Pseudopapel

A antiga Estação Artur Alvim

Placa antiga da Estação Artur Alvim

A Estação Artur Alvim do Metrô foi inau­gu­rada em 17 de setembro de 1988, junto com a Estação Patri­arca. Além da arqui­te­tura similar, elas tinham em comum à época o fato de ter como vizi­nhas esta­ções homô­nimas, per­ten­centes ao Ramal Leste da Com­pa­nhia Bra­si­leira de Trens Urbanos (CBTU), a atual Linha 11-Coral da CPTM. Era por essas duas esta­ções que pas­savam “os anti­quados trens comuns que fazem a ligação entre o centro da cidade e a região leste da Grande São Paulo”, em defi­nição do jornal Folha de S. Paulo à época. Para a CBTU, nada mudou, nem a qua­li­dade do (mau) ser­viço for­ne­cido. Nunca houve inte­gração gra­tuita entre os trens de subúrbio e o Metrô nessas esta­ções. Em Artur Alvim, as esta­ções pas­saram a ser inte­gradas três meses após a inau­gu­ração da parada do Metrô, mas era neces­sário o paga­mento de nova passagem.

A inau­gu­ração dos vizi­nhos modernos deter­minou que as anti­quadas esta­ções erguidas nos anos 1940. Depois que a CPTM assumiu as linhas da CBTU, incluindo o Ramal Leste, os planos da empresa eram criar o cha­mado Expresso Leste, que cor­reria pelo Ramal Leste, que passou a ser bati­zado de Linha E-Laranja e, desde o pri­meiro semestre de 2008, Linha 11-Coral. O Expresso Leste, que teve inves­ti­mentos de 753 milhões de reais, aca­baria com várias esta­ções no per­curso entre as esta­ções da Luz e Guai­a­nases, para ofe­recer uma opção ao mora­dores da Zona Leste que depen­diam de um Metrô super­lo­tado. Em 26 de maio de 2000 o trem parou pela última vez nas esta­ções Enge­nheiro Gual­berto, Carlos de Campos, Vila Matilde, Patri­arca, Artur Alvim, Ita­quera, Quinze de Novembro e Guai­a­nazes — em Cle­mente Falcão o trem já não parava desde 1981.

A Estação Artur Alvim, outrora conhe­cida como Oitava parada, saiu de cena. Com o Metrô ao lado e a pos­si­bi­li­dade de ofe­recer naquela linha um ser­viço mais rápido, talvez tenha sido a melhor solução. Pelo ser­viço pre­cário que lá foi ofe­re­cido ao longo de pra­ti­ca­mente toda a sua vida, deixou poucas sau­dades, mas sem a menor dúvida ficou na lem­brança dos que tes­te­mu­nharam um dos piores aci­dentes na his­tória da rede fer­ro­viária pau­lista. Por volta das 8h50 a com­po­sição de pre­fixo SW-3 che­gava à Estação Artur Alvim car­re­gando duas mil pes­soas rumo à Estação Roo­se­velt, no Brás, à época o final da linha. Mas, por ser um trem expresso, ele não pararia ali e seguiria pela pas­sagem de nível que existia logo após a estação. Naquele mesmo ins­tante, o ônibus de placas HW 6824, da Auto Viação São José, atra­ves­sava a pas­sagem de nível. “Quando vi o ônibus entrar na con­tramão da pista da pas­sagem de nível, em rela­tiva velo­ci­dade, per­cebi que iria bater”, disse o maqui­nista da Rede Fer­ro­viária Federal (RFFSA) em depoi­mento dois dias depois do aci­dente. “Aci­onei o sis­tema de freios elé­tricos da com­po­sição, mas não houve tempo para evitar o acidente.”

A RFFSA divulgou naquela tarde um comu­ni­cado em que lamen­tava as dezoito mortes (que seriam 21 mais tarde) e os 22 feridos e cul­pava o moto­rista do ônibus, àquela altura em estado grave no hos­pital. Ele teria igno­rado “avisos acús­ticos e lumi­nosos exis­tentes na pas­sagem de nível”, aden­trando “impru­den­te­mente o leito fer­ro­viário”. Entre­tanto, existia a pos­si­bi­li­dade de, por haver um trem parado na pla­ta­forma sen­tido Estu­dantes da Estação Artur Alvim, o alarme sonoro ter parado. Como o sinal lumi­noso é pre­ju­di­cado pelos raios de sol matu­tinos, talvez a expli­cação para o aci­dente esti­vesse aí. Outra hipó­tese é de que o moto­rista teria ima­gi­nado que o trem pararia em Artur Alvim, e ele teria tempo para passar. O Pseu­do­papel não con­se­guiu des­co­brir como foi fechado o inqué­rito. Duas semanas após o aci­dente mora­dores da região reu­niram mais de 31 mil assi­na­turas em um abaixo-assinado pedindo a ins­ta­lação de uma can­cela na pas­sagem de nível e ame­a­çavam até sentar-se nos tri­lhos para forçar uma solução para aquele pro­blema. Hoje há uma pas­sagem sub­ter­rânea ligando a Ave­nida Águia de Haia à Rua Dr. Luís Aires.

Além desse e de outros aci­dentes menores, a Estação Artur Alvim também foi palco de revoltas popu­lares contra o pés­simo ser­viço que era ofe­re­cido pela RFFSA, como em 6 de feve­reiro de 1981, quando mais de cinco mil pes­soas ape­dre­jaram um trem que que­brara ali e impedia a pas­sagem de outras com­po­si­ções. Em seguida a mul­tidão depredou as inta­la­ções da estação. Enquanto isso, na Estação Vila Matilde havia des­do­bra­mentos: pas­sa­geiros irri­tados com o atraso cau­sado pelos inci­dentes em Artur Alvim incen­di­aram a estação e os trens lá parados. Para conter todos os enfu­re­cidos popu­lares a polícia usou bombas de gás lacri­mo­gêneo, e a vio­lência da repressão poli­cial teve até tiros, dis­pa­rados nas depen­dên­cias da Estação Artur Alvim. No fim das contas, houve 38 feridos e cinco a oito com­po­si­ções quei­madas — a RFFSA não for­neceu o número cor­reto. Vila Matilde sofreu mais danos, então por alguns dias, sem bilhe­te­rias, os pas­sa­geiros que por lá embar­cavam faziam-no gra­tui­ta­mente, ao con­trário de Artur Alvim, cujos gui­chês não foram afetados.

A antiga estação segue visível, tanto para os usuá­rios do Expresso Leste como para quem está na pla­ta­forma sen­tido Barra Funda da estação do Metrô. A partir desta, inclu­sive, é pos­sível ver na pla­ta­forma desa­ti­vada uma antiga placa, na foto que abre este texto. Nessa placa lê-se “Eng. Artur Alvim”, além das indi­ca­ções dos des­tinos para ambos os lados, São Paulo (no caso, Roo­se­velt) e Rio de Janeiro (Cen­tral do Brasil), que dão uma ideia de há quanto tempo essa placa está aí. A grande parte ver­melha da foto é parte da sina­li­zação do Metrô. Em setembro de 2004 foi divul­gado que a CPTM tinha planos de alugar a estação para pequenos comér­cios, assim como outras das esta­ções desa­ti­vadas em maio de 2000. O pro­jeto nunca foi para a frente, e Artur Alvim segue aban­do­nada. A seguir, apre­sento algumas fotos que bati em uma visita à estação.

Antigo acesso à Estação Artur Alvim

Quem sai das catracas do Metrô e segue à esquerda, rumo ao ter­minal de ônibus, passa pelo acesso à estação antiga, hoje fechado por cor­rentes de plás­tico, com um papel colado a uma coluna com fita crepe esta­be­le­cendo que apenas “pes­soas auto­ri­zadas” podem entrar ali. Na foto abaixo, a estação de Metrô está à esquerda. É pos­sível ver ao centro as cober­turas das plataformas.

As duas estações Artur Alvim, lado a lado

Portões giratórios da antiga Estação Artur Alvim

Portões enferrujados na Estação Artur Alvim

O que antes era o acesso da estação ao ter­minal de ônibus hoje virou um esta­ci­o­na­mento, com carros parados em frente até mesmo aos antigos por­tões gira­tó­rios de ferro, que ainda são vistos em diversas outras esta­ções da CPTM. Hoje ficam tra­vados para impedir a entrada e a fer­rugem já toma conta das partes mais expostas às intempéries.

Prédio da antiga Estação Artur Alvim

Do outro lado da pas­sa­rela, o esta­ci­o­na­mento ocupa também a parte em frente ao antigo prédio da estação. No fundo, um trem chega à estação do Metrô, no sen­tido Barra Funda.

Trem passa pelas plataformas da antiga Estação Artur Alvim

Quem olhar de relance de dentro do trem pode ter a impressão de que ele deixou de parar em uma estação quando passa por Artur Alvim. Na última vez que um trem parou nessa estação, a com­po­sição não era tão moderna quanto esta da foto.

4 comentários

CASSIO ROGERIO SABINO (1)

PARABENS PELA MATERIA, MUITO BEM ELABORADA E COM UM RICO CONTEUDO HISTORICO

18 de novembro de 2011, 22:59

Alexandre Giesbrecht

Muito obri­gado pelo comen­tário, Cassio. Muito legal receber um elogio desses tanto tempo depois de o texto ser publicado!

18 de novembro de 2011, 23:03

Bruno (6)

conheci seu blog hoje e estou ado­rando! muito bom o ser­viço infor­ma­tivo e foto­gra­fico! E agora fiquei curioso com o des­fecho do inqué­rito, se é que houve um

10 de dezembro de 2011, 12:48

Alexandre Giesbrecht

Valeu, Bruno. Eu também fiquei muito curioso sobre o des­fecho quando escrevi o texto. Vas­cu­lhei bas­tante, a ponto de pro­curar até em noti­nhas todos os dias no acervo da Folha, mas parece que eles não ficaram tão curi­osos. Quem sabe em uma futura vas­cu­lhada pelos arquivos do Diário Popular? Ou, se alguém conhecer o caminho das pedras para o his­tó­rico de inquéritos…

10 de dezembro de 2011, 13:09

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