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	<title>Pseudopapel &#187; futebol</title>
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		<title>A história de Joe Gaetjens</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 20:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há algum tempo peguei finalmente uma Sports Illustrated de meses antes, que estava na minha fila de leitura. Era de março de 2010: na capa, o jogador de hóquei no gelo Sidney Crosby com a camisa do Canadá, ao invés da do Pittsburgh Penguins, comemorando o gol da medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno de Vancouver, marcado na prorrogação. Mas a melhor reportagem da edição é outra, de oito páginas, sobre a vida e o sumiço do futebolista haitiano Joe Gaetjens, que defendeu a seleção dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Gaetjens tornou-se conhecido&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2011/09/historia-joe-gaetjens/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há algum tempo peguei finalmente uma <em>Sports Illustrated</em> de meses antes, que estava na minha fila de leitura. Era de março de 2010: na capa, o jogador de hóquei no gelo Sidney Crosby com a camisa do Canadá, ao invés da do Pittsburgh Penguins, comemorando o gol da medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno de Vancouver, marcado na prorrogação. Mas a melhor reportagem da edição é outra, de oito páginas, <a href="http://sportsillustrated.cnn.com/vault/article/magazine/MAG1166756/1/index.htm" class="broken_link">sobre a vida e o sumiço do futebolista haitiano Joe Gaetjens</a>, que defendeu a seleção dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Gaetjens tornou-se conhecido no meio esportivo por ter marcado o gol da vitória dos Estados Unidos contra a Inglaterra na primeira fase, em Belo Horizonte. Esse jogo é considerado uma das maiores zebras da história da competição, pois o time americano era formado por jogadores amadores e pouco experientes, e enfrentava um selecionado que era tido como um dos melhores do mundo.</p>
<p>Além de interessante, a matéria esclarece diversos mitos perpetuados pela história e até pelo filme de 2005 sobre a partida que marcou a carreira de Gaetjens, chamado no Brasil de <em>Duelo de Campeões</em> (em inglês, <em>The Game of Their Lives</em>). Um deles: Gaetjens não era negro, mas, sim, terceira geração de descendentes de alemães — seu bisavô fora ao Haiti para ser representante comercial do rei da Prússia no século XIX. Já algumas dúvidas nunca foram esclarecidas, como quando e como ele morreu. O texto trata as versões como <em>teledjòl</em>, ou &#8220;rumores&#8221; em crioulo, e não tenta impor uma delas. É uma excelente narrativa mesmo para quem já conhece o final.</p>
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		<title>Entrevista com Juca Kfouri</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jun 2011 00:33:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
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		<description><![CDATA[Cerca de três anos e meio atrás eu decidi entrevistar o jornalista Juca Kfouri para conhecer mais da história da Placar, a fim de enriquecer o verbete sobre a revista na Wikipédia. Marquei com ele por email e fui à CBN, onde ele todas as noites durante a semana fazia o programa CBN Esporte Clube. Na data marcada cheguei lá, e ele atrasou-se. Quando me viu, já imaginou quem eu era, me pediu desculpas por mais de uma vez pelo atraso, causado por problemas particulares, e disse que eu poderia marcar a data que eu quisesse na semana seguinte para&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2011/06/entrevista-juca-kfouri/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cerca de três anos e meio atrás eu decidi entrevistar o jornalista Juca Kfouri para conhecer mais da história da <em>Placar</em>, a fim de enriquecer <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Placar">o verbete sobre a revista na Wikipédia</a>. Marquei com ele por email e fui à CBN, onde ele todas as noites durante a semana fazia o programa CBN Esporte Clube. Na data marcada cheguei lá, e ele atrasou-se. Quando me viu, já imaginou quem eu era, me pediu desculpas por mais de uma vez pelo atraso, causado por problemas particulares, e disse que eu poderia marcar a data que eu quisesse na semana seguinte para fazermos a entrevista.</p>
<p>Dito e feito. Ao invés de levar um gravador, usei minha câmera para filmar a entrevista, que foi praticamente toda focada na <em>Placar</em>. Gostei tanto do resultado que depois pedi autorização a ele para colocar alguns trechos da entrevista no YouTube, com o que ele concordou. Depois diagramei a transcrição da entrevista e coloquei o PDF no ar, com um link bem obscuro para ele. Foi a partir desse esforço que decidi escrever um livro sobre a história da revista, iniciativa que abortei quando <a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2010/06/uma-historia-que-merecia-ser-contada/">descobri que isso já tinha sido feito</a>, e benfeito, por outrem. Hoje decidi colocar a entrevista aqui, pois a <em>Placar</em> é um tema que já apareceu por aqui antes, e pretendo que volte a aparecer. Eu só queria ter uma foto melhor para ilustrar, mas a foto que bati dele apresentando o CBN Esporte Clube daquele dia saiu desfocada.</p>
<p><strong>Como você foi parar em <em>Placar</em>?</strong> (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=gwxmcAhhVFo">Ver o vídeo deste trecho</a>)<br />
Eu fazia Ciências Sociais. Não tinha a menor intenção de ser jornalista. Na verdade, tinha me alistado como voluntário pro CPOR para ir aprender a dar tiro, porque eu era de uma organização clandestina de esquerda, de combate à ditadura, e um belo dia um amigo meu, que trabalhava no DEDOC (Departamento de Documentação e Pesquisas Jornalísticas da Editora Abril), me disse: &#8220;Estão procurando um cara para atender um projeto de uma revista semanal esportiva da Abril, o Projeto Alfa. E eu indiquei você.&#8221; Eu queria ter o meu próprio &#8220;aparelho&#8221;, porque uma coisa que me constrangia era o fato de ter uma atividade clandestina perigosa e de alguma maneira submeter meus pais e meus irmãos aos riscos que eu corria. Aí fui lá ser entrevistado pela alta cúpula da <em>Placar</em>, que já era um bando de jornalistas renomados: Woile Guimarães, Maurício Azêdo, Cláudio de Souza&#8230; Me entrevistaram, aparentemente gostaram e me mandaram fazer os testes psicotécnicos. Eu fiz e passei. Disseram: &#8220;Tá legal, vamos te contratar.&#8221; Eu tinha que me livrar do exército. Foi uma dificuldade, mas, para resumir, me livrei e comecei a trabalhar no DEDOC, atendendo <em>Placar</em>. Assim fiquei durante quatro anos, até terminar a faculdade, em 1974. Quando terminei a faculdade, já como gerente do DEDOC, ia começar a fazer pós-graduação, e o diretor da <em>Placar</em> então, o Jairo Régis, me chamou e me convidou para assumir a chefia de reportagem da revista. &#8220;Você está maluco. Eu nunca fui repórter.&#8221; &#8220;<em>Placar</em> precisa de um cara organizado, <em>Placar</em> precisa de um cara que pense grande, e chegamos à conclusão que é você.&#8221; Eu seguia na minha ideia de fazer carreira universitária. Mas tive que decidir, porque não daria para conciliar a vida de <em>Placar</em> com a pós-graduação. Eu já estava no primeiro semestre, mas resolvi que iria mesmo trilhar o caminho do jornalismo. Assumi a chefia de reportagem da <em>Placar</em> e, cinco anos depois, era diretor da revista. Foi assim que <em>Placar</em> caiu na minha vida. Eu sempre digo que, durante muitos anos, <em>Placar</em> era o meu filho mais velho. Talvez o grande equívoco que eu tenha cometido dentro da Editora Abril tenha sido o de achar que <em>Placar</em> era minha, e não da Abril. Tanto que, quando me pediram para tirar o pé do acelerador em relação à crítica que a revista fazia, por causa dos interesses de compra de direitos pela TVA, eu caí do 15.º andar.</p>
<p><strong>Isso já na época em que você saiu.</strong><br />
Isso, 25 anos depois de ter entrado. Porque a vida inteira a revista era minha. A Abril nunca tinha feito nenhuma interferência na linha da revista. A revista era exatamente aquilo que eu queria fazer, era como se fosse minha.</p>
<p><strong>Como foi na época em que você estava na <em>Playboy</em> e ainda comandando a <em>Placar</em>, de longe?</strong> (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=DTZRm_RZJxI">Ver o vídeo deste trecho</a>)<br />
Não só de longe, mas a <em>Placar</em> já era mensal e era uma revista temática. Muito mais fazia o Sérgio Martins e tal do que eu. Eu dava uma supervisionada. Quando fui para a <em>Playboy</em>, eu me joguei de cabeça na <em>Playboy</em>.</p>
<p><strong>Quando eu conversei com o Celso Unzelte, ele falou que naquela época ficavam ele, o PVC até altas horas lá e…</strong><br />
…mal viviam. Foi mais do que isso. Eu assumi a direção editorial do grupo masculino.</p>
<p><strong>Foi quando a Abril enjeitou a <em>Placar</em>.</strong><br />
Isso, porque terminou a Copa de 1990, com aquele fracasso…</p>
<p><strong>Se o Brasil tivesse ganhado, a <em>Placar</em> continuaria semanal?</strong><br />
Provavelmente continuaria. Aquele ano foi terrível, porque o campeão paulista foi o Bragantino. No Campeonato Carioca, o Vasco e o Botafogo deram a volta olímpica — o título foi decidido mesmo no tapetão, quinze dias depois. Uma das coisas que lavavam a égua da <em>Placar</em> era final de campeonato estadual. Você tinha o campeão carioca, o campeão paulista, o pôster e tal. Foi um fracasso. A Copa foi o que foi. Aí acharam que deviam parar com o futebol. E inventaram aquela bobagem da revista <em>Ação</em>, que eu até fiz, porque mandaram, mas não botava a menor fé. E a <em>Placar</em> só não desapareceu de vez porque me deu um estalo e eu falei: &#8220;Escuta, não temos que manter esse nome? Então vamos aproveitar e fazer os 50 anos do Pelé?&#8221; &#8220;Legal. Faz. Mas faz com frila, não inventa moda.&#8221; Foi um puta sucesso, esgotou, ganhou Prêmio Esso. Para o ano seguinte, eu falei: &#8220;Vamos manter uma linha de revistas temáticas, com uma redação com quatro, cinco pessoas?&#8221; &#8220;Vamos, mas sem periodicidade, tá legal?&#8221; &#8220;Tá legal.&#8221; Só que eles não perceberam que eu propus doze revistas naquele ano. Toparam. Fizemos as doze. Ninguém dizia &#8220;<em>Placar</em>, a revista mensal de futebol da Editora Abril&#8221;, mas o fato é que ela era mensal. E passou a viver no azul. Pequeno, mas não dava prejuízo. E foi se mantendo. Até que em 1994 o Brasil ganhou a Copa, e aí eu consegui encaixar o projeto da nova <em>Placar</em>, revista de &#8220;futebol, sexo e rock &#8216;n roll&#8221;.</p>
<p><strong>Era isso mesmo que você queria fazer?</strong><br />
Era. Esta é uma injustiça que cometem contra os que permaneceram em <em>Placar</em> e que sempre eu quero esclarecer. Dizem: &#8220;Pô, o Juca saiu porque não concordou com…&#8221; Não é verdade. Quem propôs a revista &#8220;futebol, sexo e rock &#8216;n roll&#8221; fui eu.</p>
<p><strong>O que eu pergunto é o seguinte: você propôs isso porque você sabia que isso ia ser aprovado ou você propôs isso porque realmente você queria?</strong><br />
Eu queria uma revista de futebol. Um dia, o Roberto Civita me perguntou: &#8220;Você acha que é missão da Editora Abril ter uma revista de futebol?&#8221; Eu falei: &#8220;Não, acho que não.&#8221; &#8220;Mas é a sua, né?&#8221; Eu falei: &#8220;É, minha é.&#8221; Eu acho um absurdo que um país como o Brasil não tenha uma revista de futebol. Eu achava que isso tornaria o projeto mais palatável. São dois os grandes problemas do futebol brasileiro. O primeiro: são raríssimos na história do Brasil os presidentes da República que se interessam por futebol, que entendem de futebol, que conhecem futebol. O Lula é uma exceção. Até outro dia eu falei: &#8220;Talvez seja até melhor que não goste, já que ele está fazendo tanta bobagem nessa área, que vai ver é pior gostando.&#8221; Você conversava com Fernando Henrique, com Itamar Franco, com Sarney sobre futebol… <em>[Faz olhar perdido, bate com as mãos em sinal de "nada".]</em> Não sabiam nada. O outro é que os grandes patrões da indústria de comunicação também ligam muito pouco para futebol. Então, meu argumento era o seguinte: a garotada brasileira de novo tem ídolos, vencedores. Acabou o trauma, a depressão de 1982, da Seleção que não ganha. Hoje tem o Romário, tem o Bebeto, tem não sei o quê. Era visível nas ruas: crianças, meninas inclusive, indo para a escola com camisas de clubes. Então não pode ser uma revista só de futebol. Vamos fazer uma revista voltada para o público jovem, vamos brincar de música, a revista tem de ser uma árvore de Natal, tem que ter presente, tem que ter games e cards… E a revista foi lançada. A primeira edição vendeu 350 mil exemplares, com o Edmundo, &#8220;O animal precisa de carinho&#8221;. E foi um puta sucesso. Como projeto editorial, era uma coisa absolutamente inovadora no Brasil, nem tanto por mérito meu. Nós trouxemos dos Estados Unidos o Roger Black, um dos melhores diretores de arte do mundo, que se encantou com a revista e com o projeto e se dedicou 48 horas por dia até o lançamento. Mas a revista não deixava de ter sua pegada, e foi aí, no terceiro mês, que deu o problema. Foi uma situação absolutamente inusitada, porque a revista era um sucesso, estava sendo comentadíssima, ganhou prêmio de design e o diabo a quatro, e o seu diretor foi embora, porque havia um encarte, &#8220;Dossiê Placar&#8221;, alguma coisa assim, e deu merda. Pediram para parar.</p>
<p><strong>Em 1972, houve outro encarte, em papel jornal, com o Tabelão e a rodada do fim de semana. Você ainda não era o diretor de redação, mas sabe por que começou?</strong> (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=flSzrVSnSjU">Ver o vídeo deste trecho</a>)<br />
Era uma maneira de baratear. O problema é o seguinte: <em>Placar</em> a vida inteira deu prejuízo. São raros os anos em que <em>Placar</em> deu lucro. Eu, por exemplo, saí de <em>Placar</em>, em 1978, e fui para a TV Tupi. Passei três meses lá. Eles não pagavam o salário, pedimos demissão coletiva um dia às sete horas da noite e fomos a um boteco, umas quarenta pessoas, a equipe toda do jornalismo da Tupi, encher a cara. Fui dormir lá pelas cinco horas da manhã. Às dez horas da manhã, eu estava dormindo, e, como na minha casa não tinha telefone, meu pai bateu na porta, para me acordar. Minha mulher tinha ido trabalhar. &#8220;O que é, pai?&#8221; &#8220;A Sofia, secretária do Jairo Régis, ligou para você lá em casa. O Jairo está perguntando por que você não foi trabalhar.&#8221; Eu falei: &#8220;Pai, você está maluco? Eu não trabalho mais na Abril!&#8221; &#8220;Eu também não entendi nada, filho, mas o fato é que a Sofia pediu que eu viesse aqui à sua casa, que o Jairo quer falar com você.&#8221; Eu levantei, tomei banho, fui para a casa do meu pai e telefonei. &#8220;O que é?&#8221; &#8220;O que é o quê? São duas horas da tarde. Você não vem trabalhar?&#8221; Falei: &#8220;O que é isso, Jairo? É um convite?&#8221; &#8220;Não, é uma intimação. Tem lugar para você aqui, pô. Vem para cá.&#8221; E imediatamente eu voltei a trabalhar lá. Como editor de projetos especiais, que é uma dessas coisas que inventam para dar emprego. Me encomendaram fazer a coleção, a primeira dos grandes clubes brasileiros, que salvou <em>Placar</em> naquele ano e foi um baita de um sucesso. <em>Placar</em> fechou no azul por causa daquela coleção. Mas <em>Placar</em>, em regra, dava prejuízo. Foi um sucesso durante a Copa de 1970 e, terminada a Copa, passou a vender 35 mil exemplares.</p>
<p><strong>Qual era a tiragem nessa época?</strong><br />
Durante a Copa, vendia mais de cem mil. Depois da Copa, começou a vender 35, 40 e fechava.</p>
<p><strong>E tirava quanto?</strong><br />
Tirava os mesmos 110 mil, 115 mil. Então, sempre houve dificuldades, e por isso ela mudou de cara, de forma de fazer, com capa, sem capa, até morrer, até ser desativada como revista semanal. Teve aquele tempo da <em>Placar Mais</em>, <em>Placar Todos os Esportes</em>, tentou-se de tudo. De tudo. E para mim é muito claro: não haverá uma revista forte de futebol no Brasil enquanto o futebol do Brasil não for um futebol organizado.</p>
<p><strong>Ao menos não numa editora como a Abril.</strong><br />
Mas aí é que está: nenhuma outra tem condições de fazer como a Abril tem. Ninguém distribui revista pelo Brasil afora como a Abril.</p>
<p><strong>A minha opinião de uma revista semanal é que teria que ser local. Fazer uma revista só para São Paulo, por exemplo.</strong><br />
Mas, de certa forma, a gente fazia. Porque tinha uma capa para São Paulo, tinha uma capa para o Rio, tinha uma capa para o Rio Grande do Sul, tinha uma capa para Minas.</p>
<p><strong>Mas vocês tinham que distribuir também no Ceará, no Amazonas…</strong><br />
Sim, mas aí era residual. Não é aí que você vende revista, entendeu? Nem a <em>Veja</em>. Se a <em>Veja</em> não fosse para lá, não faria a menor falta, do ponto de vista econômico. O problema é que é difícil, nessa bagunça que é o nosso futebol, manter viva uma revista semanal. Eu confesso que hoje tenho certa curiosidade para saber o que aconteceria com esse campeonato de pontos corridos, com menos futebol no meio de semana. O meu sonho sempre foi esse: falar da rodada que passou, poder apresentar direito a rodada seguinte e não morrer no segundo dia. O problema era esse. Você saía na terça-feira dizendo &#8220;Corinthians arrasador&#8221;, porque meteu 5 a 0 no Palmeiras no domingo, e na quarta-feira perdia para a Esportiva de Guaratinguetá. E a revista tinha 24 horas.</p>
<p><strong>E hoje o pessoal para guardar isso tem que guardar o <em>Lance</em>, que é jornal e não é a mesma coisa.</strong><br />
Pois é. Mas também não se iluda com relação a uma questão: você olha para o <em>Lance</em> com um olhar de adulto; você olhava para a <em>Placar</em> com olhar de criança e olhar de adolescente. Provavelmente, a criança e o adolescente que compram o <em>Lance</em> têm com o <em>Lance</em> o vínculo que você tinha com a <em>Placar</em>. É assim que funciona. A relação que temos com o futebol quando criança é uma coisa que precisamos preservar. Eu tive uma discussão com o Clóvis Rossi na Copa de 1998. Ele estava indignado com a qualidade da Copa e brigou comigo porque eu escrevi que Brasil × Holanda tinha sido uma prorrogação extraordinária. &#8220;Não admito que você, que viu a Copa de 1970, diga um troço desses.&#8221; Falei: &#8220;Está bem. Vamos ver juntos a Copa de 1970 com o olhar de hoje?&#8221; Será que o Pelé chutava a bola 40 metros por cima do travessão? &#8220;Não!&#8221; Chutava… O Rivellino errava passe? Errava! Quando a gente fala assim: &#8220;Ah, o Corinthians nunca teve um time tão ruim quanto esse.&#8221; Teve sim! Teve piores. O &#8220;Faz-me Rir&#8221; é dos tempos dourados do futebol brasileiro. Não é da fase de exportação de jogador. Se você perde essa dimensão, aí você fica mal-humorado.</p>
<p><strong>Também tem outra coisa: se você comparar o Corinthians de hoje com o melhor time brasileiro hoje, seja qual for, a distância é muito menor do que se você comparar o &#8220;Faz-me Rir&#8221; com o…</strong><br />
…o Santos do Pelé. Sem dúvida.</p>
<p><strong>Sobre a &#8220;revista de 24 horas&#8221;, a Kicker alemã não é mais semanal. Ela sai às segundas e às quintas, resumindo a rodada anterior, inclusive a terceira divisão, e apresentando a rodada seguinte, em preto e branco, não sei a qualidade do papel.</strong> (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=epryuev4OUY">Ver o vídeo deste trecho</a>)<br />
Deve ser papel jornal. Cospe da máquina. Uma das bem-sucedidas experiências que <em>Placar</em> fez foi exatamente na Copa de 1994, quando a gente fazia uma revista após cada jogo do Brasil.</p>
<p><strong>Em papel vagabundo…</strong><br />
Em papel vagabundo, mas já <em>full-color</em>, com foto digital. Só o <a href="http://www.pedromartinelli.com.br">Pedrão Martinelli</a> <em>[fotógrafo de </em>Placar<em> à época]</em> conseguiu transmitir aquele troço <em>[os arquivos das fotografias]</em>. E foi um sucesso. A primeira não vendeu nada, a segunda um pouquinho, a terceira um pouco mais, a quarta já satisfatoriamente, a quinta revista foi um sucesso… Na final, com o Brasil campeão, vendeu quinhentos mil. Foi um puta de um sucesso. Nunca ninguém tinha feito. Qual era o compromisso? Chegar junto com o jornal à banca? Mas isso não é, como princípio, a filosofia de uma revista. A revista não foi feita pra concorrer com o jornal. Mas, pelas particularidades nacionais, por mexer com a emoção… O fato é o seguinte: a <em>Guerin Sportivo</em> <em>[revista italiana de esportes]</em> deixou de ser o que era, a <em>El Gráfico</em> <em>[revista argentina de esportes fundada em 1919 e que foi semanal até 2002, passando então a ser mensal]</em> deixou de ser o que era…</p>
<p><strong>E os escudinhos de botão? Entraram e saíram da revista três ou quatro vezes.</strong><br />
Quando saía, a molecada enchia o saco até conseguir fazer voltar. Aquilo era uma coisa bem-sucedida. Mas tinha que parar de vez em quando, porque esgotava. Era um pouco deliberado. Deixávamos a molecada começar a chiar e aí os escudinhos voltavam. Era um pouco uma brincadeira interna.</p>
<p><strong>E o Tabelão, quando deixou de ser publicado, em 1985?</strong><br />
Ele não se aguentava mais financeiramente, porque era muito caro fazer o Tabelão. Mas todos nós sabíamos que era um pecado. São coisas que marcam a história da revista. Quando você tem que tirar, é como aleijar, como perder uma característica da sua personalidade. Mas era sempre por ditames econômico-financeiros.</p>
<p><strong>E a época da <em>Placar Mais</em>? Foi algo preventivo ou reação a alguma coisa?</strong> (<a href="http://www.youtube.com/watch?v=6Dwt_Zb3rEs">Ver o vídeo deste trecho</a>)<br />
Não, ali foi para não fechar. Vamos fazer bem baratinha, a um real.</p>
<p><strong>E ela deu certo no começo?</strong><br />
No começo, ela foi a revista que mais vendia na Abril. A revista ficou a um real <em>[na verdade, a um preço bem baixo na moeda da época, o cruzado, que sofreu alta inflação ao longo das semanas]</em> um tempão, vendia feito água. Só que havia uma curva, e a partir de certo ponto ela se tornava antieconômica. Então tínhamos que segurar a tiragem, porque a partir de um determinado momento, quanto mais ela vendia, pior era o prejuízo. É delicado. Porque ela não vendia publicidade. Nunca vendeu. Nunca foi um bom veículo.</p>
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		<title>Um filme para são-paulinos</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2010 01:16:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
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		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo FC]]></category>

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		<description><![CDATA[Fui assistir ao filme Soberano, documentário que conta a história das seis conquistas nacionais do São Paulo. Como era de se esperar, a grande maioria da audiência era formada por são-paulinos, e as únicas exceções que pude notar foram algumas namoradas torcedoras de outros times acompanhando são-paulinos. Talvez por causa do frio — havia muita gente de casaco —, não vi muitas camisas do São Paulo. Mas eu estava lá com a minha retrô de 1981. O filme era o que eu esperava. Ao contar a história dos dois primeiros títulos, de 1977 e 1986 (que, curiosamente, foram conquistados respectivamente&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2010/09/filme-sao-paulinos/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fui assistir ao filme <em>Soberano</em>, documentário que conta a história das seis conquistas nacionais do São Paulo. Como era de se esperar, a grande maioria da audiência era formada por são-paulinos, e as únicas exceções que pude notar foram algumas namoradas torcedoras de outros times acompanhando são-paulinos. Talvez por causa do frio — havia muita gente de casaco —, não vi muitas camisas do São Paulo. Mas eu estava lá com a minha retrô de 1981.</p>
<p>O filme era o que eu esperava. Ao contar a história dos dois primeiros títulos, de 1977 e 1986 (que, curiosamente, foram conquistados respectivamente em 1978 e 1987), ele conta com uma grande colaboração do &#8220;enredo&#8221;, porque no primeiro o São Paulo entrou como zebra e ganhou nos pênaltis depois de perder as duas primeiras cobranças e no segundo empatou a partida no último minuto da prorrogação, forçando a decisão por pênaltis, onde mais uma vez saiu vitorioso. Esse gol na prorrogação foi especificamente o momento mais emocionante do filme para mim, porque foi um lance bastante insólito, que começou com um chutão a partir da defesa quando tudo parecia perdido. Já no título de 1991 a ênfase é dada em Telê Santana, mesmo com um longo depoimento de Raí. A relação da torcida são-paulina com Telê é uma das coisas mais bacanas de ser são-paulino. A final desse ano é a que tem menor destaque, justamente pelo tempo dedicado ao técnico, mas é uma decisão mais do que acertada.</p>
<p>A partir daí, vem o tricampeonato de 2006, 2007 e 2008. Os dois primeiros não têm um grande clímax, então o foco é a campanha como um todo, o que não aconteceu nos títulos decididos em finais. Em 1977, apesar de o documentário mostrar três gols da campanha, praticamente só se fala na final, algo que se repete em praticamente todas as referências sobre esse campeonato — por isso que contei a história da campanha inteira em reportagem para <em>Placar</em> em 2008, que pretendo transformar em livro. Contrastando com isso, o título de 2007 trata dos números da defesa ao longo do ano e mostra vários gols que construíram aquele título jogo a jogo. O de 2008, ao contrário dos dois anteriores, é lembrado pela arrancada impressionante do time, que chegou a ficar onze pontos atrás do líder a dezoito rodadas do final. Cenas de vários jogos do segundo turno são mostrados, com a posição e pontuação do time, mas isso pouco serve para ilustrar a reação, pois falta uma tabela de classificação, que poderia ser usada ainda que simplificada, para se entender como foi a subida.</p>
<p>Com boa parte dos melhores momentos das três últimas conquistas disponíveis no YouTube e mesmo em DVDs oficiais produzidos pelo São Paulo e pela Rede Globo, o documentário vale especialmente pelas imagens dos três primeirs títulos, mais raras. Já li resenhas sobre o filme dizendo que ele pode até ser recomendado a não-são-paulinos. Discordo. O filme nem é tão ufanista assim, mas tem um tom de exaltação que fica longe de deixá-lo imparcial. Há ainda gols de diversos outros torneios (por exemplo, do primeiro jogo da final do Campeonato Paulista de 1991 e dos dois jogos da final do Paulistão de 1992), embora sem identificação de que não fazem parte do Campeonato Brasileiro cuja história é contada naquele momento. Não sei se foi proposital, mas nenhum dos gols foi em Libertadores ou em Mundiais.</p>
<p>Essas conquistas, aliás, acabam mencionadas apenas de passagem, o que sugere no mínimo mais um filme no futuro. Espero que, nesse caso, escolham um título melhor que &#8220;Soberano&#8221;, que soa arrogante demais…</p>
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		<title>Hora do rush modificada</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 10:09:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
				<category><![CDATA[Foto em Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Barra Funda]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[metrô]]></category>

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		<description><![CDATA[Normalmente às 7h30 da manhã as plataformas do metrô na Estação Barra Funda estão razoavelmente calmas. Raramente é necessário esperar mais de um trem para seguir caminho. Mas na última terça-feira 15, dia do jogo de estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra a Coreia do Norte, as plataformas estavam assim. A explicação é o horário do rush modificado e centralizado, com muita gente entrando às oito horas para poder sair na hora do jogo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Normalmente às 7h30 da manhã as plataformas do metrô na Estação Barra Funda estão razoavelmente calmas. Raramente é necessário esperar mais de um trem para seguir caminho. Mas na última terça-feira 15, dia do jogo de estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra a Coreia do Norte, as plataformas estavam assim. A explicação é o horário do rush modificado e centralizado, com muita gente entrando às oito horas para poder sair na hora do jogo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Arbitragem eletrônica</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jun 2010 21:09:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esporte]]></category>
		<category><![CDATA[arbitragem]]></category>
		<category><![CDATA[beisebol]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos últimos anos as maiores discussões de futebol têm sido em torno de erros ou supostos erros de arbitragem, especialmente aqui no Brasil, uma tendência acelerada pelo anonimato nas discussões de fóruns e nos comentários em blogs de jornalistas esportivos de expressão. Todo mundo acha que seu time só perdeu porque o juiz errou — ou melhor, roubou —, o que me faz pensar que esse povo talvez imagine que, num irreal mundo de arbitragens perfeitas, seus times ganhariam todos os jogos, sendo, pois, campeões de tudo o que disputam. Talvez para ser diferente de tudo isso, eu nunca reclamo&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2010/06/arbitragem-eletronica/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos anos as maiores discussões de futebol têm sido em torno de erros ou supostos erros de arbitragem, especialmente aqui no Brasil, uma tendência acelerada pelo anonimato nas discussões de fóruns e nos comentários em blogs de jornalistas esportivos de expressão. Todo mundo acha que seu time só perdeu porque o juiz errou — ou melhor, roubou —, o que me faz pensar que esse povo talvez imagine que, num irreal mundo de arbitragens perfeitas, seus times ganhariam todos os jogos, sendo, pois, campeões de tudo o que disputam.</p>
<p>Talvez para ser diferente de tudo isso, eu nunca reclamo quando os árbitros erram contra o meu time: eu sempre me lembro que eles às vezes erram a favor. No mundo das discussões acéfalas, o erro a favor seria uma suposta compensação por &#8220;todas as outras vezes&#8221; em que o time foi roubado. Não quero entrar numa análise pseudopsicológica disso. Seria algo entre a natureza do ser humano e o eterno nós-contra-eles que tanto satisfaz certas almas diante de resultados negativos.</p>
<p>A minha intenção é imaginar o que alimentaria tais discussões se a chamada arbitragem eletrônica entrasse em cena no futebol. É uma hipótese extremamente remota — acho que seria mais fácil eu conseguir eleger o porteiro do meu prédio presidente nas eleições de outubro, e no primeiro turno —, mas que sempre é levantada pela imprensa depois de algum erro grave. Não dá sequer para comparar com as ligas norte-americanas que têm algum tipo de arbitragem eletrônica, pois tanto no hóquei no gelo como no beisebol e no futebol americano os árbitros só podem apelar para os <em>replays</em> em alguns casos bem definidos.</p>
<p>Ontem mesmo, na liga de beisebol, um erro crucial criou <a href="http://sportsillustrated.cnn.com/2010/writers/tom_verducci/06/02/joyces.missed.call/index.html?eref=sihp" class="broken_link">uma polêmica</a> que pode fazer com que a arbitragem eletrônica no esporte seja estendida além de apenas verificar se <em>home runs</em> foram corretamente anotados. Armando Galarraga, arremessador venezuelano do Detroit Tigers precisava de apenas uma eliminação para conseguir um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jogo_perfeito">jogo perfeito</a>. O feito, que consiste em eliminar todos os rebatedores adversários, é tão raro que apenas vinte arremessadores conseguiram-no em toda a história do beisebol — apesar de dois deles terem conseguido nesta temporada, algo que não acontecia desde 1880.</p>
<p>No que deveria ter sido seu último arremesso, o interbases Jason Donald, do Cleveland Tigers, rebateu a bola na direção de Miguel Cabrera, que a recolheu e passou para Galarraga, que cobria a primeira base. O arremessador <a href="http://mlb.mlb.com/video/play.jsp?content_id=8616789" class="broken_link">pisou na base</a> com a bola pelo menos um passo antes de Donald, mas o árbitro da primeira base, Jim Joyce, assinalou que o jogador estava salvo. O jogo perfeito tinha ido para as cucuias. E não só o jogo perfeito, como algumas <a href="http://sports.yahoo.com/mlb/blog/big_league_stew/post/Robbed-Blown-call-costs-Armando-Galarraga-a-per?urn=mlb,245292">marcas relacionadas</a>: teria sido o menor número de arremessos em um jogo perfeito desde 1908 e o jogo perfeito mais curto desde 1965.</p>
<p>Talvez o mais impressionante nessa história toda tenha sido o fato de o juiz que errou ter assumido seu erro, pedindo desculpas a Galarraga pessoalmente. E ele não se limitou a pedir desculpas privadamente; <a href="http://wxyt.cbslocal.com/2010/06/03/jim-joyce-right-after-he-robbed-armando-galarraga-of-a-perfect-game/" class="broken_link">em entrevista</a> após ver o <em>replay</em> e perceber o que tinha feito, ele reconheceu que errou. Algo inimaginável no futebol, especialmente no futebol brasileiro, onde os árbitros ficam incomunicáveis, mesmo para a imprensa, após os jogos, especialmente quando houve algum erro clamoroso.</p>
<p>O próprio Galarraga comportou-se como um cavalheiro. Ao invés de espernear, xingar e amaldiçoar, não, ele simplesmente sorriu, com um ar de incredulidade, logo após o lance. Seus companheiros de time e seu técnico reclamaram. Ele seguiu em frente e eliminou mais um adversário, encerrando definitivamente a partida. Mesmo depois do jogo, quando já tinha a mais absoluta das certezas de que ele deveria àquela altura estar com um jogo perfeito no currículo, ele teve uma atitude ímpar. Ao saber, por meio de um repórter do jornal <em>Detroit Free Press</em>, que Joyce tinha assumido o erro e estava se sentindo péssimo, sua resposta veio com classe.</p>
<blockquote><p>&#8220;Diga a ele que não tem problema&#8221;, disse Galarraga. &#8220;Eu posso ir dizer a ele.&#8221; Ele sorriu. &#8220;Eu provavelmente deveria falar com ele. Vai ser melhor.&#8221; E foi o que ele fez.</p>
<h6><a href="http://www.freep.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20100603/SPORTS02/6030588/1321/Armando-Galarragas-near-perfect-night-marred-by-gaffe&amp;template=fullarticle" class="broken_link">Michael Rosenberg</a>, <em>Detroit Free Press</em>, 3/6/2010</h6>
</blockquote>
<p>Nesta manhã, foi o grande assunto do noticiário esportivo norte-americano. Houve quem <a href="http://joeposnanski.si.com/2010/06/02/the-lesson-of-jim-joyce/" class="broken_link">aplaudisse de pé</a> as atitudes de Galarraga e Joyce, quem <a href="http://sportsillustrated.cnn.com/2010/writers/frank_deford/06/03/deford.galarraga/index.html" class="broken_link">defendesse</a> a mudança do resultado (algo que mais tarde seria <a href="http://sportsillustrated.cnn.com/2010/writers/tom_verducci/06/03/joyce.selig/index.html" class="broken_link">rejeitado oficialmente</a> pela liga) e muitos que voltaram a <a href="http://sportsillustrated.cnn.com/2010/writers/tom_verducci/06/03/joyce.selig/index.html" class="broken_link">tocar no assunto</a> da arbitragem eletrônica estendida a outras situações, o que a liga disse que estudará.</p>
<p>No futebol, não existe sequer essa discussão por parte de quem decide, apenas por parte da imprensa. Quem decide é a International Board, que mexeu em pouquíssimas regras do esporte ao longo do último século. Não que isso seja um problema; ficar mudando tudo a toda hora seria péssimo. Mas já faz algum tempo que está na hora de mexer nessa regra que faz crer que a Fifa ainda acredita em infalibilidade dos árbitros. Eles falham, e falham muito, e todos os jogos, até os da segunda divisão nacional, já têm várias câmeras espalhadas pelo estádio, o que é facilmente comprovado pelo <em>pay-per-view</em> quase onipresente.</p>
<p>Falando só no Brasil, provavelmente não seria possível adotar essa solução em todos os campeonatos, como alguns estaduais menores e as divisões inferiores. Mas isso já poderia ajudar bastante justamente nos torneios de maior visibilidade. Sei que nada disso vai acontecer. A Fifa vira-e-mexe dá declarações dizendo que não gostaria de eliminar a polêmica do futebol, como se esse fosse um grande argumento contra a arbitragem eletrônica. Será que não seria melhor as discussões na segunda-feira serem sobre os lances bonitos da rodada, em vez das falhas de arbitragem?</p>
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		<title>Uma história que merecia ser contada</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 15:33:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alexandre Giesbrecht</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esporte]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[Placar]]></category>

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		<description><![CDATA[Em primeiro lugar, cumpro o dever de avisar que eu estava com um projeto de escrever a história da Placar, tendo inclusive feito e transcrito diversas entrevistas. Apesar disso, recebi com alegria o lançamento de Onde o Esporte se Reinventa — Histórias e bastidores dos 40 anos de Placar. Sim, é verdade que o livro basicamente torna desnecessário o meu esforço, embora ele não tenha sido menos prazeroso por isso. Mas meu desejo de escrevê-lo surgiu da vontade de ler essa história, que não sabia que já estava sendo contada. E o trabalho de Bruno Chiaroni e Márcio Kroehn possibilitou&#8230; [<a href="http://blog.pittsburgh.com.br/2010/06/uma-historia-que-merecia-ser-contada/">Continuar a ler</a>]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em primeiro lugar, cumpro o dever de avisar que eu estava com um projeto de escrever a história da <em>Placar</em>, tendo inclusive feito e transcrito diversas entrevistas. Apesar disso, recebi com alegria o lançamento de <em>Onde o Esporte se Reinventa — Histórias e bastidores dos 40 anos de Placar</em>. Sim, é verdade que o livro basicamente torna desnecessário o meu esforço, embora ele não tenha sido menos prazeroso por isso. Mas meu desejo de escrevê-lo surgiu da vontade de ler essa história, que não sabia que já estava sendo contada. E o trabalho de Bruno Chiaroni e Márcio Kroehn possibilitou que eu não tivesse de esperar para lê-la.</p>
<p>A primeira impressão, claro, é o &#8220;pacote&#8221;. É um livro bem acabado, com papel de qualidade e mais de quatrocentas páginas. A não ser pela foto da Bola de Prata e pela pequena menção ao nome da revista no subtítulo, não se percebe que o tema é a história da <em>Placar</em>. Há algumas capas ao fundo, mas, não sei se propositalmente ou não, elas estão borradas e bastante escuras, a ponto de ser possível identificar apenas a do número 1, no alto à esquerda. A diagramação é bem cuidada e separa bem o texto do livro dos boxes com reproduções de matérias. A coluna deixada vazia nas laterais externas das páginas é um recurso para inserir notas &#8220;de rodapé&#8221; e eventuais auxílios gráficos, como capas das revistas de onde tiraram matérias, mas foi pouco explorada, e a gigantesca maioria das páginas ficou com essa coluna totalmente em branco. Já na página 323 um erro de impressão, que talvez esteja limitado apenas ao meu exemplar, sobrepôs pedaços de texto sobre o início das últimas linhas. Como isso aconteceu em apenas um centímetro, dificultou, mas não impediu a leitura. Já a impressão das legendas das fotos no encarte não chegou a ficar ilegível, mas foi escolhida uma fonte fina demais. A qualidade da impressão de algumas das fotos também deixou a desejar. Uma das pessoas que cederam fotos disse-me que a foto fornecida tinha melhor qualidade do que a que saiu.</p>
<p>O tema foi tratado desde o início com loas e reverências à revista e sua história, algo perfeitamente compreensível, não só pelo provável histórico dos autores com a revista (que, suspeito, deve ser bem parecido com o meu), mas também porque os entrevistados deixam muito claro o quanto a revista foi importante para eles e o quanto gostaram de passar por lá. Não que fique parecendo que a vida da revista foi o tempo inteiro o mar de rosas. Os inúmeros percalços e mudanças estão lá e foram tratados e quase todos detalhados. O único senão foi a fase &#8220;Todos os Esportes&#8221;, que foi esmiuçada a partir do momento que foi implantada, sem expor os motivos da decisão.</p>
<p>Apesar de o texto não seguir o tempo todo uma ordem necessariamente cronológica, a história é bem linear, sem exigir esforço do leitor para se lembrar em que fase da revista está. Contar essa história cronologicamente, com precisão de datas, seria quase impossível, e alguns temas, como a fotografia e a cobertura de outros esportes, ganharam capítulos à parte que ajudam a inserir histórias cujas datas se perderam no tempo ou que não se encaixariam facilmente na cronologia de acontecimentos que decidiram a sorte da publicação. Outras histórias nessas condições, mas que não tiveram como ser agrupadas em um mesmo tema, foram polvilhadas em microcapítulos ao final de cada capítulo, uma boa solução para não deixar muito material interessante de fora. A narrativa só se perde um pouco no final, quando a fase atual da revista, que já tem quase sete anos e inclui a criação do <em>Jornal Placar</em>, é passada em apenas oito páginas (mais os trechos de reportagens) e encerra-se bruscamente.</p>
<p>O recurso dos trechos de matérias dá a quem não as tem em arquivo a oportunidade de lê-las. Talvez elas devessem ter sido inseridas como apêndices no final do livro, mas não dá para dizer que incomodam a leitura, pois estão muito bem delimitadas e quem já as conhece pode pulá-las facilmente. Algumas delas poderiam ter sido resumidas — a da Máfia da Loteria ocupou quase 16 páginas — e outras talvez pudessem ser suprimidas, mantendo publicadas apenas as que de fato marcaram a história da revista.</p>
<p>Longe de comprometer o livro, a revisão deixou a desejar. O acento grave é usado incorretamente em algumas ocasiões e em outras há erros de digitação, especialmente nos trechos de matérias, o que sugere o uso de um software de reconhecimento de caracteres sem a devida checagem. Curiosamente, esses erros aparecem com mais frequência a partir da segunda metade do livro. Mas o único erro realmente grave está na página 413, quando o verbo &#8220;taxar&#8221; (&#8220;determinar, estabelecer a taxa do preço de&#8221;, de acordo com o Michaelis) é usado no lugar de &#8220;tachar&#8221; (&#8220;considerar depreciativamente, qualificar&#8221;, de acordo com o mesmo dicionário).</p>
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