Pseudopapel

Um espigão revitaliza?

Urbe, na Rua Álvaro de Carvalho

Na última página do caderno Mer­cado da Folha de S. Paulo de domingo, 1.º de maio, há um anúncio de página inteira exal­tando o “breve lan­ça­mento” de um prédio de apar­ta­mentos de um e dois dor­mi­tó­rios cha­mado “Urbe” (o anúncio já deve ter sido repe­tido algumas vezes nesse meio-tempo). O de sempre: algumas dezenas de apar­ta­mentos, com área de 44 a 60 metros qua­drados, incluindo uni­dades de dois dor­mi­tó­rios com 45 metros qua­drados, pos­si­vel­mente pro­je­tadas para pro­to­zoá­rios, não para seres humanos. Ima­gine um casal com um filho morando em um desses cubí­culos, que são menores do que apar­ta­mentos de hotel de cate­goria intermediária.

Mas não há nada de dife­rente nesse anúncio, a não ser por sua loca­li­zação: na Rua Álvaro de Car­valho, na Con­so­lação, pró­ximo à Praça da Ban­deira. A Álvaro de Car­valho é uma rua degra­dada por dois via­dutos, o Nove de Julho e o Major Que­dinho, e tem saída de esca­da­rias de acesso a esses via­dutos, que cos­tumam ser ocu­padas por men­digos, mora­dores de rua e dro­gados, não exa­ta­mente a popu­lação que quem pro­cura um apar­ta­mento desses gos­taria de ter como vizi­nhos. O pró­prio empre­en­di­mento está loca­li­zado bem pró­ximo ao Via­duto Nove de Julho.

Nada disso, claro, é citado no anúncio, que limita-se a citar “alguns atra­tivos da vizi­nhança”, como a pro­xi­mi­dade do Masp, da Ave­nida Pau­lista, do Shop­ping Frei Caneca e da Rua Ava­nhan­dava. A não ser pela Ava­nhan­dava, real­mente pró­xima, “pro­xi­mi­dade” soa como um termo rela­tivo, já que o Shop­ping Frei Caneca está a mais de um quilô­metro e meio do empre­en­di­mento (dis­tância que será maior para quem vai de carro), enquanto o Masp e a Pau­lista estão a mais de dois. Também são citados hos­pi­tais, uni­ver­si­dades, uma “vida cul­tural intensa” e “grande oferta de ser­viços”. Outro atra­tivo, citado com ainda mais des­taque, é que o empre­en­di­mento está a tre­zentos metros do Metrô.

Tudo ver­dade, inclu­sive a dis­tância até o Metrô — até a entrada, bem enten­dido, porque para se chegar à pla­ta­forma da Estação Anhan­gabaú há que se descer três lances de escada, de tão funda que é a estação. Obvi­a­mente, outras ver­dades sobre a região não são men­ci­o­nadas, como os já citados vizi­nhos, a inse­gu­rança e o aban­dono da região, o grande volume de veí­culos do horário do rush… Curi­o­sa­mente, o mapa que acom­panha o anúncio des­taca a Praça Roo­se­velt, que fica a pouco mais de qui­nhentos metros do local. Até pouco tempo atrás, ela nunca foi um grande atra­tivo, aban­do­nada e deca­dente que estava. Mesmo hoje, apesar de alguma revi­ta­li­zação pro­por­ci­o­nada pelos diversos tea­tros em seus arre­dores e das reformas que pro­metem renovar de vez o logra­douro, não tenho cer­teza se ainda é um grande chamativo.

Isto tudo posto, se a única dife­rença deste empre­en­di­mento para qual­quer outro dentre as dezenas anun­ci­ados no jornal de hoje é a loca­li­zação, por que eu decidi falar dele? Porque… bem, porque eu gosto da ideia dele, des­con­tada a metragem ridí­cula de seus apar­ta­mentos. Sim, com cerca de 150 apar­ta­mentos (cál­culo que fiz baseado na ilus­tração do prédio no anúncio), ele vai des­pejar uma quan­ti­dade de carros nas ruas do bairro que vai pre­ju­dicar ainda mais o trân­sito. Mas talvez esse seja o preço a se pagar para revi­ta­lizar a Rua Álvaro de Car­valho e seu entorno. Quem sabe a Pre­fei­tura volte a dar alguma atenção à região com supostos “for­ma­dores de opi­nião” ali, incluindo também na conta outro empre­en­di­mento, em estado um pouco mais avan­çado, poucos metros acima na mesma Álvaro de Car­valho. Além disso, tudo que o novo predio vai subs­ti­tuir é um anó­dino esta­ci­o­na­mento, ao con­trário de um empre­en­di­mento similar que causou a cri­mi­nosa demo­lição de um casarão na esquina das ruas Augusta e Antônia de Queiroz, no final do ano passado.

É claro que isso poderia ter sido feito com a reno­vação e moder­ni­zação de pré­dios de apar­ta­mentos já exis­tentes na via. Um pas­seio por ali mostra que pré­dios resi­den­ciais ali não faltam, e a mai­oria deles está num estado las­ti­mável de con­ser­vação. A uti­li­zação deles agre­diria menos a região, pois não adi­ci­o­naria um número de habi­tantes muito maior do que o atual. Pouco abaixo do Urbe, o prédio do antigo Hotel Cam­bridge deverá agora ser refor­mado para abrigar mora­dias popu­lares, cri­ando uma inte­gração que cos­tuma ser apon­tada como uma das solu­ções para reverter a situ­ação de regiões degra­dadas. Estou certo? Não tenho tanta cer­teza; só o tempo dirá. Mas vale ter alguma espe­rança em relação a pelo menos um dos tantos empre­en­di­mentos lan­çados todos os anos em São Paulo.

O que você acha?

5 comentários

Thiago Leal (6)

Suas crí­ticas ao anúncio são mera­mente ilus­tra­tivas? Porque ima­gino que você tenha a cons­ci­ência sobre a prá­tica da publi­ci­dade baseada em omitir (e mentir, às vezes).

Acho que se um arranha-céu real­mente tem esse poder de dar uma revi­ta­li­zada na área, é de grande valor. Sou até sus­peito para falar disso porque sou uma pessoa apai­xo­nada por pré­dios e apar­ta­mentos. Nunca gostei de morar em casa e desde o divórcio dos meus pais (aos meus 8 anos) a melhor coisa foi que morei a maior parte do tempo em apar­ta­mentos — em dois ao mesmo tempo, porque sempre tive o do meu pai também. Sempre que vejo pré­dios em cons­trução aqui (e isso está aumen­tando MUITO ulti­ma­mente) gosto de me informar a res­peito, até porque meu pai é um cara que se muda cons­tan­te­mente. Só não entendi, embora tenha visto a placa URBE na foto, onde é o local exato que o prédio quer subir.

Mas você sabe o preço dos apar­ta­mentos? Porque a revi­ta­li­zação depende muito também do público que o empre­en­di­mento atrai, e não me refiro a poderio finan­ceiro, mas sim de edu­cação e meio de vida. Aqui em João Pessoa um edi­fício X que tinha o intuito de ser fami­liar acabou atraindo, pelo preço, mais jovens yup­pies, estu­dantes uni­ver­si­tá­rios e pes­soas de com­por­ta­mento sub­ver­sivo que que­riam um lugar mais sos­se­gado para certas ati­vi­dades com as quais não corroboro.

Acho, no entanto, que isso é meio impre­vi­sível. neste caso foi o que acon­teceu aqui e em pouco tempo a área, que até então era de cres­cente espe­cu­lação, foi esque­cida e as placas de cons­tru­toras nos locais sumiram.

17 de junho de 2011, 21:07

Thiago Leal (6)

Só pra explicar, que acho que no comen­tário ante­rior não deixei claro. Nada contra jovens yup­pies ou uni­ver­si­tá­rios, mas em geral o com­por­ta­mento do público no edi­fício em questão tornou a área um tanto quanto “barra-pesada”. Até lembra o centro de Berlim no filme Chris­tiane F.

17 de junho de 2011, 21:11

Alexandre Giesbrecht

O local exato do prédio, que ainda nem começou a ser cons­truído, é todo o ter­reno que tem o carac­te­rís­tico piso pau­lis­tano como cal­çada. Por enquanto, só há o stand de vendas. Pelo tipo de anúncio, eles parecem estar bus­cando sol­teiros e chefes de família jovens, mas é difícil saber o que vai acabar acon­te­cendo nesse sen­tido ou mesmo o que o Mar­ke­ting da empre­en­de­dora tem em mente. O preço não é dos mais aces­sí­veis. Não duvido que um apar­ta­mento dos menores no tal Urbe custe o triplo ou até mais do que um apar­ta­mento no prédio à direita na foto, que cer­ta­mente é muito maior, mas está muito mais mal cuidado.

17 de junho de 2011, 21:19

Ralph Giesbrecht (35)

Para mim, um prédio como qual­quer outro: cau­sador de pro­blemas de todos os tipos. Não vejo dife­rença alguma. Total­mente dispen´savel e inutil: já há pré­dios demais na cidade e infra­es­tru­tura de menos. Não há espaços mais para os carros — veja os con­ges­ti­o­na­mentos dia­rios. Enfim: mais uma por­caria na cidade. Quer revi­ta­lizar uma cidade? Limpe-a, em pri­meiro lugar.

17 de junho de 2011, 22:06

Alexandre Giesbrecht

Você é menos con­tra­di­tório que eu…

18 de junho de 2011, 7:50

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