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	<title>Pseudopapel &#187; Vale do Anhangabaú</title>
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		<title>O centro paulistano discutido. Em 1974</title>
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		<pubDate>Sun, 19 May 2013 14:09:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É praticamente impossível determinar uma data exata de quando a degradação do centro de São Paulo começou, tantos são os fatores, das mais diversas eras, que a causaram. A recuperação é um processo que ainda está ocorrendo, mas não se sabe nem sequer se terá sucesso. Nas matérias de jornal com as quais trombo em outras pesquisas, pelo menos, consegui achar algo sobre o que provavelmente foi o primeiro estudo sobre a região e que pode, talvez, ser considerado o marco para a recuperação. O simples fato de esse estudo ter sido conduzido há quase quarenta anos já dá uma&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2013/05/centro-paulistano-discutido-1974/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É praticamente impossível determinar uma data exata de quando a degradação do centro de São Paulo começou, tantos são os fatores, das mais diversas eras, que a causaram. A recuperação é um processo que ainda está ocorrendo, mas não se sabe nem sequer se terá sucesso. Nas matérias de jornal com as quais trombo em outras pesquisas, pelo menos, consegui achar algo sobre o que provavelmente foi o primeiro estudo sobre a região e que pode, talvez, ser considerado o marco para a recuperação. O simples fato de esse estudo ter sido conduzido há quase quarenta anos já dá uma ideia de como esse processo é difícil.</p>
<p>Note que, em reportagem publicada pelo <em>Jornal da Tarde</em>, em 7 de outubro de 1974, um dos motivos para a degradação era citado, e só hoje em dia ele está sendo atacado. Nessa, matéria, o então coordenador da Coordenadoria de Gestão de Pessoas (Cogep), Evangelista Leão, disse: &#8220;A função &#8216;habitação&#8217; está deteriorando-se no centro. Administradores de outras cidades já comprovaram que, na hora em que a área central fica 100% sem moradias, surgem problemas graves, como o alto índice de criminalidade, porque o centro fica vazio à noite.&#8221;</p>
<p>A Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb) dizia ter &#8220;cinco projetos de obras em desenvolvimento do centro&#8221;, mas eles não foram citados e, de qualquer maneira, eram considerados &#8220;obras isoladas&#8221;. Não é muito diferente do que se tem hoje, embora o poder público pouco tenha a ver com isso: são as construtoras e imobiliárias que estão migrando vários de seus lançamentos para o centro. É um tendência consolidada, mas não deixam de ser ações isoladas, sem um planejamento central &#8212; e esse planejamento central faz falta, pois, na maioria dos casos, são novos empreendimentos, localizados nos mesmos terrenos onde, antes, existiam apenas casas ou pequenos estabelecimentos comerciais. Ou seja, a infraestrutura municipal não é ampliada, o que tende a causar problemas futuros, como tanto alerto por aqui.</p>
<div id="attachment_1646" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><img src="http://blog.pittsburgh.com.br/pseudopapel/wp-content/uploads/2013/05/centro-sao-paulo-1974-640x853.jpg" alt="O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)" title="O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)" width="640" height="853" class="size-medium wp-image-1646" /><p class="wp-caption-text">O Vale do Anhangabaú e o Buraco do Adhemar, em 1974 (foto do JT)</p></div>
<p>Outro problema citado na reportagem de 1974 dizia respeito ao Vale do Anhangabaú, que ainda era uma grande avenida, com um pequeno túnel (o chamado Buraco do Adhemar), constantemente congestionada, como se comprova pela foto acima, tirada pelo <em>JT</em> do alto do Edifício Martinelli. A Prefeitura vinha tentando consolidar os projetos existentes para o local, que eram, pelo menos, dez. Apesar de a estática ser considerada um fator importante, o que se previa, naquela época, era uma série de &#8220;passarelas delgadas&#8221; passando sobre o vale, o que deixaria o nível do solo apenas para os veículos. &#8220;O vale vai transformar-se num lugar onde o público se sinta à vontade&#8221;, explicou o diretor de planejamento da Emurb, Pedro Paulo de Melo Saraiva.</p>
<p>Difícil imaginar, ao menos com esse projeto. <a href="http://noticiassp.tumblr.com/post/48433802087/prefeito-suspende-passarelas-no-vale-folha-de" title="Notícias de São Paulo: 'Prefeito suspende passarelas no Vale'">Ele acabaria cancelado</a>, em 1980, embora a ideia tenha sido mantida, propositalmente ou não, em uma das &#8220;pontas&#8221; do vale, a Praça da Bandeira. Esse cancelamento, feito pelo então prefeito Reynaldo de Barros, provavelmente deu origem ao concurso que geraria, no final da década de 1980, o visual atual do Anhangabaú, <a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2011/09/buraco-do-adhemar/" title="O Buraco do Adhemar">com seus dois túneis</a> e o paisagismo na superfície, voltado para pedestres.</p>
<p>Logo ao lado, o Edifício Martinelli era apontado pelo <em>JT</em> como exemplo da deterioração da região: &#8220;Há outros prédios nas mesmas condições, acabando-se aos poucos, mas a melhor amostra é o Martinelli. Um edifício que foi orgulho de seu dono e da cidade, que hospedou gente rica, onde se pisava em tapetes ou em mármore, onde a aristocracia se reunia para tomar chá. O prédio mais alto da cidade, de onde, por 1,5 mil réis, se via quase toda a cidade. Hoje, ninguém sobe lá. Nem de graça.&#8221;</p>
<p>E ninguém subia porque o prédio estava tomado pelo descaso. Dos treze elevadores originais, apenas cinco estavam funcionando, e nenhum deles subia além do 22.º andar. O Sindicato dos Alfaiates ocupava, desde 1962, seis salas no 24.º andar, mas queria, desesperadamente, sair de lá. E nem cogitava a hipótese de vender as salas, pois seu vice-presidente garantia que não haveria compradores. Afinal, sem elevadores para atender o andar, o lixo acumulava-se, isso sem falar em constantes faltas de luz e de água. Marginais e prostitutas também eram facilmente encontrados por ali, especialmente à noite.</p>
<p>Com o prédio nessas condições, não era de se surpreender que o outrora luxuoso Hotel São Bento, que já ocupara sete andares do edifício, estivesse nas mesmas condições. Ele já tinha aberto mão de três dos andares e de quase todo o luxo. Seus hóspedes não dispunham mais de portaria ou mesmo água quente. &#8220;Hotel era há mais de trinta anos&#8221;, lamentou o gerente, em 1974. &#8220;Hoje é lugar mal falado.&#8221; <em>[Nota: ainda pretendo escrever mais extensamente sobre o Martinelli, que seria recuperado pela Prefeitura ainda naquela década.]</em></p>
<p>Também eram citados na reportagem a vizinhança do Minhocão, o Beco do Paissandu (que, no ano seguinte, veria seu nome mudado para Rua Abelardo Pinto) e o Mappin da <a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2012/03/praca-ramos-edificio-mercantil-finasa/" title="Praça Ramos vista do Edifício Mercantil Finasa">Praça Ramos de Azevedo</a>. Havia, ainda (e como sempre), projetos que nunca sairiam do papel, como a transferência do comércio atacadista da Rua Vinte e Cinco de Março para um &#8220;terminal&#8221; na Marginal do Tietê e a arborização das ruas que tinham sido convertidas em calçadões naquele ano.</p>
<p>Não consegui encontrar os resultados do estudo. É possível que ele tenha servido como base para diversas das ações sofridas pelo centro nesses 39 anos. Por outro lado, também é possível que não tenha sido usado para nada ou, mesmo, que ele nunca tenha sido concluído. Não seria nenhuma novidade por estas bandas.</p>
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		<title>Praça Ramos vista do Edifício Mercantil Finasa</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Mar 2012 20:36:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nesta última semana visitei um cliente que fica no vigésimo andar do Edifício Mercantil Finasa, localizado entre a Rua Líbero Badaró e o Vale do Anhangabaú, com entradas pelos dois logradouros. Da sala de reuniões onde eu estava, a vista era essa acima. O centro de São Paulo visto do alto é sempre impressionante — esse é o adjetivo mais correto, pois muitos não acharão essa paisagem bonita, mas têm de admitir que ela é, como eu disse, impressionante. Nessa foto pode-se ver vários dos mais conhecidos prédios do centro, destacados na foto abaixo: o Hotel Jaraguá (na esquina das&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2012/03/praca-ramos-edificio-mercantil-finasa/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nesta última semana visitei um cliente que fica no vigésimo andar do Edifício Mercantil Finasa, localizado entre a Rua Líbero Badaró e o Vale do Anhangabaú, com entradas pelos dois logradouros. Da sala de reuniões onde eu estava, a vista era essa acima. O centro de São Paulo visto do alto é sempre impressionante — esse é o adjetivo mais correto, pois muitos não acharão essa paisagem bonita, mas têm de admitir que ela é, como eu disse, impressionante. Nessa foto pode-se ver vários dos mais conhecidos prédios do centro, destacados na foto abaixo: o Hotel Jaraguá (na esquina das ruas da Consolação, Martins Fontes e Major Quedinho), o Louvre (na Avenida São Luís), o Copan (na Avenida Ipiranga), o antigo Hilton (também na Avenida Ipiranga, atualmente é conhecido como Edifício Ipiranga 165 e abriga os gabinetes dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo), o Edifício Itália (na esquina das avenidas Ipiranga e São Luís), o Eiffel (na Praça da República), o Shopping Light, o antigo Mappin e o Theatro Municipal (os três na Praça Ramos de Azevedo), além do Viaduto do Chá, no canto inferior esquerdo. Caso queira, você pode visualizar <a href="http://blog.pittsburgh.com.br/wp-content/uploads/2012/03/praca-ramos-de-azevedo-shopping-light.jpg">a foto de cima em resolução completa</a>.</p>
<p><img src="http://blog.pittsburgh.com.br/wp-content/uploads/2012/03/praca-ramos-de-azevedo-shopping-light-edificios.jpg" alt="Edifícios destacados no centro de São Paulo" title="Edifícios destacados no centro de São Paulo" width="640" height="427" class="alignnone size-full wp-image-1465" /></p>
<p>O Edifício Mercantil Finasa tem 35 andares e 129 metros de altura, e sua construção começou em 1969, encerrando-se em 1973. Ele fica logo ao lado do Edifício Grande São Paulo (que foi retratado em uma novela recente da Rede Globo como &#8220;Edifício Titã&#8221;), que tem a mesma altura e chega a dar a impressão de ser uma torre gêmea para quem olha de relance. Nenhum dos dois é particularmente bonito — muito pelo contrário —, mas são imponentes. Na foto abaixo, de janeiro de 2009, vê-se praticamente o ângulo oposto à foto de cima. O Mercantil Finasa está à direita do Theatro Municipal (que está em primeiro plano), com o Grande Sampaio atrás deste. À direita da foto, o Edifício Sampaio Moreira, de doze andares, construído em 1924 na Rua Líbero Badaró e considerado o primeiro arranha-céu de São Paulo. E, sem dúvida, muito mais bonito que o Mercantil Finasa ou o Grande São Paulo.</p>
<p><a href="http://blog.pittsburgh.com.br/wp-content/uploads/2012/03/edificio-grande-sao-paulo-edificio-mercantil-finasa.jpg"><img src="http://blog.pittsburgh.com.br/wp-content/uploads/2012/03/edificio-grande-sao-paulo-edificio-mercantil-finasa-640x426.jpg" alt="Theatro Municipal e edifícios Grande São Paulo e Mercantil Finasa" title="Theatro Municipal e edifícios Grande São Paulo e Mercantil Finasa" width="640" height="426" class="alignnone size-medium wp-image-1466" /></a></p>
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		<title>O Buraco do Adhemar</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 01:01:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
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		<description><![CDATA[(Nenhum destes túneis é o Buraco do Adhemar; eles são seus substitutos, construídos no final dos anos 1980 pelo então prefeito Jânio Quadros, rival político de Adhemar de Barros nos anos 1950 e 1960. O túnel da direita foi conhecido popularmente como &#8220;Buraco do Jânio&#8221; à época de sua inauguração.) Sou um colaborador frequente da Wikipédia, especialmente em biografias de jogadores de futebol e assuntos relacionados à cidade de São Paulo, com contribuições significativas em verbetes como Praça Roosevelt e Muricy Ramalho. Além disso, ainda acompanhando alguns verbetes, ajudando a impedir os chamados vandalismos. A &#8220;vigilância&#8221; desses verbetes ainda proporciona&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2011/09/buraco-do-adhemar/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Nenhum destes túneis é o Buraco do Adhemar; eles são seus substitutos, construídos no final dos anos 1980 pelo então prefeito Jânio Quadros, rival político de Adhemar de Barros nos anos 1950 e 1960. O túnel da direita foi conhecido popularmente como &#8220;Buraco do Jânio&#8221; à época de sua inauguração.)</p>
<p>Sou um colaborador frequente da Wikipédia, especialmente em biografias de jogadores de futebol e assuntos relacionados à cidade de São Paulo, com contribuições significativas em verbetes como <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pra%C3%A7a_Roosevelt">Praça Roosevelt</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Muricy_Ramalho">Muricy Ramalho</a>. Além disso, ainda acompanhando alguns verbetes, ajudando a impedir os chamados vandalismos. A &#8220;vigilância&#8221; desses verbetes ainda proporciona situações que nada têm a ver com vandalismo, como a possibilidade de salvar algum deles. Anteontem o verbete Banheira do Ademar <a href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Buraco_do_Ademar&#038;diff=26801667&#038;oldid=16559364">foi colocado</a> em fila para <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Elimina%C3%A7%C3%A3o_semirr%C3%A1pida">eliminação semirrápida</a>, porque não tinha seu conteúdo referenciado por fontes fiáveis. Isso significa que qualquer um tinha até o próximo dia 11 para alterar o verbete, inserindo novas informações e, especialmente, referências, como livros e artigos de jornal.</p>
<p>O verbete realmente era lamentável. Primeiro, por chamar o logradouro de &#8220;Banheira do Ademar&#8221; — não encontrei uma só referência a esse termo; eu sempre conheci por Buraco do Ademar. Segundo, por ser composto de apenas duas frases como um mínimo de informação. Diante dessa situação, resolvi pesquisar. O <a href="http://acervo.folha.com.br/">acervo da <em>Folha</em></a>, com acesso ainda gratuito, resolveu meu problema. A primeira tarefa foi pesquisar o termo &#8220;Banheira do Ademar&#8221;, nas duas variações possíveis: &#8220;Adhemar&#8221; e &#8220;Ademar&#8221; (a Wikipédia padroniza nomes de pessoas após sua morte, e Adhemar de Barros virou Ademar de Barros). Nada. Uma busca no Google trouxe cerca de um quarto dos resultados da mesma busca por &#8220;buraco&#8221;, a grande maioria derivada da própria Wikipédia e de sites que se utilizam de seu conteúdo.</p>
<p>Em seguida, de novo na <em>Folha</em>, a busca por &#8220;Buraco do Ademar&#8221; retornou 68 páginas ao longo dos anos. Entre esses resultados, muitos artigos que me permitiram aumentar consideravelmente o conteúdo do verbete e referenciá-lo satisfatoriamente: são agora 23 referências. E o nome correto: <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Buraco_do_Ademar">Buraco do Ademar</a>. O curioso é que a passagem não tinha nome oficial, aparentemente, ao contrário de seus substitutos, os dois túneis que hoje passam por baixo do Vale do Anhangabaú e têm o mesmo nome: Túnel Papa João Paulo II. Não é difícil, pois, imaginar por que o apelido &#8220;Buraco do Ademar&#8221; pegou, provavelmente surgido logo depois da inauguração da passagem, em 1951.</p>
<p>Apesar disso, a primeira citação na <em>Folha</em> foi apenas em 30 de junho de 1969. A não ser pela menção a um problema de enchentes na &#8220;passagem de nível da Praça do Correio&#8221;, numa matéria de 7 de março de 1951, não consegui achar quase nada sobre o túnel antes daquela menção em 1969. Não achei sequer a matéria sobre a inauguração da passagem, para descobrir a data exata. A partir de meados dos anos 1970, entretanto, as menções ao Buraco do Ademar se proliferam, até sua efetiva demolição, para a qual ele foi fechado em 23 de outubro de 1988.</p>
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		<title>O Buraco do Sobrinho</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Dec 2010 22:35:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Adhemar de Barros foi prefeito de São Paulo, interventor federal em São Paulo e duas vezes governador do estado. Durante seu único mandato na prefeitura, entre 1957 e 1961, construiu o que ficaria conhecido como Buraco do Ademar, túnel no Vale do Anhangabaú que passava sob a Avenida São João e mais tarde foi substituído pelos túneis atuais. Seu sobrinho, Reynaldo de Barros, também foi prefeiro paulistano duas décadas mais tarde, tendo sido nomeado pelo então governador Paulo Maluf em 12 de julho de 1979, mandato que não chegaria a cumprir, pois desencompatibilizou-se do cargo em 14 de maio de&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2010/12/buraco-sobrinho/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Adhemar de Barros foi prefeito de São Paulo, interventor federal em São Paulo e duas vezes governador do estado. Durante seu único mandato na prefeitura, entre 1957 e 1961, construiu o que ficaria conhecido como Buraco do Ademar, túnel no Vale do Anhangabaú que passava sob a Avenida São João e mais tarde foi substituído pelos túneis atuais. Seu sobrinho, Reynaldo de Barros, também foi prefeiro paulistano duas décadas mais tarde, tendo sido nomeado pelo então governador Paulo Maluf em 12 de julho de 1979, mandato que não chegaria a cumprir, pois desencompatibilizou-se do cargo em 14 de maio de 1982 para concorrer ao governo do estado. Acabou derrotado por Franco Montoro. Durante o tempo que esteve à frente da prefeitura, também lidou com um buraco, que à época ficou conhecido como &#8220;Buraco do Sobrinho&#8221;, em referência ao Buraco do Ademar.</p>
<p>Apesar de o buraco ter sido aberto, involuntariamente, em 1980, sua história começou 44 anos antes, em 1936, quando as tubulações da Avenida Nove de Julho foram implantadas no Centro, a seis metros de profundidade. Elas tinham cerca de 1,70 metro de diâmetro e foram construídas em concreto armado e tijolos, para recolher águas pluviais próximo à Praça 14-Bis e despejá-las em uma outra tubulação no Vale do Anhangabaú — de lá, as águas seguiam para o Rio Tamanduateí. Em 14 de fevereiro de 1980 chuvas na região da Consolação abriram um grande buraco no sentido Centro da Nove de Julho, ocupando as três pistas da avenida na altura da Rua Avanhandava. A pista foi restaurada, mas nove dias depois o Tamanduateí transbordou da Vila Prudente ao Cambuci, e a jusante dali não conseguiu absorver as águas que vinham do Anhangabaú. Para piorar, próximo ao ponto onde a Nove de Julho e a Rua Avanhandava se encontram, uma galeria com águas vindas da Rua Augusta desembocava na mesma tubulação sob a Nove de Julho, que não aguentou o volume de água que chegava em grande velocidade e não tinha onde desaguar, rompendo-se. A pista afundou de novo, praticamente no mesmo local da semana anterior.</p>
<p>&#8220;Por ser antiga, [a galeria] é insuficiente, e o volume de águas deve ter criado pressões internas não previstas no projeto&#8221;, explicou ao <em>Jornal da Tarde</em> Octávio Camillo Pereira de Almeida, secretário de Vias Públicas. &#8220;Uma razão para já terem ocorrido dois ou três rompimentos naquele ponto, sempre reparados, mas nunca de forma definitiva, devido ao tempo que a obra demanda. A inconveniência de se impedir o trânsito na Nove de Julho nos levava a fechar rapidamente os buracos.&#8221; Desta vez não havia solução rápida. A previsão inicial era de que fossem necessário um mês de interdição para a reconstrução da galeria. Nos primeiros dias a atenção foi dada aos 48 metros afetados para oferecer segurança aos trabalhos de reconstrução. Essa fase exigiu trabalhos inclusive à noite. &#8220;Esta é a medida de maior urgência e deverá estar concluída até amanhã&#8221;, avaliou Octávio Camilo, referindo-se à terça-feira 26, três dias após o rompimento da tubulação. &#8220;Daí nós termos pedido para a empreiteira trabalhar inclusive durante a noite, apesar do barulho do bate-estacas.&#8221; Só a partir de então a reforma começaria, numa profundidade de oito metros. As novas tubulações seriam metálicas, com 2,80 metros de diâmetro. A escolha do material foi feita pois com ele seria possível realizar o trabalho mesmo durante a época de chuvas, com água correndo.</p>
<p>Com as três pistas no sentido Centro totalmente interditadas, a Nove de Julho transformou-se em um grande problema de trânsito, apesar da intervenção do Departamento de Operações do Sistema Viário, que implantou diversas medidas para aliviar o trânsito. Nos horários de pico, apenas os ônibus podiam seguir pela avenida após a Praça 14-Bis; os automóveis passaram a ser desviados nesses períodos para a Rua Manoel Dutra. Ao chegar à altura da Rua Avanhandava, os ônibus seguiam para uma das pistas no sentido Bairro, por onde trafegavam por cerca de duzentos metros. Além disso, os carros que vinham pelas quatro principais vias que cruzam a Nove de Julho ao longo de sua extensão (Rua Groenlândia, Avenida Brasil, Rua José Maria Lisboa e Alameda Lorena) eram impedidos de entrar na avenida. &#8220;Eles só poderão cruzar a Nove de Julho&#8221;, decretou Roberto Scaringella, diretor do Departamento de Operações do Sistema Viário (DSV). &#8220;Dessa maneira, reduziremos o volume de veículos na pista Bairro–Centro, pois esses cruzamentos são os pontos mais importantes de injeção de carros no corredor.&#8221; Enquanto isso, dez postos espalhados pela cidade distribuíam folhetos explicativos.</p>
<p>Naquela época, passavam cerca de cinco mil veículos por hora em ambos os sentidos da avenida. Se com apenas uma das pistas a situação já era complicada, sem ambas as pistas haveria o caos. Em 20 de março, a três dias de a cratera, já popularizada como &#8220;Buraco do Sobrinho&#8221;, completar um mês, uma trinca apareceu no asfalto da pista no sentido Bairro. Em seguida as estacas do canteiro da vala começaram a se mexer, e a terra deslizou, abrindo um novo rombo, desta vez interditando todas as faixas do sentido Bairro. &#8220;A vala para reparos da galeria danificada foi aberta dentro do mais alto nível técnico&#8221;, contou o prefeito. Havia dois possíveis motivos: uma pressão maior que a calculada, que teria provocado um deslizamento por baixo das estacas, ou um bolsão de ar sob a pista. No dia seguinte o cenário era desolador, com fortes chuvas transformando as duas crateras em cachoeiras, muita lama por todos os lados e trincas que pareciam brotar de esporos. As chuvas que caíram ao longo do dia ainda serviram para aumentar a largura das fendas. Nas bancas, o <em>JT</em> estampava em sua última página: &#8220;Atenção, motoristas. Esqueçam que a cidade tem uma avenida chamada Nove de Julho.&#8221;</p>
<p>Antes de o novo buraco surgir, nada sugeria que tal desdobramento estivesse próximo. Da mesma maneira, antes do primeiro buraco o local estava longe de ser prioridade, a não ser quando reparos paliativos eram necessários. &#8220;O projeto hidráulico já existe há cinco anos, o que mostra que há tempos o pessoal estava preocupado com esta galeria&#8221;, afirmou o prefeito Reynaldo de Barros quando ainda se preocupava com apenas uma cratera. &#8220;Só que até agora não fizeram um trabalho definitivo. O governador [Maluf] lembrou que no seu tempo à frente da prefeitura [entre 1969 e 1971] já tivera problemas com esse buraco. Não posso dizer que os outros administradores estivessem errados. Se eu também visse um buraquinho não iria fazer uma obra dessas. A bomba estourou na minha mão.&#8221;</p>
<p>Estourou na mão dele, e duas vezes. As novas previsões davam conta de oito dias apenas para chegar ao ponto onde as obras estavam antes do segundo afundamento, mas àquela altura os técnicos sequer tinham certeza de qual seria o melhor método para resolver o problema. Depois de diversas reuniões, o prefeito anunciou que seria feito o aterro total dos dois buracos, com a galeria sendo reconstruída atráves de um túnel subterrâneo. No dia seguinte, um sábado, as empreiteiras contratadas aproveitaram-se do tempo bom e, depois de colocar pedras no fundo da cratera, aceleraram os trabalhos e conseguiram terminar o serviço de canalização do primeiro trecho da galeria. Foram necessários cerca de oitocentos metros cúbicos de terra para fechar o buraco, mas o terrível prognóstico que se anunciava na sexta-feira foi revertido já no dia seguinte.</p>
<p>Ainda faltava a reconstrução da galeria — a promessa era de estender a reforma da Praça 14-Bis às galerias que levavam as águas ao Rio Tamanduateí —, mas o trânsito poderia ser liberado já na segunda-feira. &#8220;Ganhamos a guerra&#8221;, comemorou Reynaldo. &#8220;Engenheiro é assim mesmo. O pessoal veio aqui, analisou, viu que dava, que o tempo estava bom e tocou o serviço. Deu certo. Não considero que houve indisciplina da empreiteira, voltando atrás na minha decisão. Se eles fizeram o trabalho, é porque havia condições.&#8221; De fato, o trânsito voltou a correr no sentido Bairro naquela segunda-feira, encerrando em apenas três dias um capítulo negro que prometia se estender por semanas. Os comerciantes, que já tinham perdido movimento quando o primeiro buraco apareceu, comemoraram, pois o segundo tinha afastado de vez a clientela.</p>
<p>O &#8220;Buraco do Sobrinho&#8221; começava a ser tapado, tal como ocorreria na segunda metade daquela década de 1980 com o Buraco do Adhemar. Ao contrário deste, o &#8220;Buraco do Sobrinho&#8221; não resistiu na memória da população. Uma busca no Google por &#8220;buraco do sobrinho&#8221; retorna <a href="http://www.google.com.br/search?q="buraco+do+sobrinho"">hoje</a> apenas seis resultados, todos referentes a um buraco na cidade de Porto Velho, em Rondônia, muito menor que o &#8220;original&#8221;. Na foto abaixo, o local onde trinta anos atrás localizou-se o &#8220;Buraco do Sobrinho&#8221;.</p>
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