerciantes da região reclamavam de queda no movimento. “Com esse trânsito todo, [os clientes] acabam não se animando para vir”, explicou o sócio de uma padaria na Rua Guaicurus ao Jornal da Tarde no dia 16. Quando o viaduto foi parcialmente liberado, no final de janeiro, ainda não havia prazo para a reabertura total. Apenas as duas faixas da esquerda na pista que normalmente é usada no sentido da Avenida Pompeia foram liberadas, por ter sido esta a parte menos afetada do viaduto. Ainda assim, o limite de velocidade foi diminuído de 60 para 40 km/h.

Acesso ao Viaduto Pompeia congestionado

Acesso ao Viaduto Pompeia congestionado já na Avenida Nicolas Boer

O trânsito foi liberado no sentido bairro–centro das 6 às 17 horas e no sentido oposto das 17 às 22 horas, permanecendo totalmente fechado a partir das 22 horas até a manhã seguinte. Cinco dias depois, a prefeitura decidiu liberar o trânsito nos dois sentidos naquelas duas faixas (uma para cada sentido) entre as 10 e as 17 horas. Como esse horário estava fora dos picos, o impacto foi mínimo, positivo ou negativo. Tome-se como exemplo a foto acima, tirada pouco após as 10 horas de sexta-feira 27 de abril, com a Avenida Nicolas Boer totalmente parada no acesso ao viaduto. Ou a foto abaixo, com o congestionamento no viaduto, sentido Nicolas Boer, às 14h50 de sexta-feira 1 de junho. Nesse caso, as três faixas do acesso ao viaduto eram espremidas para apenas uma.

Viaduto Pompeia congestionado no sentido Barra Funda

Viaduto Pompeia congestionado no sentido Barra Funda às 14h50 de uma sexta-feira

A Prefeitura começou a trabalhar com um prazo de reabertura do viaduto entre final de agosto e início de setembro, dado pelo prefeito Gilberto Kassab durante uma vistoria em março. O prazo foi questionado, pois o contrato de emergência da obra previa conclusão em até 180 dias após o início da obra (13 de janeiro). A desculpa veio do secretário-adjunto de Infraestrutura Urbana e Obras, Luiz Ricardo Santoro, em trecho retirado do Jornal da Tarde: “O prazo mais alongado foi uma previsão mais ‘conservadora’ da Prefeitura, para não ‘frustrar expectativas’.” Dois meses depois, o prazo divulgado já era “meados de julho”. Finalmente, no início de julho foi estabelecida uma data definitiva, 10 de julho, dnetro, portanto do prazo previsto no contrato. A Prefeitura creditou a “antecipação” ao material usado para substituir a estrutura danificada, uma fita de fibra de carbono — algum especialista quer opinar nos comentários? Àquela altura, as duas pistas do viaduto já estavam parcialmente liberadas em horário integral, desde 29 de junho. A liberação total iminente animou alguns motoristas ouvidos pelo JT, mas uma pedestre não deixou de observar: “Ficou fechado esse tempo todo e não taparam os buracos da calçada?”

O custo divulgado da reforma foi de 10,8 milhões de reais. Até onde consta, nenhuma parte desse custo foi repassada à Mocidade Alegre, que, inclusive, provavelmente seguirá estocando material ali. O “privilégio” não é só dessa escola de samba. Os baixos de outros viadutos são usados para o mesmo fim, como o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel, mostrado na foto abaixo. Espera-se que não tenha o mesmo destino.

Baixos do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel

Baixos do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel, com material de escola de samba armazenado

5 comentários

Ralph Giesbrecht (42)

Muito bom! Uma história de erros e acertos…

9 de julho de 2012, 15:24

Zé Maria´Aquino (67)

Aqui pela Zona Sul, finalmente, estão cercando as partes que ficam abaixo dos diversos viadutos, que estavam sendo usadas como conomínio pelos infelizes moradores de rua.Mesmo assim, de quando em quando eles rompem os cercados e aí o local passa a ser, de fato, um condomínio fechadio. No Rio, também, um dos depósitos usados pelas Escolas de Samba pegou fogo, e a escola não só não pagou nada, como recebeu ajuda do governo local para refazer o que foi queimado. absd

10 de julho de 2012, 15:21

Alexandre Giesbrecht

É verdade, ocupações irregulares sob viadutos são outra ameaça à segurança do tráfego e dos próprios invasores. Como, aliás, já ocorreu no vizinho Viaduto Antártica e em diversos outros.

10 de julho de 2012, 15:44

Sandro (1)

Amigo, a foto do topo já está ultrapassada….já não da mais para tirar uma foto igual pois estão construíndo o Residencial Casa das Caldeiras…
De qualquer forma estou contente que a ação jurídica que nos vizinhos movemos contra a escola de samba Águias de Ouro (que ficava em baixo da ponte em frente ao Kalunga) teve sucesso e eles foram expulsos. Finalmente um pouco mais de silêncio…

Interessante sua parte sobre a Avenida Santa Marina (que em todos os GPS que conheço liga a Guaicurus com a Marchetti…) desconsiderando a linha do trem que a interrompe…porquê será que foi feita uma burrice dessas?

10 de julho de 2012, 16:02

Alexandre Giesbrecht

É, estão construindo os monstrengos entre a Matarazzo e as linhas do trem. Numa foto publicada ontem na Folha, só que tirada a partir do outro lado, vê-se bem o estrago que eles estão fazendo na paisagem (culpa de quem compra apartamento lá! hahahahahahaha). Por isso que o texto em que publiquei a foto originalmente chamava-se “Esta paisagem vai acabar”. Já acabou.

A questão do GPS deve-se, certamente, à passagem de nível que ali existia, embora ela já tenha sido suprimida há muito tempo, certamente desde antes de o primeiro GPS entrar em operação. Mas, se até o Google Maps traz a Estação Carlos de Campos (e outras mais) da CPTM, que já não existe há doze anos…

Ah, e faltou haver vizinhos do outro lado da ponte. Se eles tivesse conseguido expulsar a Mocidade Alegre, provavelmente o incêndio não teria ocorrido!

10 de julho de 2012, 16:25

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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