Pseudopapel

De Maceió a Recife de ônibus

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Uma viagem de ônibus entre Maceió e Recife não é quase nada diferente de uma viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. A começar pelo modo como a passagem foi comprada, pela internet, por meio do site da Real Alagoas, direcionado ao site da NetViagem, especializado em venda de passagens de ônibus intermunicipais. Eu já tinha usado o site poucos dias antes, para comprar uma passagem do terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo, para Maresias. Minha passagem de Maceió para Recife foi comprada no dia 11 e custou 54,90 reais, o que não incluía a taxa de embarque de três reais, a ser cobrada, em dinheiro, na rodoviária de Maceió quando eu fosse retirar a passagem física. Chegando lá, peguei uma pequena fila e, enquanto esperava, percebi que eu tinha esquecido de imprimir meu voucher. Teria eu de apelar para uma lan house na própria rodoviária?

Não. Abri meu email pelo celular e mostrei a confirmação para a atendente. Foi o suficiente, e em instantes eu estava com a minha passagem física na mão. Junto com ela vieram grampeados o onipresente formulário para eu preencher com meu nome e o número de meu RG, além de um pequeno tíquete do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) que servia como comprovante de pagamento da taxa de embarque (paga na própria rodoviária, em dinheiro, e não quando da compra pela internet) e foi mais tarde carimbado com “Embarcado” por uma funcionária da rodoviária quando adentrei a área das plataformas, cuja entrada era protegida por grades.

Bilhete rodoviário de Maceió a Recife

O veículo que peguei, o da foto lá em cima, é moderno e confortável, com apoio para as pernas e televisões. Estas, aliás, são o inconveniente da viagem, pois ficam ligadas o tempo todo, com o som saindo por alto-falantes, não por meio de fones de ouvido. A minha viagem, iniciada pouco depois das 19 horas de sexta-feira 20, começou com o desenho animado Happy Feet na televisão, seguiu com o drama Sempre ao seu Lado, com Richard Gere, e depois com Scooby-Doo! A Maldição do Monstro do Lago, este interrompido (para mim) quando desci do ônibus próximo ao Aeroporto dos Guararapes, no Recife, bem antes da rodoviária. Graças à maratona cinematográfica, foi impossível dormir ao longo das três horas e meia de viagem, feitas após um dia de trabalho em Maceió.

Isso não seria um problema para quem quer contemplar a paisagem, o que certamente era o meu caso durante um percurso que eu estava fazendo pela primeira e provavelmente última vez na minha vida. O problema é que, após sairmos do perímetro urbano de Maceió — o que demorou mais de meia hora, mesmo sem trânsito —, praticamente não se via mais nada, devido à escuridão. O ônibus passa por áreas despovoadas, com poucas cidades no caminho, ao menos visíveis da estrada, a BR-101. Como era uma noite de chuva e tempo fechado, não havia lua visível para iluminar a vista ou estrelas para contemplar. Havia outra rota disponível pela AL-101 e pela PE-060, que seguem margeando a costa dos dois estados, mas no horário das 19 horas, o último do dia, havia apenas a BR-101 como opção. Quando alguma cidade ou povoado surgia, geralmente dava para se ver alguma coisa, quase sempre a paisagem comum a qualquer rodovia de pista única quando passa ao largo de alguma localidade: postos de gasolina com dezenas de caminhões estacionados, borracharias, bares etc.

Fotos? Nenhuma decente, e apenas esta abaixo minimamente aceitável. Onde é? Não faço ideia. Só sei que ficava à direita do ônibus, porque era desse lado que eu estava sentado. Tudo bem que eu esqueci de levar minha câmera, e a do celular teve de resolver, mas acho difícil que os resultados ficassem muito melhores.

Em algum lugar da BR-101, entre Maceió e Recife

Com paisagens visíveis ou não, o movimento na estrada, ao menos naquela noite de sexta-feira, não era grande. O ônibus podia rodar a uma velocidade razoável, embora eu não saiba nem o limite da rodovia nem a quanto ele estava rodando. Quando a velocidade diminuía, era fácil perceber que havia um veículo mais lento à frente, geralmente um caminhão. Em seguida, o ônibus caía para a esquerda, na contramão, e fazia a ultrapassagem. Aparentemente, sempre segura: eu não conseguia ver a faixa central, pois estava num dos assentos à direita, mas dificilmente se via faróis de carros no sentido contrário iluminando os para-brisas do ônibus. Ainda assim, por não conseguir ver direito o que ocorria, você acaba ficando com o coração na mão até voltar à faixa correta. Isso sem falar na chuva intermitente ao longo de toda a rota.

Eu tinha me “preparado” na rodoviária de Maceió, com um pacote de salgadinhos e outro de biscoitos, além de uma garrafinha de suco. Não teria sido necessário, pois no meio do caminho um dos funcionários da Real Alagoas passou vendendo salgados quentes em uma caixa de isopor, além de bebidas. Ele passava de poltrona em poltrona “tirando” os pedidos, praticamente da mesma maneira que os comissários de bordo fazem em voos da Azul Linhas Aéreas Brasileiras. O cheiro dos salgados estava até convidativo, mas àquela altura eu já estava saciado pelo conteúdo dos pacotes que eu tinha comprado horas antes.

Era só quando passávamos pelas maiores cidades que o sinal do celular voltava. Durante quase todo o trecho da BR-101, nada de o celular funcionar. Consequentemente, o GPS também não funcionava, dependente que é de torres para triangulação. Felizmente, nas proximidades de Recife o GPS voltou a funcionar, já que acabei dependendo dele para saber onde descer. Ainda em Maceió, eu tinha perguntado a um funcionário da Real Alagoas se seria possível descer próximo ao aeroporto, região muito próxima do meu hotel. Ele disse que sim e que o motorista avisaria a todos os passageiros (“Ele vai gritar ‘Aeroporto!’”, foi a expressão usada). Mas isso não ocorreu. Eu sabia que podia descer ali graças ao GPS. Claro, eu poderia ter perguntado a alguém, mas eu teria que ter feito isso também nas outras duas paradas já na capital pernambucana. Ir até a rodoviária tornaria a viagem muito mais cansativa e dispendiosa, pois ainda demoraria algum tempo e depois eu seria obrigado a pegar um táxi ali, já que o metrô não estaria mais funcionando.

Do táxi não me livrei, mas o hotel era bem próximo dali. A corrida, sem taxímetro ligado, deu dez reais, pouco mais de dois reais além do que provavelmente seria cobrado no taxímetro em bandeira 2. Mas às onze da noite eu não iria reclamar.

21 comentários

Ralph Giesbrecht (42)

Eu fui de Maceió a Recife com meus pais, seus avós, em 1965. Uma estrada horrorosa: em AL, terra com pedaços de asfalto, o que a tornava mais perigosa. Atravessando a divisa com PE, asfalto. Horrososo, mas bem melhor que o de AL. Tudo isso numa Kombi. E numa estrada que não é a de hoje, sem sinalização alguma. Tínhamos de adivinhar onde entrar nas bifurcações.

30 de janeiro de 2012, 22:09

Alexandre Giesbrecht

Mas vocês foram pela BR-101 ou pelo caminho beirando o litoral?

30 de janeiro de 2012, 22:11

Thiago Leal (9)

O caminho que fiz recentemente, de Bonito para Recife, pega parte do caminho que você fez. A última vez que fiz esse caminho (Maceió-Recife) foi em 2003, acho, voltando de Salvador (de carro). É um caminho com algumas paisagens bonitas se acontecer de passar pela região de Gravatá.

31 de janeiro de 2012, 0:19

Thiago Albuquerque (1)

Long way back from hell hahahahaahahahahahahaha

31 de janeiro de 2012, 2:55

Adriana (1)

Oi, vc foi pela BR? No ônibus convencional, o q faz pinga pinga, né?

7 de junho de 2012, 14:21

Alexandre Giesbrecht

Oi, Adriana. Fui pela BR, sim, no convencional. Mas não me recordo de ele ter parado muito no caminho. Parou, mas só uma ou outra vez, pelo que me lembro. É isso mesmo?

7 de junho de 2012, 17:31

João de Oliveira (1)

Sempre faço este caminho de carro, são 130Km de Maceió/AL até Palmares/PE sem duplicação, o que fica um pouco perigoso por causa da quantidade de caminhões, e não tem muitos pontos de apoio.
De Palmares/PE até Recife/PE são 100Km de pista duplicada.

9 de junho de 2012, 10:56

Alexandre Giesbrecht

Olá, João. Realmente, boa parte do trecho era sem lugares onde se pudesse parar. Talvez por isso mesmo não tenha havido muitas paradas. Como eu estava no lado direito do ônibus, eu não conseguia ver muito bem o movimento em sentido contrário. Mas a falta de duplicação era evidente, pelas inúmeras ultrapassagens feitas.

9 de junho de 2012, 12:34

Flávia (3)

Olá, não sei como mas acabei parando no seu blog. :)
Sou de Maceió e conheço bem essa rodoviária bem como os ônibus da empresa Real Alagoas, então posso dizer que pela foto que vc postou do ônibus e pelo preço que vc pagou, esse ônibus não é o convencional. Creio que seja o executivo!

10 de agosto de 2012, 8:25

Alexandre Giesbrecht

Olá, Flávia. Era o executivo, sim. Na foto da passagem, dá par ler “Percurso: Maceió/Recife BR 101 Exe…”. Acho que quando respondi o comentário acima eu ou me confundi ou estava me referindo ao “pinga-pinga” (que o ônibus fez). Ou então esqueci, mesmo! hehehehehe

11 de agosto de 2012, 10:44

Luan (1)

Estou pensando em fazer essa rota de ida e depois voltando a MCZ, seu relato foi de muita valia.

9 de novembro de 2012, 0:49

fabio (1)

Eu também estou pensando em fazer essa rota, naverdade estou em duvida se vou de aviao que se gasta 30 min ou de onibus que sao 3:30h de viagem, mas foi importante esse relato, deu para esclarecer muita coisa.

13 de dezembro de 2012, 12:04

João Neto (1)

fiz esse trajeto em maio de 2012 gostei muito, pretendo fazer de novo.

9 de janeiro de 2013, 1:30

Dayse (1)

Oi pessoal, gostaria que me ajudassem numa dúvida. Mês que vem sairei de Maceió para Recife e gostaria de saber qual ônibus passa mais próximo do aeroporto de Recife.

9 de fevereiro de 2014, 22:25

Rafaela (1)

Olá! Preciso sair de Maceió e ir até Porto de Galinhas! Sabes me informar se esse ônibus para em Porto de Galinhas ou passa reto até Recife. Não consigo contato telefônico com a Real Alagoas. Obrigada!

26 de fevereiro de 2014, 14:25

Alexandre Giesbrecht

Olá, Rafaela. Infelizmente, não posso ajudá-la. Além de minha única viagem por essa linha ter sido há mais de dois anos (na época em que escrevi o texto acima), como a viagem foi noturna, não sei exatamente por onde passei. Tudo o que sei é que o ônibus parou no meio do caminho algumas vezes. Porém, também vale lembrar que essa linha fazia o percurso pelo interior, então acho meio difícil que passasse por Porto de Galinhas.

26 de fevereiro de 2014, 14:58

Flávia (3)

Oi Deyse. Esse mesmo onibus da linha Real Alagoas (Maceio-Recife) para no aeroporto. Quando voce vai entregar a mala antes de subir do onibus eles até te perguntarao: -”aeroporto” ou “rodoviária”? Aí vc diz que vai pro aeroporto. Ele nao para dentro, mas para do outro lado da avenida, perto do aeroporto. Entao, ou vc atravessa a rua pra chegar no aeroporto ou pega um taxi que te deixa dentro e tal. Eu na verdade sempre opto pelo taxi por causa da mala. O taxi custará uns 10-15 reais… :))

26 de fevereiro de 2014, 16:53

Flávia (3)

Oi Rafaela! Eu tambem nao saberei ao certo te informar, mas esse onibus da Real Alagoas vai pra Recife pela BR e nao pelo litoral. Talvez outra linha tb da Real Alagoas que viaje pelo litoral, pare em porto de galinhas…mas o melhor mesmo é vc conseguir ligar pra real alagoas…

26 de fevereiro de 2014, 16:58

gui (1)

Excelente relato. Me ajudou muito!

20 de outubro de 2014, 0:41

Rosiene (1)

Por que a linha de ônibus real Alagoas não passa mais pelo litoral? Passava o chamado pinga pinga, às 4h30, às 11h30 e às 18h30. A retirada da linha deixou muita gente na mão.

12 de abril de 2017, 16:04

Adriano de Moraes (1)

Fiz a viagem de Curitiba a Maceio, fui a Campinas empresa Catedral saímos na sexta as 19:10(20:20) mês dezembro 2017 chegei na madrugada de terça as 3:00, pinga-pinga, faz muitas paradas em rodoviárias, fora as seis paradas por dia para as necessidades Volta que ele dá para chegar a Maceio, de Arapiraca ele vai a São Miguel dos Campos para depois entrar via litoral, comprar pelo chicle virtual aumenta o custo da passagem em 50%,

6 de julho de 2018, 23:31

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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