Pseudopapel

De revolução não houve nada

Última página do JT de 26 de janeiro de 1979

O site do Jornal da Tarde estava sem qualquer atualização significativa de layout desde 2003, se não me falha a memória. E só coloquei o adjetivo “significativa” na frase anterior porque, quando trocou o logotipo em 2006, o logotipo do site também foi mudado. O site nada mais era do que uma mera lista das matérias publicadas na edição do dia, com acesso restrito a assinantes na maioria das matérias. Por tudo isso, fiquei curioso para ver o que o novo layout reservava quando li na edição de terça-feira sobre a estreia do dia seguinte. Não parecia ser nada revolucionário, mas parecia melhor do que o que se tinha antes:

Apresentadas de forma a facilitar a leitura, as notícias são publicadas em blogs para cada uma das seções. (…) “É um site que nasce do papel, que já nasce integrado. A equipe que faz o jornal também faz o site. O leitor tem unidade de produção”, afirma a editora-chefe do jornal, Claudia Belfort. (…) Para o diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, o site representa uma nova forma de desfrutar do [sic] jornalismo do Jornal da Tarde.

Lais Cattassini, Jornal da Tarde, 1/6/2010

De fato, a reformulação ficou longe de ser revolucionária. O site virou um grande blog, com direito até ao post “Olá, Mundo”, do WordPress. A home page é “dura”, com um painel de rotação de destaques que não tem espaço para criatividade (foto, título de duas linhas e texto de três linhas), seguido de uma manchete maior e cinco menores.

Ao lado, uma barra com atualizações do Twitter, mas o jornal comete o mesmo erro que boa parte dos veículos de comunicação e usa o microblog como uma simples — e inútil — lista de links. Isso permite que às vezes as chamadas dos destaques se repitam entre as do Twitter. Ainda é de se espantar a falta de visão da redação, que só foi registrar sua conta no Twitter no último dia 3 de maio e teve de se contentar com um underscore no final do nome (jornaldatarde_). Não dá nem para dizer que quem registrou o jornaldatarde o fez com antecedência, pois foi menos de dois meses antes.

O jornal impresso foi quase que totalmente ignorado. Na estreia, esqueceram-se até do link para a edição digital, em PDF, aberta apenas aos assinantes. No dia seguinte colocaram o link, mas apontando para o endereço errado, erro que ainda não foi corrigido. A edição do dia é representada apenas por uma imagem pequena da capa. Clicada, ela leva para uma versão maior, mas ainda ilegível. Abaixo dessa imagem, uma lista de três links para matérias da edição do dia é tudo que se tem como indicação do que saiu no jornal impresso. Outras matérias da versão impressa até estão disponíveis no site, mas nao dá para saber quais são sem comparar com o jornal.

Dentro das seções, a organização é caótica. Na lista de notícias, que não tem espaço para nenhum destaque, cada uma delas é seguida por um excesso de links para “posts relacionados”. As categorias dos posts ainda ajudam um pouco na busca se a seção em questão for Esportes ou Jornal do Carro. Nas outras, há poucas categorias, todas muito genéricas. A pesquisa por data praticamente inexiste, a não ser pelos arquivos, separados por mês. Não é lá grande ajuda: em maio, por exemplo, foram 218 postagens na editoria Cidade. Como encontrar algo no meio de tanta coisa? (Ainda bem que há a busca, modelo WordPress, que ajuda nesse quesito.)

De bom, mesmo, a possibilidade de comentar as notícias e os blogs de colunistas novos e antigos. O Blog da Garoa e o Vida de Solteiro foram boas surpresas. Robson Morelli, do caderno de Esportes, já mantinha no Estadão.com.br, um blog atualizado esporadicamente, e parece que agora escreverá com mais frequência. Vamos ver se daqui a seis meses todos os blogs continuarão a ser atualizados.

Em suma, há muito o que melhorar no novo site do JT. Se a ideia de transformar o site num grande blog facilita a atualização, sou a favor, mas seria interessante deixar o layout menos “engessado”, algo que deve ter sido feito pensando em repórteres que têm intimidade apenas com o texto. Deixar um diretor de arte responsável que pudesse tomar conta do layout poderia ajudar. Com ou sem diretor de arte, daria para usar melhor as fotos no site, explorando de fato mecanismos multimídia, neste instante limitados a um vídeo na barra direita da home, sem índice ou mecanismo de pesquisa.

Entre os anos 1960 e 1980 o JT sempre foi um jornal de vanguarda e inovador. Essa característica foi perdida, especialmente com as últimas reformas gráficas, que tiraram as características diagramações diferenciadas que ele tinha, transformando-o num jornal comum. Como o site só pegou a fase pouco inspirada, nunca chegou sequer perto de ser referência. Sempre deu a impressão de ser algo que era mantido por obrigação. Essa impressão persiste.

Atualização (8/6/2010, 10h45):

O link para a edição digital finalmente foi corrigido.

3 comentários

Daisy Schmidt (10)

É realmente uma pena que o JT prefira manter essa linha. Temos muitos profissionais novos, cheios de idéias e capacidade, para fazer um trabalho muito mais atrativo aos leitores, novos e velhos, que são deixados de lado, para que a mesmisse se perpetue. É realmente uma pena!
Daisy Schmidt

5 de junho de 2010, 14:11

Marcie (2)

Que bom que seu post está no ar. Parabéns!!

7 de junho de 2010, 19:01

Cris (19)

Agora eu vi. Sou a favor de você encaminhar este post pra Redação do JT.

8 de junho de 2010, 9:08

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Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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