Pseudopapel

Memórias do jogo de botão

Jogo de botão em 1979

Times de botão: Mixto, São Paulo, Nacional, Santa Cruz e Vasco

Li um texto escrito por Ubi­ratan Leal, da Revista ESPN e do site Balí­podo, em que ele fala de sua paixão na infância pelo futebol de mesa, mais conhe­cido como jogo de botão. O texto fez aflorar muitas memó­rias, e na hora decidi comentar. Comecei, mas rapi­da­mente per­cebi que o que eu estava escre­vendo era muito mais do que um comen­tário. Pos­si­vel­mente ficaria maior até do que o texto dele. Então o espaço ideal para publicá-lo seria aqui. No fim das contas, ficou um texto bas­tante pes­soal, mas tenho cer­teza que muitos vão se iden­ti­ficar com vários trechos.

Minhas pri­meiras memó­rias do futebol de botão são de fotos que mos­tram meu irmão e eu brin­cando na tenra infância, espe­ci­al­mente a foto aí embaixo. Apa­re­cemos dei­tados sobre o campo para chutar a gol, muitas vezes em jogos com três redes (!). Claro, com três e dois anos de idade não é de se espantar. Eram fins dos anos 1970, ainda morá­vamos em um apar­ta­mento na Ban­deira Pau­lista. A dife­rença de idade — sou pouco menos de onze meses mais velho — sempre per­mitiu que brin­cás­semos pra­ti­ca­mente das mesmas coisas em pé de quase igualdade.

Jogo de botão em 1979

Nosso sonho era par­ti­cipar dos cam­pe­o­natos que meu pai orga­ni­zava entre seus amigos, quase sempre em nossa casa. Eram cam­pe­o­natos anuais, mas que duravam vários fins de semana, com uma ou outra rodada no meio da semana, se não me engano. Numa época em que e-mail era coisa de ficção cien­tí­fica, as atu­a­li­za­ções da tabela eram pas­sadas por cor­reio, mesmo, depois de a secre­tária dele dati­lo­grafar tudo. Era ela também que fazia os resumos dos cam­pe­o­natos, que estão guar­dados até hoje.

Não che­gamos a con­se­guir par­ti­cipar, pois ainda não éramos nem ado­les­centes quando os cam­pe­o­natos “mor­reram”. Não sei direito o motivo, mas ima­gino que tenha sido espe­ci­al­mente por causa da mudança do local de dis­puta: tínhamos nos mudado para Alpha­ville. Mesmo sem trân­sito (e sem pedágio) na Cas­tello Branco à época, o cam­pe­o­nato pro­va­vel­mente passou a ser clas­si­fi­cado com uma pri­o­ri­dade mais baixa. Ainda houve um ou outro por lá, mas depois nunca mais.

Seleção da Alemanha fabricada pela Crack's

Esta seleção da Ale­manha, fabri­cada pela Crack’s, foi meu time na mai­oria das “Copas do Mundo” que dis­putei. O craque do time era o camisa 10, Matthäus, que seguiu como arti­lheiro mesmo depois de colado com Super Bonder e fita ade­siva. Para essa seleção, bus­quei o maço de cigarros mais bonito da banca, da Lucky Strike. Engra­çado pensar que foi ven­dido para um moleque bem abaixo de 18 anos, mesmo sem o ven­dedor saber que minutos depois eu jogaria todos os cigarros no lixo.

Mais ou menos na mesma época, meu irmão e eu come­çamos a orga­nizar cam­pe­o­natos entre nossos amigos por lá. O pri­meiro durante a Copa do Mundo de 1986 fez com que, óbvio, o cam­pe­o­nato fosse uma Copa do Mundo. Mas valia ima­ginar qual­quer seleção com qual­quer time. O meu, por exemplo, era um Górnik Zabrze, da Bri­a­nezi, fabri­cado nos anos 1970, igual a este do Farah. Por causa das cores, chamei-o de Para­guai. A esca­lação? Peguei um álbum de figu­ri­nhas do Cam­pe­o­nato Pau­lista de 1978 e “con­vo­quei” alguns dos joga­dores, segu­ra­mente nenhum de ascen­dência gua­rani. Gozado, não me lembro de nenhum, a não ser do craque daquele time, o camisa 2: Neca. Que não era lateral direito, mas como é que eu iria saber?

Times de botão: Holanda e Inglaterra

Outro dos “téc­nicos” esco­lheu um time qual­quer e chamou de Bél­gica, que estava em evi­dência naquela Copa. Meu irmão tinha um time da União Sovié­tica (igual a este, também do Farah), fabri­cado pela Crack’s — se naquela época eu ima­gi­nasse um lugar cha­mado Cra­co­lândia, seria muito dife­rente da que temos hoje em Campos Elí­seos —, e usou-o sob esse nome. Mas batizou cada jogador com nomes supos­ta­mente russos que ele mesmo inventou. Uns poucos lem­bravam até nomes daquele país, mas a mai­oria não tinha nada a ver. Curi­o­sa­mente, eu me lembro de alguns dos nomes, mais até do que os do meu time. O goleiro chamava-se Gole­ress (o cara nasceu para ser goleiro?); o zagueiro cen­tral era o Nortov; o lateral direito era o Vondos; o ponta esquerda era o Von­do­teico, que era o craque do time. Um outro “téc­nico” sim­ples­mente inventou um país cha­mado Gray Light. Seu elenco era com­posto por vários joga­dores famosos, como Gary Lineker.

Nessa pri­meira Copa do Mundo meu irmão ganhou de mim na final. O jogo ter­minou 8 a 7, ou algo pare­cido. As Copas do Mundo seguintes foram ven­cidas sempre por ele. Fiquei com a maior parte (mas não todos) os vice-campeonatos. Ele às vezes até perdia na pri­meira fase, quando podia perder, mas nunca nos mata-matas e, espe­ci­al­mente, na final. Apesar desse domínio, todos tinham o maior prazer em par­ti­cipar. Eu, em espe­cial, ado­rava con­fec­ci­onar as tabelas e tentar fazer “anuá­rios” base­ados em um livro estran­geiro da Copa do Mundo de 1986 que meu pai tinha arru­mado. Um dos livros mais legais que já tive. E sumiu. Não sei que fim levou, mas sumiu quando eu ainda era criança.

Copa do Mundo de botão

Não sei se esta foto, batida em 1988 ou 1989, é de uma das Copas do Mundo, mas é mais ou menos da mesma época. Nesse tor­neio espe­ci­fi­ca­mente havia jogos simul­tâ­neos, daí o outro campo no pé da foto.

O grande motivo do domínio do meu irmão cer­ta­mente era a bolinha. Ou melhor, o disco que usá­vamos. Eram sempre fichas de War. Se algum sumia, lá íamos nós até a caixa do jogo para buscar um novo. Quando, com muito atraso, pas­samos a jogar com boli­nhas, tudo pas­saria a ser equi­li­brado, ao menos no que dizia res­peito a nós dois. Mas aí as nossas Copas do Mundo já tinham acabado.

A Copa do Mundo de 1986 também me lembra o nas­ci­mento do meu primo Fer­nando. Quando ele veio ao mundo, meu irmão e eu ganhamos como pre­sente um time de botão cada. Não me lembro de qual ele ganhou; eu ganhei o Grêmio. Era uma série da Gul­liver em que os joga­dores tinham dois tama­nhos dife­rentes, algo que eu nunca tinha visto até então. Não me adaptei àquele estilo de botão e pouco joguei com aquele Grêmio.

Acho que eu era o único que fazia para­le­la­mente cam­pe­o­natos sozinho. Aprendi isso com meu pai. Quer dizer, com um caderno em que ele ano­tava os cam­pe­o­natos dele, que duraram entre 1964 e 1974, se não me engano. 1974 foi o ano em que ele se casou — no dia do casa­mento, ele conta que estava jogando botão até pouco antes da cerimônia. É claro que eu tinha de ter o meu pró­prio caderno com os meus pró­prios cam­pe­o­natos! Então passei a montar meu Cam­pe­o­nato Bra­si­leiro em pontos cor­ridos, algo que eu sempre qui­sera ver na vida real, mas nunca tinha con­se­guido. Havia oito clubes, nenhum deles com­prado em loja.

Times de botão: Botafogo, Goiás, Flamengo, Atlético-MG, Figueirense e Ceará

Os times eram os com que meu pai jogava na infância, mon­tados a partir de diversos times que ele tinha com­prado. Ele pro­va­vel­mente vai saber citar a marca de cada um. Eu, como já os recebi “des­fi­gu­rados”, não saberia dizer. Mas os times eram boas mes­clas. Não eram exa­ta­mente os mesmos de 25 anos antes, pois após o advento dos escu­di­nhos de botão na revista Placar ele passou a decorá-los. Fora isso, era a mesma coisa. Ele guar­dava cada um em maços de cigarro Minister, com eti­quetas ade­sivas daquelas em relevo para tornar fácil o arqui­va­mento. Não sei o que acon­teceu com esses maços. Aliás, não sei nem onde ele os arranjou. Anos mais tarde, eu quis recolocá-los em maços de cigarro e contei com a ajuda de uma amiga da minha tia, que fumava algumas dezenas de cigarros Marl­boro por dia. Rapi­dinho obtive cai­xi­nhas para as dezenas de times. E arrumei também uma eti­que­ta­dora para colocar os devidos nomes.

Um dos times de que mais me lembro é o Porto Seguro, a escola onde meu pai e eu estu­damos, feito quase todo de botões estilo “Canoinha” da Estrela. Ele tinha mon­tado o time com seus colegas, muitos dos quais eu conhecia. O pri­meiro botão abaixo é um dos joga­dores, que hoje é o tio da minha esposa. Era talvez o único que, por motivos óbvios, não tinha escu­di­nhos da Placar colados. Como o “escudo” do colégio era razo­a­vel­mente sim­ples, canetas hidro­grá­ficas de apenas duas cores resol­veram o pro­blema. Era também um dos únicos que tinha a esca­lação “impressa” no pró­prio botão. Certa vez, sei lá por quê, levei-o à escola. O pro­fessor de Artes Plás­ticas viu e resolveu que a ala mas­cu­lina da classe faria times de botão como um dos tra­ba­lhos e depois seria orga­ni­zado um cam­pe­o­nato. Eu até fiz o meu time, mas, para o cam­pe­o­nato, usei o time do meu pai, com que eu já estava acos­tu­mado a jogar. Não me lembro do resul­tado. Aliás, nem me lembro se o cam­pe­o­nato chegou a terminar.

Times de botão: Porto Seguro, Marília, Londrina, Sport e Grêmio

Outro time que me marcou era o Marília, com­posto por joga­dores trans­pa­rentes estilo “tampa de relógio”, mas com uma tampa embaixo, o que per­mitia que se colo­casse os escu­di­nhos por dentro do botão. Essa tampa de baixo tinha dois furi­nhos para que fosse pos­sível desencaixá-la, como se vê no ter­ceiro botão acima. Eu tinha sempre um clipe desen­tor­tado para usar quando pre­ci­sasse abrir um desses botões. O clipe desen­tor­tado fazia parte do meu kit para jogar, que também incluía uma caixa de fichas de pif-paf, usadas como palheta. Outro time de que eu gos­tava muito era o Lon­drina, com botões azuis da marca Bolagol. No meio do botão havia uma depressão onde era encai­xado o papel­zinho redondo com o escu­dinho e o número de cada jogador. Algumas dessas depres­sões ainda tinham uma tam­pinha trans­pa­rente para pro­teger o papel, mas muitas foram se sol­tando com o tempo. Um dos outros times que tinham joga­dores Bolagol era o Sport, nesse caso branco. Talvez influ­en­ciado pela cam­panha do Flu­mi­nense no Bra­si­leiro de 1984, o número 6 eu cha­mava de “Paulo Vítor Entrou na Linha”. Só não me peça para explicar o que o Sport tinha a ver com o Flu­mi­nense. Não faço ideia. Também vale citar que o Grêmio mon­tado pelo meu pai tinha botões “Canoinha” ver­me­lhos. Até hoje, quando penso em cada um dos times con­sigo me lem­brar de como eram os botões.

Caixa de fichas de pif-paf, usadas como palhetas

A caixa de fichas de pif-paf que eram usadas como plahetas. Muitas delas já se per­deram no tempo e algumas quebraram-se, mas a mai­oria ainda existe. Como se pode ver, a branca era a preferida.

Quando eu ia ao Rio de Janeiro, ficava muitas vezes no apar­ta­mento do meu primo de segundo grau Bruno, que tinha a minha idade, apesar de ser primo da minha mãe. No prédio dele, em Bota­fogo, havia muita gente com que jogar. Os botões que eles usavam eram dife­rentes dos com que estava acos­tu­mado. Não eram iguais nem aos que cha­má­vamos de “ofi­ciais” (Cham­pion, Crack’s etc.) nem aos do meu pai. Eles eram maciços, com ângulos retos. Lem­bravam um pouco os ofi­ciais da Fede­ração Pau­lista que eu conhe­ceria anos mais tarde, mas menores e sem furo no meio. E eles pra­ti­cavam trocas de joga­dores, lite­ral­mente, o que eu achava diver­tido, embora nunca pudesse par­ti­cipar, já que os meus eram muito dife­rentes. Foi lá no Rio também que certa vez fui à Rua da Alfân­dega pro­curar times e com­prei seis caixas: Amé­rica, Bangu, Bota­fogo, Fla­mengo, Flu­mi­nense e Vasco. Eram caixas azuis, com botões meio vaga­bundos, que tinham até uma pon­tinha que sobrava depois de os moldes serem des­ta­cados. O único deles que eu já não tinha era o Bangu, que ficou, pois, intacto; os demais foram des­fi­gu­rados para montar outros times.

Bangu (Fábrica de Penas de Aço Brasil)

A cai­xinha do Bangu ainda existe, embora não seja mais usada para guardar o time, que tem seu pró­prio maço de cigarro. O fabri­cante era a Fábrica de Penas de Aço Brasil, que ficava na Rua Pereira Nunes, 410-A, no Rio de janeiro. Pelo Google Street View, não fica claro se a empresa ainda está lá, mas uma con­sulta no Google só retornou resul­tados do Diário Ofi­cial.

A maior parte dos cam­pe­o­natos de que eu par­ti­cipei na minha infância e ado­les­cência envolveu, além do meu irmão, o Zé e o Gui, dois irmãos que moravam quase ao lado da nossa casa. Eles tinham entre si uma riva­li­dade ainda maior do que a nossa, acen­tuada por uma dife­rença de idade de quase três anos. O Zé, o mais velho, é um dia mais novo que o meu irmão. Eu já bri­guei com meu irmão por causa de jogos de botão, mas nunca che­guei a comer uma tabela após uma dolo­rosa eli­mi­nação, só para impedir a con­ti­nu­ação do cam­pe­o­nato — a medida fun­ci­onou melhor que qual­quer tapetão. Esses cam­pe­o­natos geral­mente tinham fór­mulas de fazer a CBF morrer de inveja, incluindo uma pri­meira fase de grupos em que todos os times se classificavam.

O Zé também foi parte inte­grante dos cam­pe­o­natos qe eu fazia sozinho, embora ele pro­va­vel­mente nunca tenha pre­sen­ciado um jogo. Afinal, eu publi­cava uma revista semanal sobre os tor­neios e pre­ci­sava de alguém para dese­nhar as capas, já que minhas habi­li­dades para desenho só são acei­tá­veis para uma cri­ança de oito anos, e olhe lá. O pes­soal da minha classe na escola sempre queria ver as revistas, claro que não pelo con­teúdo, mas pelas capas e por um ou outro desenho que ele fazia a mais para pre­e­cher um even­tual espaço vazio. As revistas em geral vinham com pôs­teres (!) dos times posados. Esses eu mesmo fazia, usando os pró­prios joga­dores como moldes e depois dese­nhando uma versão bem mini­ma­lista dos escudos com régua e com­passo. Foi graças a essas revistas, escritas a mão, que minha letra melhorou bas­tante e eu passei a escrever em letra de forma. O nome da publi­cação, Escore, foi des­ca­ra­da­mente baseado na Placar, que àquela altura já não era mais semanal. Era a minha maneira de suprir essa, digamos, “carência”. A revista durou uns cin­quenta números. Eu, que sempre tinha gos­tado de fazer revistas em qua­dri­nhos, nunca tinha con­se­guido chegar tão longe numa nume­ração. Essas revistas foram a única coisa que pro­curei, mas não achei para ilus­trar este texto.

Ulysses Cup

A Ulysses Cup em 4 de março de 2001. Não dá para ver direito na foto, mas, além da imagem de Ulysses Gui­ma­rães, todos os cam­peões estão imor­ta­li­zados ali, em decalque coberto por esmalte incolor.

Um pouco mais tarde, nós quatro cri­amos a Ulysses Cup, um troféu de posse tran­si­tória a ser dis­pu­tado em um cam­pe­o­nato de botão. Àquela altura, já tínhamos sido apre­sen­tados aos times ofi­ciais da Fede­ração Pau­lista, por meio de uma matéria publi­cada na Placar em dezembro de 1991. Fomos atrás do Lou­rival, um dos for­ne­ce­dores citados, no Belen­zinho, e com­pramos um time cada um. O meu foi um time azul e ver­melho, que batizei como Naci­onal. O do meu irmão foi um verde e branco, bati­zado de Werder Bremen. E foi com esse time que ele ganhou a pri­meira Ulysses Cup, em 1993. O nome, cuja ideia não foi minha, foi uma mis­tura de Ulysses Gui­ma­rães, recen­te­mente fale­cido, com a Copa Stanley, troféu máximo do hóquei no gelo, esporte pelo qual minha fas­ci­nação estava começando.

Das cinco Ulysses Cups, con­quistei duas, uma com meu time do Pitts­burgh Pen­guins (um clube de hóquei no gelo), outra com a minha seleção alemã de 1974 (cujo craque era o número 8, Gra­bowski). Meu irmão ganhou aquela pri­meira e mais uma. A edição que sobrou foi ven­cida pelo Zé. Detalhe: meu irmão e eu sus­pen­demos um ao outro daquela edição, devido a pro­blemas dis­tintos que nem lembro mais. Um deles pos­si­vel­mente teve a ver com uma vez em que atirei vários joga­dores da minha Ale­manha contra ele. Muitos deles têm sequelas até hoje: pequenos “dentes” embaixo. O motivo? Deve estar per­dido em alguma sinapse des­feita em meu cérebro.

Com times ofi­ciais em mãos, resol­vemos “nos pro­fis­si­o­na­lizar”. Isto é, inscrevemo-nos na Fede­ração Pau­lista de Futebol de Mesa. Quando do cadastro, cada um teve de esco­lher um ape­lido. O meu foi sim­ples­mente o sobre­nome do meio, Linhares. Em meados de 1994 par­ti­ci­pamos, meu irmão, o Zé e eu, de nosso pri­meiro cam­pe­o­nato, um tor­neio aberto no Cír­culo Militar de São Paulo. Nesses tor­neios abertos era per­mi­tida a ins­crição de joga­dores avulsos, sem clube, como nós. Foi lá que rece­bemos o con­vite para defender o Naci­onal, cujo depar­ta­mento de futebol de mesa estava começando.

Aca­bamos não fazendo nada a res­peito, mas no ano seguinte, quando pra­ti­ca­mente já tínhamos nos esque­cido, ligaram para mim per­gun­tando se eu ainda estava inte­res­sado em treinar no Naci­onal. Sim, eu estava. Meu irmão e o Zé foram também. Pas­samos a defender a equipe de aspi­rantes do clube. Num dos jogos fora de casa, contra a Soci­e­dade Amigos de Vila Maria Zélia, a repor­tagem do Estadão estava lá para escrever matéria sobre o boto­nismo naquele bairro. Aca­bamos saindo meio que sem querer na repor­tagem, publi­cada no caderno “Seu Bairro Leste” de 15 de agosto de 1996. A foto da equipe do Naci­onal, inclu­sive, foi a maior da página Z6, mas acabou bas­tante man­chada por um anúncio quase todo preto na página oposta. O Naci­onal venceu o jogo, 46 a 26.

Reportagem sobre botonismo na Vila Maria Zélia

Na matéria sobre o boto­nismo na Vila Maria Zélia, a equipe do Naci­onal (sou o último à direita) ganhou um inde­vido des­taque. A foto do time da casa saiu na capa do suplemento.

Par­ti­ci­pando de pra­ti­ca­mente todas as com­pe­ti­ções a que eu tinha direito, con­segui subir no ran­king da Fede­ração e fui con­vo­cado até para a quarta divisão do Pau­lista Indi­vi­dual, rea­li­zado em um fim de semana no Clube Atlé­tico Indiano. Para essa com­pe­tição eram con­vo­cados anu­al­mente os oitenta melhores no ran­king, sendo vinte em cada divisão. Não che­guei nem perto de vencer, mas também não fui um dos últimos.

Eu tinha um estilo bem carac­te­rís­tico. Enquanto a grande mai­oria dos fede­rados apro­vei­tava ao máximo os doze toques a que tinham direito em cada lance, eu chu­tava do meio da rua, mesmo. E com uma pon­taria real­mente boa para a dis­tância. Esses chutes ficaram conhe­cidos no Naci­onal como “pombos sem asa”. É claro que com esse estilo eu não teria como ir muito mais longe do que fui. Eu não gas­tava todo o tempo que podia, o que gerava uma média de gols (tanto pró como contra) mais alta nos meus jogos, isso sem falar que mais de uma vez tomei gol do goleiro adver­sário devido à potência dos meus chutes.

Nacional: foto posada

A foto acima é da minha última par­tida pelo Naci­onal, em 14 de setembro de 1997, contra a Hebraica. Em pé: Espel, Ceará, Peron e Linhares. Aga­chados: Roni, Mil­tinho, Bueno e Mazinho.

Minha última par­ti­ci­pação na Fede­ração Pau­lista foi em 1997. O Naci­onal já não tinha mais joga­dores sufi­ci­entes para formar uma equipe de aspi­rantes, então só havia o time prin­cipal, do qual eu passei a ser titular. Mas naquela época minha vida pro­fis­si­onal começou a colocar obs­tá­culos demais para seguir com­pa­re­cendo todos os finais de semana e deixei de ir. Desde 1997, meus únicos jogos foram um mini­cam­pe­o­nato com parentes da minha mulher em 2000 e um cam­pe­o­nato escolar em 2007, em que atuei em dupla com o primo da minha mulher, então no cole­gial. Fomos cam­peões ganhando as duas par­tidas por W.O.

Depois de ler o texto do Ubi­ratan, resolvi com­prar um Estrelão para meu filho Gui­lherme, que está por com­pletar dois anos e meio. Não me parece cedo, não. Na foto que abre este texto, meu irmão, debru­çado sobre o campo, tinha aca­bado de fazer dois anos. Na foto que fecha, Willi começa a aprender a jogar.

Willi joga botão

12 comentários

MTavares (1)

Ale­xandre,

engra­çado que este final de semana também andei nos­tál­gico com meus times de botão dos anos 80, con­segui lem­brar de quase todos times que tive

esse São Paulo e esse Santos da foto que teu guri joga, caso sejam de acrí­lico baixo e da Gul­liver, eu tive os 2

meu time de Cam­pe­o­nato era um Bayern Mün­chen, que com­prei em Bra­sília (craque era o Matthaus e o goleiro Maier, de madeira)

o Tabelão da Placar e o Jornal Cor­reio do Povo me fizeram sempre ser fiel as escalações

meu 1.o time e 1.o do Inter tinha Gilmar, Luiz Carlos Winck, Pinga, Mauro Galvão e André Luiz; Dunga, Ademir Kaeffer e Ruben Paz; Sílvio Hick­mann, Geraldão e Sil­vinho
(no ano seguinte, uma caixa de fós­foros Fiat Lux, cheia de areia, coberta de fita iso­lante preta e com um escudo do Inter, cha­mada de ‘Taf­farel’ assumiu o gol)

meu 2.o time e 1.o time do Flu­mi­nense tinha Paulo Victor, Aldo, Vica, Ricardo e Branco; Jandir, Delei, Assis e Rome­rito; Washington e Tato

(meu 1.o time do SPFC, seme­lhante ao da foto, tinha Gilmar, Zé Teo­doro, Oscar Ber­nardi, Dario Pereyra e Nel­sinho; Falcão, Silas e Pita; Müller, Careca e Sidney… depois com­prei outro do SPFC e esse de acrí­lico virou Bota­fogo de Ribeirão Preto, com escu­di­nhos da Placar)

27 de março de 2011, 20:55

Alexandre Giesbrecht

Sim, são os da Gul­liver. Com­prei ontem, junto com o Estrelão da última foto. O Tabelão também era minha fonte de refe­rência, se bem que durante boa parte do tempo em que fiz meus cam­pe­o­natos sozinho ele já não existia (1990–92). Eu che­guei a montar um São Paulo ofi­cial (regras da FPFM) com 22 joga­dores, incluindo tudo quanto é reserva de 1992. Ah, e eu também montei goleiros com cai­xi­nhas de fós­foro e fitas iso­lantes! Mas os que usá­vamos em boa parte dos cam­pe­o­natos eram os mesmos para todos, um con­junto de goleiros de madeira do meu pai (não sei se foi ele que fez). Eu mutilei também times da Gul­liver e seme­lhantes para montar times como Ita­baiana, Muniz Freire e Comercial-MS. Eu não cos­tu­mava era colocar esca­la­ções, porque as dei­xava para a revista que eu “publi­cava”, em seu res­pec­tivo Tabelão. Acho, inclu­sive, que eu também copiei o nome da seção. A con­ferir quando eu achá-la.

27 de março de 2011, 21:02

Ana Maria Giesbrecht (3)

Boas lem­branças e exce­lente idéia de treinar o Willi. Logo, logo vamos ver um cam­pe­o­nato entre pais e filhos… Ainda lembro da gri­taria de vcs no quintal ou na garagem, dependia do tempo, qdo todos se reu­niam para as rodadas!

27 de março de 2011, 21:58

Jorge Farah (1)

Muito boa sua matéria, eu so nao entendi uma coisa voce ainda tem estes botões antigos ou ja os perdeu, a per­gunta é por que eu sou cole­ci­o­nador, quando o seu filho tiver idade vamos filiá-lo a fede­ração, e quem sabe voce nao volte a jogar conosco, sera um enorme prazer, mais uma vez para­bens pelas lem­branças o fut­mesa espera voce quem sabe em breve de volta.

27 de março de 2011, 23:27

Alexandre Giesbrecht

Ainda tenho todos os foto­gra­fados (mais os res­pec­tivos times na mai­oria dos casos). Alguns se per­deram quando eu era cri­ança, mesmo. Outros poucos se per­deram depois e mais um ou outro se desfez (!) após anos guar­dados. Mas a gigan­tesca mai­oria ainda está aí.

Ainda quero voltar a jogar pela Fede­ração, sim. Mas do jeito que minha agenda tem andado nos últimos anos, é impos­sível. Quando eu tiver o incen­tivo de levar meu filho, aí, sim, vou tentar voltar de vez.

27 de março de 2011, 23:32

Ralph Giesbrecht (35)

Bom, eu não jogo botão já há pelo menos 15 anos… talvez mais. Lembro-me de ter ido com você e o Filipe a um cam­pe­o­nato lá para os lados do Anãlia Franco e ter me dado razo­a­vel­mente bem. Deve ter sido a última vez. Cuide bem dos meus times, eles já são mais que “quarentagenários”.

28 de março de 2011, 8:36

Jonas Santos (1)

belo post.. tenho os meus até hoje, muitos cam­pe­o­natos ganhos e per­didos … hehe
abço

30 de março de 2011, 15:36

Fernnando (1)

Velhos e bons tempos, lembro que meu Corinthians de 97 com Ronaldo no gol (na ver­dade uma caixa de fos­foro) era quase imbatível.

Pra quem ainda se inte­ressar por fazer seus times no futebol de botao reco­mendo: http://escudinhos.blogspot.com/

Lembro também de jogar muito esse da Gul­liver, só que era mais caro e nao tinha nenhuma habi­li­dade para jogar: http://www.youtube.com/watch?v=So7Kb-Kg858

4 de abril de 2011, 0:02

Guilherme Calciolari (1)

Caraca, eu lembro dos meus tempos de cam­pe­o­nato, no começo só com Roma, Milan, Juventus, Torino, Fio­ren­tina e mais um ita­liano que agora não lembro. Ainda eram daqueles pequenos da Gul­liver e eu jogava sem campo, só no piso pavi­flex do apar­ta­mento, que ficou mais mar­cado que sei-lá-que.

Depois ganhei um estrelão e botões melhores e mai­ores, Argen­tina, Gremio, Fla­mengo e Bar­ce­lona (não per­gunte). Mais um tempo e chegou do Corinthians e São Paulo e ficou mais divertido.

Mas o mais legal foi quando fui no bazer e com­prei sei lá que times, só pela cor de fundo do botão, e não colei os escudos. Assim eu fazia basi­ca­mente tudo quanto é cam­pe­o­nato, só adap­tando os jogos de acordo com as cores (branco, preto, ver­melho e azul). Tinha um caderno com os resul­tados dos cama­pe­o­natos que dis­pu­tava sozinho (único filho homem, e nerd sem amigos).

Parei de jogar quando fiquei sem campo, que um dia caiu atrás da porta do quarto (impe­dindo que abrisse a porta) e teve que ser que­brado para eu poder entrar nova­mente. Ainda tenho alguns botoes, espe­rando um filho que vai demorar pra chegar.

4 de abril de 2011, 9:56

Alexandre Giesbrecht

Dica, Gui­lherme: não espere o filho.

4 de abril de 2011, 21:05

Alexandre Figaro Moreira (1)

PARABÉNS pelo belís­simo texto.
Me fez relem­brar muita coisa da minha infância.
É algo para se ler, reler, e guardar para um dia mos­trar aos nosso filhos, netos.
Muito bom mesmo !!!!

Grande abraços

27 de maio de 2011, 14:07

Alexandre Giesbrecht

Muito obri­gado pelo elogio, Ale­xandre. Vale lem­brar que o texto foi ins­pi­rado em um que li, escrito por Ubi­ratan Leal. Se você não o leu, recomendo.

27 de maio de 2011, 16:57

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