Pseudopapel

O antigo prédio do Porto Seguro, na Praça Roosevelt

Porto Seguro na Praça Roosevelt (desenho de Igino Rotta)

Em 1978 o Colégio Visconde de Porto Seguro comemorou seu centésimo aniversário. Na época o professor Igino Rotta, que ali lecionava, fez o desenho acima, que ilustra o prédio ocupado pelo colégio durante 62 anos, entre 1913 e 1974. Curiosamente, naquele mesmo ano a escola viu esse prédio passar a ser ocupado por uma nova escola, a Caetano de Campos, uma instituição estadual que havia se mudado de um edifício que ocupara por ainda mais tempo na Praça da República, onde hoje se localiza a Secretaria de Educação. Em 13 de fevereiro de 1978 o prédio da Rua Olinda, às margens da Praça Roosevelt, voltou a ser ocupado por alunos depois de pouco mais de três anos.

“Acostumadas desde 1913 a ouvir mais palavras em alemão do que em português, as sólidas e recém-pintadas paredes do antigo Colégio Visconde de Porto Seguro, na Praça Roosevelt, certamente vão estranhar as novas vozes que ecoarão pelas 22 salas de aula e longos corredores do prédio”, escreveu a repórter Gisella Bisordi na Folha de S. Paulo do dia 12. Se a prosopopeia das paredes mencionada na reportagem não fosse uma mera figura de linguagem, é possível que as paredes estranhassem ainda mais o ambiente em que estava inseridas, pois o prédio passou por uma grande reforma depois que foi adquirido pela Secretaria de Educação do estado de São Paulo, seu terceiro dono desde que o Porto Seguro o utilizou como parte do pagamento à construtora Servix, que ergueu o complexo de quatro alqueires no Morumbi, onde o colégio funciona desde 1975 — e onde estudei entre 1982 e 1993. A construtora devia ao Banco Central, a quem repassou o edifício, mais tarde vendido para a secretaria estadual.

A reforma, que custou cinco milhões de cruzeiros, foi feita em pouco mais de um mês, com mais de 250 operários trabalhando dia e noite para deixar tudo pronto para o início do ano letivo de 1978. Havia muito a se fazer nesse tempo, inclusive limpar o pórtico de granito com jatos d’água com pressão, mas nas paredes não foi necessário mexer, pois elas não tinham nenhuma rachadura. O projeto foi do arquiteto Benedito Lima de Toledo, que também tinha grandes planos para transformar o entorno da escola, a própria Praça Roosevelt, em um centro de convivência cultural, algo bem diferente do que a praça tinha se tornado naqueles primeiros oito anos após a inauguração da estrutura de concreto da praça, em 25 de janeiro de 1970, quando já apresentava sinais de degradação. Toledo era especialmente contra o supermercado que funcionava em um dos andares da praça. “Uma praça pública, construída com o dinheiro do povo, tem de ter equipamentos de utilidade pública”, declarou o arquiteto à Folha em 1978. Ele também sonhava com uma feira permanente de ciências, uma estufa, um herbário e um bromeliário.

Nada disso saiu do papel. Flores na praça de concreto, apenas nas floriculturas que ficavam atrás da Igreja Nossa Senhora da Consolação, próximo à área que ficava coberta pela Praça do Pentágono, uma das estruturas da Roosevelt. Áreas culturais floresceram de maneira independente no quarteirão da Rua Martinho Prado que margeia a praça, sob a forma de teatros alternativos que recuperaram parcialmente a região. O supermercado só seria fechado em 2006. Já as estruturas de concreto começaram a ser demolidas em setembro de 2010, e a praça voltou a ser um canteiro de obras, provavelmente não muito diferente do que meu pai viu nos últimos anos em que estudou no Porto Seguro, em fins dos anos 1960. Com a demolição das estruturas de concreto, o antigo prédio do Porto Seguro fica mais visível. Na foto abaixo, tirada em 12 de maio de 2009, percebe-se que a Praça do Pentágono impedia que se tivesse uma boa visão do prédio.

Praça Roosevelt em maio de 2009

O atual Caetano de Campos está bem conservado. O prédio ao lado, que um dia foi anexo do Porto Seguro, encontra-se totalmente abandonado e sem perspectivas de recuperação, mesmo com a reforma da praça, como aponta Douglas Nascimento, do site São Paulo Antiga. Os arredores não estão muito diferentes do que eram no fim dos anos 1960. Mas a paisagem está para mudar por causa das reformas, que podem revitalizar a área. Isso pode acarretar as consequências de sempre como a chegada de ainda mais novos empreendimentos residenciais e comerciais na região. Um deles já está sendo vendido, no local do antigo Hotel Cad’Oro, na esquina das ruas Augusta e Caio Prado, um quarteirão acima do Caetano de Campos. O prédio de que falei dois meses atrás, na Rua Álvaro de Carvalho, já citava em sua propaganda a Praça Roosevelt como um atrativo, algo inimaginável na época em que a foto acima foi tirada, meros 27 meses atrás.

4 comentários

elisabete (6)

Adorei a matéria, eu estudei no Caetano de Campos até 1997 e me lembro muito bem da singular arquitetura desse edifício, principalmente das imponentes escadas…. me deu saudade!

5 de novembro de 2011, 0:02

Alexandre Giesbrecht

Obrigado. Apesar de eu não ter estudado ali, faz parte da minha história.

5 de novembro de 2011, 13:21

Ricardo Rosado (1)

Estudei no Porto Seguro no inicio da década de setenta. Muita saudade e nenhum contato com amigos da época. Saudade do hino nacional cantado todas as segundas feiras de fronte a bandeira no patio central, Hino tocado nas salas nas sextas feiras, Amigos que me recordo: Vinicius, Peter Dreschler, Peter Frauendorff, Ingrid Kauffmann, Sigrid, Márcia e Rose, sempre juntas, Rauff. São alguns que me lembro depois de mais de 40 anos… Saudades…

24 de maio de 2013, 19:03

Suli (1)

Estudei no Porto Seguro,tenho boas lembranças,apesar de ser pequena,mas era um momento tão mágico,tão sublime,para mim,que ate passeava de bicicleta nos finais de semana na praça Roosevelt,domingo para mim,em SP era festa,tinha um ar de nostalgia,adorava..Ficou boas lembranças nesta minha vida,bons tempos!!Coisas que vivi e passei,que ninguém neste mundo saberá,a alegria quando revivo em fotos e doces lembranças…

19 de janeiro de 2014, 7:50

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Quem?

Alexandre Giesbrecht nasceu em São Paulo, em abril de 1976, e mora no bairro do Bixiga. Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, é autor do livro São Paulo Campeão Brasileiro 1977 (edição do autor).

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